O trabalhador e o fim da escala 6 por 1. O que nos impede?

Maria Auxiliadora Roggério

Neste 1º de maio de 2026, os trabalhadores puderam celebrar simbolicamente conquistas e apresentar reivindicações nas inúmeras manifestações espalhadas pelo Brasil. Em meio a programação cultural e discursos de políticos e de líderes, milhares de trabalhadores, estudantes, ativistas, líderes sindicais e parlamentares, em um coro gigantesco como principal bandeira, exigiram o fim da escala 6 por 1.

Em São Paulo, impedidas de se manifestarem na Av. Paulista (*), as pessoas reuniram-se em diversos locais, como no Paço Municipal de São Bernardo do Campo, por exemplo.

O Congresso está analisando o PL 1.838/2026 enviado pelo Presidente Lula em 14/04 em regime de urgência constitucional que impõe um prazo de 45 dias, no qual, além de pretender a redução da jornada possibilitando dois dias de descanso semanal, também propõe a diminuição de 44 para 40 horas/semanais, sem prejuízo no salário.

Já aguardava ser pautada no Congresso a PEC 221/2019 de Reginaldo Lopes (PT-MG) que pretende alterar o Artigo 7º, inciso XII da Constituição Federal, reduzindo gradualmente a jornada de trabalho de 44 a 36 horas semanais ao longo de 10 anos. O fim da 6 x 1 ganhou fôlego em 25 de fevereiro de 2025 com a PEC 8/2025 apresentada por Érika Hilton (PSOL/SP), Adriana Accorsi (PT/GO) e outros – com foco na escala 4 x 3 e redução de jornada semanal para 36 horas -, e mobilizações populares presenciais e na internet.

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) aprovou a admissibilidade das PECs em abril e a Câmara dos Deputados instalou uma comissão especial em 29/04 para análise e texto final.

A quem interessa a escala 6 x 1?

Nos meses anteriores, o debate sobre o tema ganhou as redes; os discursos de políticos, empresários, grande mídia, influenciadores e imprensa progressista, somados a pareceres profissionais de médicos, psicólogos e psicanalistas, foram desenhando um panorama.

De um lado, empresários que apenas pensam em lucros, mídia que transmite a ladainha insensata de que o país vai “quebrar”, economistas que preveem queda no PIB, políticos que, alinhados aos interesses de banqueiros e empresários e, flagrantemente, contrários aos interesses da população pela qual deveriam trabalhar, que votam contra concessão de benefícios aos mais necessitados como melhores salários, melhor educação e acesso à saúde, à condições dignas de vida.

Sem respeito ao cidadão/eleitor/trabalhador, alguns parlamentares ainda são capazes de dizer que devem “trabalhar até a exaustão”. Outros até sugeriram a escala 7 x 0 (!) e compensações aos empregadores com a criação de “Bolsa Patrão” (!).

Do outro lado, profissionais da área da saúde que comprovam que a escala 6 x 1 “já provoca a exaustão”, políticos sensíveis à essa questão que buscam garantir direitos aos trabalhadores para que equilíbrio entre trabalho e vida pessoal possam permitir melhor qualidade de vida e a própria classe trabalhadora.

De acordo com pesquisa realizada pela Genial/Quaest, 72% da população é favorável à alteração; entre os deputados, 42% apoiam e 45% são contrários; os demais não responderam à pesquisa ou nem sabem o que pensar a respeito.

A maioria dos trabalhadores sujeitos à esse tipo de jornada enfrenta condições que acabam por levar a um ciclo de desgaste e adoecimento constante, ao cansaço físico, mental e emocional, com prejuízos na vida familiar e social e, por consequência, na própria vida profissional. Muitas horas no transporte (ida e volta do trabalho), poucas horas de sono, alimentação insuficiente ou inadequada (precariedade das condições financeiras), trabalho estressante que pode levar à Sindrome de Burnout, crises de ansiedade, depressão, sentimentos de culpa, de solidão, desalento com a própria vida.

O diretor Kauã Pereira sintetiza bem essa realidade no curta-metragem “Me desculpa Nathan”, disponível no youtube , abrilhantado em sua trilha sonora com o Rap “O que nos impede?”(de FBC, Ogoin, Linguini, Nathan Morais, Pepito), com trechos reproduzidos a seguir:

“(…) E os que têm dinheiro e tiram férias em dezembro
Não conheço quem trabalha e tira férias em dezembro
Calcula o tempo que eles rola
Trânsito e emprego, diz pro resto quanto sobra
Só na minha vez o preço dobra
E esse ano o feriado só foi sábado e domingo
O que nos impede?
De ter um dia bom?
O que nos impede?
Não dormir tão cedo
Acordar mais tarde
O que nos impede?
O que nos impede?
(…)
Pra melhorar de vida, tu quase não respira
Tu quase não vê amigos, tu quase não vê família
Tu quase não vive o tempo que te resta na vida
Nasci ontem, morri hoje e amanhã faz dois dias
Todos contra o que te evidencia
Um sobrenome já te ajudaria? (…)”

(*) De acordo com itatiaia.com.br (“1º de maio: direita se antecipa e barra ato da esquerda na Avenida Paulista”), metrópoles.com (“1º de maio: com baixa adesão, ato da direita na Paulista tem tumultos”) e veja.abril.com.br (“O que se sabe sobre o grupo conservador que vai ocupar a Avenida Paulista no 1º de maio”):

O grupo Projeto União Brasil, que une os grupos Patriotas do QG com 4.000 mil seguidores no Instagram, Voz da Nação e Marcha da Liberdade (ambos sem canais oficiais na rede), já havia “reservado” a Avenida Paulista para este 1º de maio, em 2024 (dois anos antes). Cerca de 50 pessoas ocuparam a avenida para pedir anistia de Jair Bolsonaro e apoio à candidatura de seu filho Flávio. Houve tumulto, duas mulheres foram agredidas por manifestarem suas opiniões contrárias à pauta.

Em conversa com jornalistas, o líder do Projeto União Brasil, o empresário Malta Jones (alcunha de Mário Sérgio Malta), informou que não importava o número de manifestantes, pois o objetivo não era lotar a Av. Paulista e, sim, ocupar o espaço e impedir que grupos de esquerda tradicionais pudessem se concentrar em datas como o Dia do Trabalhador. Malta Jones informou ainda que, em janeiro deste ano, já “reservou” a Av. Paulista para os dias 09 de julho e 07 de setembro, com a mesma intencionalidade.

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