Chapolin e Batman: justiça para quem?

Quando o Cavaleiro das Trevas cruza caminho com o herói mais nobre que uma alface, nasce uma história que coloca em xeque o que significa ser justo. Entre golpes certeiros e tropeços inesperados, surge uma pergunta desconfortável: será que combater o crime é o mesmo que combater a injustiça? Veja esse crossover entre Batman (da série de 1966-68, aquele da Feira da Fruta) e Chapolin (1973-79), nessa mesma bat-hora, nesse mesmo bat-canal.

Chapolin e Batman (gerado por IA e editado depois, então não é uma coisa que se diga "puxa, que desenho...")
Chapolin e Batman (gerado por IA e editado depois, então não é uma coisa que se diga “puxa, que desenho…”)

Em um quarto humilde, Ramon veste seu uniforme azul com logotipo “Wayne Enterprises” no bolso. Sua filha está deitada na cama, tentando dormir mas ainda tossindo muito. Enquanto abre a porta para sair, ele pensa:

– O remédio dela custa mais do que eu ganho em uma semana…

Ele se encontra com outros capangas num beco que fica nos fundos de uma das fábricas das indústrias Wayne. Ramon recebe uma arma enferrujada e o capanga chefe diz:

– Hoje é fácil, só precisamos segurar a atenção do morcegão pro chefe agir.

Ramon, hesitante, pensa:

– Só preciso do dinheiro… só isso.

De repente, um batarang corta a cena. Batman surge da escuridão, brutal, derrubando dois capangas. O chefe corre mas Ramon é agarrado e jogado contra a parede.

– Vocês nunca aprendem…

– Oh, e agora, quem poderá me defender?

– Eu!

Chapolin aparece tropeçando de cima de uma caixa de madeira, quase caindo em cima do Batman.

– Não contavam com minha astúcia!

Batman olha incrédulo, segurando o bandido pelo colarinho.

– Quem é você? Besouro Verde?

– Não. Sou o Chapolin Colorado, herói dos frascos e comprimidos, digo, dos fracos e oprimidos! E você, já voltou da lua de mel então? Eu acho…

– “Silêncio!” Batman segura o homem contra a parede. “E quanto a você, já fez sua escolha.

Chapolin se coloca na frente.

– Será mesmo? O que será que este homem tem a dizer?

– Eu sou funcionário da Wayne Enterprises! Eles me espremeram até a última gota! E agora eu só queria comprar o remédio da minha filha…

Batman fica em silêncio, tenso. Chapolin olha para ele com cara ingênua.

– Já pensou que talvez esteja batendo no sintoma, não na doença?

Nesse instante, escuta-se a voz de Alfred vindo de um radio-comunicador, repetindo o sinal do Bat-Rádio no Batmóvel ali próximo:

– Senhor, movimentação suspeita registrada em uma subsidiária da Wayne Enterprises…

Batman fica surpreso, e Chapolin cutuca seu ombro.

– Palma, palma, não priemos cânico! Pode deixar que eu te ajudo nessa, Batman.

– Ajudar? Como assim? Não pedi… – retruca Batman, franzindo o cenho.

– Tenho um plano. Primeiro precisamos investigar a situação nessa subsidi… subsidi o quê?

– Diária – completa Batman.

– Puxa! Enfim, creio que Ramon, como um trabalhador local, saiba o melhor ponto que possamos nos aproximar sem sermos vistos.

Ramon arregala os olhos.

– Eu? Ajudar? Mas eu não tava quase levando mais uma cacetada?

– Ajudando você poderá sair perdoado. E o Batman pode nos levar até lá com seu Batmóvel, caso já tenha tampado o furo no pneu dele. – responde Chapolin

Batman, ainda confuso, pergunta:

– E você, Chapolin, onde entra nessa história?

– Eu posso entrar disfarçadamente no local tomando uma das minhas pílulas de nanicolina, que reduzem o meu tamanho normal, e assim descobrir o que estão fazendo lá dentro sem sermos descobertos.

Ramon gosta da ideia.

– Bravo Chapolin, você é o máximo!

– Não contavam com a minha astúcia!

Os três se deslocam até um ponto onde Batman estaciona o Bat-móvel e eles seguem até atrás de alguns caixotes. Chapolin toma uma de suas pastilhas encolhedoras e segue até um vão do portão para adentrar o galpão onde são guardados alguns dos documentos das empresas Wayne.

– Puxa, parece que andaram fazendo uma bagunça por aqui. Vamos ver o que tem nesses papéis no chão…

Enquanto isso, Ramon conversa com Batman:

– Não estou escutando nada, será que está tudo bem por lá com o Chapolin?

– Devemos ter calma e esperá-lo agir. Minha tia sempre falava para esperar e não abrir a porta sem bater antes.

Chapolin descobre documentos que são provas de corrupção e exploração: contratos de superfaturamento, relatórios de acidentes em fábricas ignorados, bônus milionários para executivos. E uma multa porque o gerente não deu seta ao sair da marginal Pinheiros.

Nesse momento, aparecem dois capangas. Eles conversam entre si dizendo que precisam colocar fogo em tudo logo. Chapolin corre para sair do prédio mas dá de cara com um gato preto. O gato arqueia o corpo e pula para atacá-lo, mas Chapolin o ameaça com sua marreta biônica. O gato mia alto e chama atenção dos bandidos.

– Quem está aí?

– É só um gato! – responde Chapolin, automaticamente.

Os bandidos olham para onde vem a voz e Chapolin corre para trás de algumas caixas. Batman escuta a movimentação e joga uma pedra na janela, de modo que ela é quebrada e assusta a todos. Os bandidos fogem correndo e Batman adentra o local com Ramon. Chapolin estende alguns papéis.

– Acho que você precisa ver esses papéis…

Batman folheia rapidamente.

– Esses papeis não provam nada, só provam que o Coringa…

– Não! – interrompe Chapolin, batendo o dedo no documento. – Acho que dessa vez o Coringa nem nenhum bandido óbvio tem culpa. É alguém de dentro, olhe só essa assinatura.

Batman abaixa a cabeça para conferir mais de perto; Chapolin se inclina também e os dois batem as testas com um estalo seco.

– Chapolin, se machucou? – pergunta Ramon, preocupado.

– Claro que não, meus movimentos são friamente calculados! – responde ele, massageando a testa. – Só estava testando quanto impacto aguenta o capacete do Batman.

Batman respira fundo, olhando novamente os papéis.

– Realmente, parece que tem alguma coisa estranha nesses papéis. Muito mais grave e afetando mais pessoas do que aquele crime falso que eu estava combatendo. E se isso é verdade, eu sou parte do problema.

Ele percebe que, se destruir as provas ou simplesmente prender capangas, nada muda. Então, decide deixar a polícia e a imprensa acessarem os papéis.

– Dessa vez, a verdade precisa aparecer. Mesmo que manche o nome Wayne.

O alarme começa a soar, estridente.

– Vamos sair e deixar que a impresa e os policiais façam seu trabalho – sugere Ramon.

Chapolin comenta:

– Às vezes não é sobre vencer, é sobre cutucar a onça com vara curta… Digo, é cutucando a onça que se chega primeiro… cutucar a onça até ela mostrar as garras… é por aí.

No dia seguinte, protestos em frente à Wayne Enterprises. Funcionários de fábrica levantam cartazes: “Respeitem o trabalhador – UTPJ”, “Mulheres caçam patrões ladrões – APDF”, “Esse mestre parece linguiça – EMPL”. Bruce Wayne dá entrevista, tentando manter a calma.

– Sr. Wayne, como responde às denúncias de exploração de trabalhadores?

– Investigaremos… com total transparência.

Seus olhos dizem outra coisa: o conflito interno entre empresário e justiceiro.

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