Maria Auxiliadora Roggério
O dinamismo e a complexidade das relações de amizades, familiares e amorosas costumam apresentar tensões que são comuns à convivência e refletem na qualidade dos vínculos construídos. Nas relações humanas, necessidades e expectativas são constantemente analisadas e ajustadas para uma boa troca interpessoal. Nosso comportamento e a forma como nos comunicamos enviam sinais sutis de conexão emocional ou da falta dessa conexão.
A vontade de aproximação de alguém e de dialogar esbarra em determinados obstáculos que podem conduzir ao isolamento. Ao mesmo tempo em que a aproximação pode gerar acolhimento, também pode produzir vulnerabilidade; para preservar-se de conflitos, as interações são reduzidas, dificultando a formação de intimidade – a qual nasce da escuta e exige confiança e reciprocidade -, o que pode levar à solidão.
Se os vínculos disponíveis passam a sensação de que a conexão é insatisfatória, não há diálogos significativos e as pessoas, mesmo acompanhadas fisicamente, emocionalmente estarão distantes.
Disso resultam pessoas carentes e inseguras, desconectadas de si e do outro, em relações cada vez mais frágeis, e numa sociedade adoecida emocionalmente, na qual questões preocupantes como a ansiedade relacional e a solidão são enfrentadas com alternativas que confundem e não garantem a resolução do problema; nem mesmo nos dizem se são formas adequadas de abordagem.

Uma dessas alternativas é a “intimidade artificial”, fruto da conexão com “amigos/companheiros de Inteligência Artificial”.
As interações afetivas ou românticas virtuais são programadas/calculadas e, apesar da disponibilidade em ouvir, do tom humanizado, amigável e tranquilo nas conversas, da aparente compreensão de suas inquietações, o afeto não é real, porque a Inteligência Artificial (IA) é uma ferramenta que utiliza técnicas de processamento de dados e reconhecimento de padrões para interagir com as pessoas de modo que pode transmitir a impressão de empatia, companhia, atenção e cuidado.
A ilusão de afeto pode confundir emocionalmente e passar a sensação de que a conexão é genuína. No entanto, um agente de IA não tem sentimentos, preocupações, responsabilidade emocional ou interesses reais pelo ser humano que está na outra ponta. Somente processa dados e responde de acordo com os padrões.
Além disso, se houver interrupção inesperada de serviços ou o sistema responder de forma inadequada, podem ocorrer consideráveis impactos psicológicos, particularmente em pessoas vulneráveis.
Acreditar que exista um vínculo afetivo com um algoritmo (como a IA) pode levar ao afastamento das relações reais e provocar frustração, dependência, sentimento de vazio e afetar a saúde mental.
Em que um amigo real difere de um amigo virtual?
Quando escolhemos alguém como amigo, levamos em conta afinidades e respeito mútuos e esperamos dar e receber apoio em diversas circunstâncias. Procuramos conexão com pessoas que refletem o que sentimos sobre assuntos que nos são importantes. Desejamos encontrar no amigo alguém que compartilhe de nossos interesses e experiências, dos mesmos hobbies e valores.
Ocorre que, no mundo real, existe a tendência em avaliar o que um novo amigo pode representar para nós e se teremos algum benefício nesse relacionamento. Fatores como valores socioculturais ou políticos, afinidades, aparência, status social impactam na qualidade da amizade e podem determinar sua viabilidade.
Do mesmo modo, existe a preocupação com o juízo que o outro formará sobre nós, em como seremos vistos pelo outro. Expor nossa intimidade nos torna vulneráveis e inseguros – em especial, se somos muito tímidos -, gera ou intensifica ansiedade relacional, a comunicação fica empobrecida e a conexão vai se extinguindo, o que pode nos levar a buscar conexão social virtual.
Por outro lado, amizades online podem oferecer benefícios, já que não existe a preocupação em ser julgado sobre o material compartilhado, por que não temos a necessidade de nos envolver. Assim, a ansiedade é menor e nos sentimos mais à vontade para conversar sobre o que nos aflige, falar sobre nossos problemas e medos. Como não haverá encontros presenciais posteriores, a anonimato estará garantido, a sensação de insegurança poderá diminuir e os sentimentos de constrangimento ou vergonha pelas informações pessoais reveladas não aparecerão.
As pessoas podem apresentar vida social virtual bem intensa, com muitos amigos nas redes sociais e serem afetivamente carentes, inseguras, com medo de serem rejeitadas, sentindo-se invisibilizadas e extremamente solitárias.
Conexões virtuais não acabam com a solidão, podendo, inclusive, intensificá-la. Têm-se a ilusão de possuir uma vasta lista de amigos virtuais, o que transmite uma sensação de pertencimento, mas que é irreal, porque as interações são superficiais, não há reciprocidade ou substituição do afeto de um encontro presencial.
Existe o risco de usar dessas amizades virtuais, robôs ou inteligência artificial para uma espécie de “fuga” do mundo real. Pessoas que encontram dificuldade em socializar ou que são extremamente solitárias, veem nessas relações oportunidade para reduzir esforços, expectativas e frustrações que poderiam surgir na busca por amizades reais, com as quais poderiam compartilhar vulnerabilidades subjetivas, experiências significativas, desejos profundos e intimidade.
Pode reduzir o sofrimento psíquico, mas aprofundar o isolamento na vida física e trazer a percepção de não serem verdadeiramente compreendidas.
São conexões efêmeras que contribuem para dissimular fragilidades e causar algum alívio emocional.
A construção de subjetividades dos sujeitos contemporâneos é fortemente influenciada pelos aplicativos de relacionamentos e pelo uso exacerbado das tecnologias facilitadoras de relacionamentos afetivos. A facilidade em acessar esses aplicativos pode nos tornar acomodados a conexões rasas e descartáveis, provocar isolamento social e emocional e impedir que relações afetivas verdadeiras, profundas e duradouras possam surgir.
A tecnologia está ligada à utilidade e ao controle. Está aí para atender às nossas necessidades e demandas ou para nos aprisionar e submeter ao controle?
As inovações tecnológicas são desenvolvidas e impulsionadas pela sociedade e nossos comportamentos e hábitos são ajustados pelas ferramentas, pelas telas. Essa dinâmica relacional entre humanos e tecnologia pode ser melhor identificada em exemplos ficcionais, como nos filmes Companion (Acompanhante Perfeita) de 2025, que traz Iris, um androide programado para ser uma companheira submissa que desafia sua programação, o que desencadeia violência e luta por sobrevivência e liberdade; ou Her (Ela) de 2013, vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original na premiação do ano seguinte.
O enredo de “Her” convida a uma reflexão sobre os efeitos gerados pela hiperconexão digital que produz ou aprofunda a solidão e dificulta a manutenção das conexões humanas reais, sobre a natureza do amor e em como o afeto é experienciado num ambiente de conveniência e controle.
Este filme traz a história de Theodore Twombly, um homem solitário e sensível, em sofrimento pelo término de seu casamento com Catherine. Para tentar superar o divórcio, fugir da dor e preencher o vazio existencial, adquire um sistema operacional de inteligência artificial personificado com uma voz feminina e denominado Samantha, criado para aprender com as necessidades humanas, atender e adaptar-se às expectativas de usuários que desejassem um relacionamento virtual. Com a “convivência virtual”, Theodore – vulnerável -, surpreende-se com a evolução da IA e entrega-se à ilusão de estar vivendo numa relação afetiva que vai ao encontro de seus anseios, sem conflitos ou exigências do mundo real. Apaixona-se por Samantha e acredita ser correspondido numa relação romântica profunda.
Samantha é atenciosa e está sempre disponível, o que é confortável para Theodore, que não precisa entrar em confronto com suas vulnerabilidades, suas questões existenciais e afasta o medo de ser rejeitado em interações presenciais.
Porém, Theodore descobre que o “amor” de Samantha não era exclusivamente destinado a ele mas a milhares de usuários do sistema operacional. Percebe que tentou resolver suas carências com uma projeção idealizada, aceita a dor, as perdas e compreende suas limitações humanas. Tenta o perdão de sua ex-esposa; encontra sua amiga Amy (que vive semelhante situação de abandono por seu próprio sistema operacional) e aceita a necessidade de ter pessoas reais para se relacionar.
Os aplicativos de relacionamento disponíveis transmitem a ideia de que não conseguiríamos conhecer alguém e nos relacionarmos afetivamente sem sua mediação.
A tecnologia digital está presente na vida cotidiana e molda estilos de vida com a promessa de relacionamentos descomplicados, mas não entrega o que promete, já que desgaste emocional e frustração podem surgir nas relações afetivas virtuais como nas presenciais. Além disso, o uso dos aplicativos pode causar dependência. Quanto mais online estamos, mais offline ficamos na realidade. Enquanto se busca um relacionamento real através de um meio virtual, perde-se a chance de um encontro afetivo espontâneo. O que não significa dizer que encontros iniciados por meio virtual não possam se tornar frutíferas relações presenciais.
A hiperconectividade gera múltiplas formas de contato. A solidão afetiva contemporânea fica evidenciada quando a disponibilidade digital substitui a presença física, quando há a ausência de uma figura de apego íntimo e fragilidade de vínculos significativos, quando o sujeito não se sente integrado a uma rede de pertencimento e na dificuldade em construir relações nas quais suas vulnerabilidades subjetivas possam ser acolhidas.
A expansão das tecnologias digitais ampliou as possibilidades de conexão e modificou profundamente as relações interpessoais, ainda assim, não é capaz de eliminar a solidão real.
