Sentimento de gratidão e a obrigação de retribuir

Maria Auxiliadora Roggério

– Como é que se diz? – Obrigado!

Adultos e crianças já mantiveram esse diálogo rápido e todos já estivemos em situações nas quais enfatizamos gentilezas, ora como pais educando seus filhos, ora como crianças aprendendo regras de boa educação. Bem fácil de ser verificado no dia a dia quando uma criança recebe um presente e os pais logo apressam-se em estimular a resposta na criança, para consolidar o ensinamento e garantir que possíveis observadores da cena certifiquem-se de que são pais zelosos, preocupados em ensinar a gratidão.

Imagem gerada por IA
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Entretanto, ensinar a criança a dizer “obrigado” não é o mesmo que ensiná-la a ser grata. Quando o agradecimento surge como uma obrigação automática e não uma escolha consciente, não é possível reconhecer e valorizar um benefício recebido.

Dizer “obrigado” significa agradecer a alguém por algo recebido (um favor, um presente, uma gentileza, alguma ajuda) e que a pessoa sente-se em “dívida moral”, “obrigada” a retribuir o que recebeu. Em sequência, quem fez o favor lança algo como: “imagina ou de nada/por nada”, indicando que o favor não precisa ser retribuído e que, portanto, a pessoa está “desobrigada” desse compromisso. Regras de boas maneiras que permeiam as relações sociais, assim como a utilização de outras palavrinhas mágicas: “por favor, desculpe, não há de que”.

De acordo com o sociólogo Alvin Gouldner, em seu artigo A norma da reciprocidade: uma declaração preliminar, de 1960, quem recebe alguma ajuda, sente que é preciso retribuir, e quem ajudou espera algum tipo de retorno, mesmo que não verbalize; é o princípio da reciprocidade, agindo como uma regra moral que sustenta a estabilidade social.

Seria ingenuidade acreditar que fazemos o bem sem esperar nada em troca. Mesmo em atitudes aparentemente desinteressadas, existe algum tipo de ganho: prazer de ajudar; livrar-se da culpa inconsciente por ser alguém privilegiado; manutenção da própria imagem de alguém bondoso, generoso.

O sentimento de gratidão

Para a psicanalista Melanie Klein (2006), a gratidão surge no estágio mais arcaico do desenvolvimento infantil: quando o bebê sente a mãe como único objeto da relação, sendo fundamental à construção da relação com o objeto bom e base para avaliação do que existe de bom em si e nas outras pessoas.

É uma resposta emocional ligada à experiência de receber cuidado, amor e nutrição do seio materno, que é o primeiro objeto de relação. O bebê sente que recebeu algo bom e vital do mundo externo e isso proporciona satisfação e segurança; sente-se gratificado como se tivesse recebido algo tão especial do objeto amado, que deseja guardá-lo.

A satisfação só pode ser plena se a capacidade de amar estiver desenvolvida suficientemente. Essa satisfação formará a base da gratidão e está ligada intimamente à confiança em figuras boas e à generosidade. Quanto maiores a satisfação e a gratidão, maior o desejo de retribuir prazer.

Se a assimilação do objeto bom for bem-sucedida de modo a enriquecer e fortalecer internamente o indivíduo, este conseguirá compartilhar com outras pessoas o que recebeu de bom, o que significa que o amor poderá ser dado e recebido. Mas para as pessoas que “esse sentimento de riqueza e força internas” não se estabeleceu adequadamente, “acessos de generosidade são muitas vezes seguidos por uma necessidade exagerada de reconhecimento e gratidão e, consequentemente, por ansiedades persecutórias de haverem sido empobrecidas e roubadas” (KLEIN, 2006, p.220).

As crianças enxergam as pessoas como boas ou más, o que as ajudam a organizarem o mundo no início da vida. Conforme vão se desenvolvendo, percebem que a mesma pessoa boa que dá carinho e nutre, também pode frustrar e provocar dor. Aprender a lidar com essa ambivalência exige compreender as limitações e complexidades do outro para conseguir valorizar o que recebe dele, assim a gratidão tem a chance de aparecer.

A gratidão estimula a criatividade, a generosidade, a esperança e a capacidade de reconhecer e amar o outro verdadeiramente, como alguém diferente de si. Não é simplesmente um gesto de cortesia. É uma força interna que possibilita o reconhecimento e a valorização de uma experiência ou do que uma pessoa fez por nós.

A maneira como agradecemos pode estar relacionada a questões como bem-estar emocional, ao modo como nos relacionamos com o ambiente, a alguns traços de personalidade, experiências anteriores, histórico de vínculos e segurança emocional.

A gratidão genuína promove conexão espontânea, gera acolhimento e calor humano. O favor é aceito tranquilamente sem urgência em oferecer algo em troca, para que a ajuda seja retribuída.

Para algumas pessoas, diferentemente do sentimento de gratidão, o que surge é uma sensação de dívida, um desconforto psicológico que não cessa enquanto não puder realizar alguma forma de compensação. Em vez de agradecimento, o que surge é a necessidade de “pagar a dívida” imediatamente, para livrar-se da ansiedade e retomar certo equilíbrio emocional e relacional.

Além disso, outros motivos psicológicos podem levar à necessidade de retribuição imediata, como exemplos, a baixa autoestima ou o sentimento de culpa por não se sentir merecedor de cortesias espontâneas, sem contrapartidas ou segundas intenções; medo de estar incomodando e transmitir a ideia de que esteja se aproveitando da generosidade alheia e de ser visto como uma má pessoa.

Outras pessoas supervalorizam pequenos favores e demonstram gratidão desproporcional ao gesto – possivelmente para que o outro não se arrependa de ter prestado um favor. Isso pode estar ocorrendo por insegurança emocional, pelo histórico relacional, pela necessidade de aceitação e aprovação social.

Em 2018, os pesquisadores Cong Peng, Rob Nelissen e Marcel Zeelenberg em estudo publicado originalmente na revista científica Cognition and Emotion, demonstraram a diferença entre gratidão genuína e dívida emocional: na gratidão, o foco está no valor do relacionamento, no afeto, no fortalecimento de vínculos e não no pagamento de um débito; na dívida emocional, a sensação de endividamento traz a obrigação e a urgência de retribuir, para livrar-se do desconforto emocional ocasionado (pagar logo, para diminuir o sofrimento psíquico e reequilibrar a relação). Desse modo, é a dívida e não a gratidão que leva as pessoas a retribuir.

Referências

– GOULDNER, ALVIN W. (1960) “A norma da reciprocidade: uma declaração preliminar”. American Sociological Review. 25 (2): 161-178. Disponível em https://doi.org/10.2307/2092623, acessado em 22/09/2026.

– KLEIN, MELANIE, 1882-1960 (2006) – Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963)/Melanie Klein; trad. da 4ªed. Inglesa. Elias Mallet da Rocha, Liana Pinto Chaves (coordenadores) e colaboradores – Rio de Janeiro: Imago. Ed.1991. (pp.219 a 222).

– PENG C, NELISSEN RMA, ZEELENBERG M. Reconsidering the roles of gratitude and indebtedness in social exchange. Cogn Emot. 2018 Jun; 32(4): 760-772 doi: 10.1080/02699931.2017.1353484 Epub 2017 Jul 18.PMID: 28718342, acessado em 22/09/2026.

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