Maria Auxiliadora Roggério
As psicólogas Pauline Rose Clance e Suzanne Ament Imes, da Geórgia State University realizaram uma pesquisa em 1978 com 150 mulheres que ocupavam posição de destaque profissional ou acadêmico. O resultado desse estudo revelou que, quanto mais respeitadas e bem-sucedidas, mais essas mulheres sentiam-se inseguras e acreditavam ser uma fraude, desmerecedoras de suas conquistas e de seu sucesso.
O machismo e a dinâmica familiar nesse período (e ainda hoje em dia) influenciavam diretamente a percepção que tinham sobre sua inteligência e autoimagem, reforçando estereótipos de gênero. Esse padrão de pensamento, que reforça a crença errônea de que não seriam capazes de desempenhar bem suas funções e que poderiam ser desmascaradas a qualquer momento, recebeu o nome de Fenômeno da Impostora, usualmente sendo referido como Síndrome da Impostora.
A Síndrome da Impostora (ou do Impostor) é um fenômeno psicológico mas também social e cultural muito comum que afeta as pessoas em várias áreas da vida, nas relações pessoais, profissionais ou acadêmicas, sendo mais observada no ambiente profissional. Acomete principalmente mulheres, pessoas não brancas e grupos mais vulneráveis da sociedade como LGBTQIAPN+.
Caracteriza-se pela crença de não merecer usufruir de suas conquistas por sentir que não possui competência ou habilidades que justifiquem o sucesso alcançado, que sua capacidade está sendo superestimada, ainda que obtenha validação/reconhecimento externo.
Apesar do bom desempenho, não consegue internalizar o êxito obtido, atribuindo à sorte ou ao acaso um resultado de sucesso fruto de seu trabalho e esforço pessoal, imaginando que, a qualquer instante, será denunciada como uma farsa, isto é, como uma impostora, uma pessoa que ilude a todos.
Qualquer pessoa está sujeita a apresentar sinais que caracterizariam o Fenômeno da Impostora ou Síndrome do(a) Impostor(a); embora comumente descrito como uma síndrome (há variadas síndromes associadas ao nosso modo de vida, à questões culturais, ao ambiente em que estamos inseridos, contexto histórico etc.), não é classificado como uma patologia. O conjunto de fatores que o define pode estar relacionado a questões emocionais subjacentes, como traumas, baixas autoestima e autoconfiança e apresentar semelhanças a outras condições de saúde mental. A crença de uma falsa incompetência pode estar associada a características da personalidade, à infância, à raça, ao gênero e à classe social.
Esse fenômeno traz sofrimento psíquico e induz a comportamentos que provocam consequências negativas na qualidade de vida; como exemplos: queda da autoestima, irritabilidade emocional, altos níveis de insegurança, ansiedade e estresse, síndrome de burnout, depressão. A pessoa passa a apresentar determinados comportamentos que afetam seu dia a dia e comprometem seu rendimento nas áreas em que se considera impostora. O estresse e o medo levam a adiar os trabalhos e compromissos profissionais e projetos pessoais – quando não os abandona incompletos ou sequer chega a iniciá-los.
O medo de ser descoberta e exposta provoca grande desconforto emocional e sintomas físicos semelhantes aos verificados em ansiedade e depressão, por exemplo.
Compara sua competência e resultados com os de outras pessoas, as quais julga mais qualificadas e merecedoras do que ela. Com medo de comparações, sente muita insegurança quando em situação de avaliação.
Por agir de modo perfeccionista não consegue aceitar como normal seus erros quando ocorrem, e direciona seu olhar apenas para os fracassos ignorando as vitórias, o que impede a autocompaixão. As pessoas que se sentem impostoras não conseguem avaliar positivamente o resultado de seus trabalhos, de suas conquistas, de seu valor; acreditam que não fizeram tudo o que poderiam, que deveriam ter tentado fazer mais e melhor e, só assim, poderiam tornar-se dignas da posição que ocupam.
Por não se sentir bom o suficiente, quem se sente um impostor pode sabotar o próprio trabalho, acreditando que assim poderá passar despercebido, longe do olhar atento e do crivo dos demais por sua performance. O medo de fracassar alia-se à vergonha de ser descoberto e à humilhação de ser exposto, o que resulta na evitação de situações nas quais não acredita poder se superar.
Recusa elogios e reconhecimento, pois julga-se inferior; quando surge uma crítica negativa, aceita-a como uma comprovação de sua imaginada incompetência. Surge também o temor de não conseguir corresponder às expectativas futuras a seu respeito.
Preocupa-se tanto com o julgamento do outro sobre seu valor que tem grande dificuldade em sentir-se seguro, em compreender e aceitar a si mesmo e separar crenças de realidade.
Para lidar com esse fenômeno é necessário investigar e compreender os motivos que o levaram a essa condição, reconhecer, aceitar e apropriar-se de suas fraquezas e de seu potencial. Quando se é cobrado o tempo todo por produtividade, por resultados impossíveis, por superação de metas, maiores serão a insegurança e a sensação de que não conseguirá alcançar esses objetivos, trazendo consequências negativas para a saúde mental. A solução para a angústia gerada nesse processo pode estar não somente em você mas, também, no ambiente em que vive e na sociedade a qual pertence.

