Cansaço Emocional: o ônus do familiar acolhedor?

Maria Auxiliadora Roggério

Dizem que “família é tudo igual, só muda o endereço”, com seus conflitos e crises para serem administrados. Cada sistema familiar tem suas particularidades, dificuldades e, também, algum familiar mais equilibrado emocionalmente e forte o bastante para acolher as demandas afetivas dos demais integrantes desse sistema.

Imagem gerada por IA
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É aquele a quem costumam recorrer para desabafar, pedir conselhos, queixar-se de relacionamentos pessoais, profissionais, sociais, falar de seus sentimentos, de problemas com a saúde ou finanças, contar segredos. Alguém sempre disponível a escutar e a orientar, visto como um “porto seguro”, a quem não se permite demonstrar vulnerabilidades, carências próprias.

Na visão que tem de si própria, essa pessoa acredita precisar estar sempre bem para poder ajudar a todos, que não pode falhar, o que a impede de ver a si mesma como alguém que tem limites e suas próprias demandas.

Para os familiares, ter sempre as palavras certas, o ombro amigo a oferecer seriam características inerentes desse alguém tratado como esteio de família, que deve estar sempre ali para ajudar porque é mais forte e suportaria mais adversidades do que os outros. Essa força torna-se uma obrigação em atender às expectativas externas, um ônus, o que dificulta demonstrar seu cansaço. Não conseguem atentar para o esforço que é dispendido constantemente para administrar as situações e o desgaste emocional que isso acarreta.

Com suas emoções sendo reprimidas, suas necessidades adiadas para dar lugar ao atendimento das necessidades dos outros primeiramente, corpo e mente começam a dar sinais de cansaço: a qualidade do sono fica ruim, o descanso não é suficiente e parece estar sempre em constante vigilância, esperando por algum pedido de ajuda, levando ao cansaço emocional. Pessoas com cansaço emocional também costumam apresentar sintomas ansiosos ou depressivos.

O cansaço emocional é uma forma de exaustão que difere do cansaço físico – derivado de atividades extenuantes, em que repouso e outras medidas costumam resolver – e do cansaço mental – que se relaciona a sobrecarga cognitiva e apresenta dificuldade de concentração, lapsos de memória, irritabilidade, estresse por excesso de atividades laborais ou acadêmicas e a outras situações da vida. O cansaço emocional é derivado do excesso de demandas afetivas, como perdas, pressões emocionais, conflitos interpessoais, preocupações excessivas, experiências emocionalmente desgastantes e frustrações. Surge quando a exposição por longos períodos a essas situações não permite que haja descanso emocional ou que os sentimentos possam ser elaborados.

Principais sinais e sintomas de cansaço emocional, observados por períodos de longa duração (semanas ou meses):

  • apatia
  • irritabilidade
  • dificuldade em regular emoções
  • dificuldade de concentração
  • tristeza persistente
  • sensação de vazio e de inutilidade
  • insônia

Embora tenham origens diferentes, o cansaço mental e o emocional se relacionam e podem se sobrepor e intensificar os sintomas.

A pessoa acolhedora, que traz equilíbrio emocional à família, não é um simples solucionador de problemas e conflitos alheios; ela também necessita de suporte emocional. Se não receber este apoio, fica sobrecarregada, pode buscar isolamento, ter a saúde mental comprometida, podendo evoluir para ansiedade e depressão, por exemplo.

Tentar corresponder às expectativas externas de ser a pessoa forte mesmo sentindo-se desgastada internamente impede a expressão de suas emoções, de demonstrar seu cansaço, o que, de certo modo, acaba invalidando o esforço já que a ajuda fornecida supera a capacidade de recuperação. É preciso estabelecer limites para garantir a autopreservação.

As responsabilidades afetivas em sistemas familiares pertencem a todos, assim, para evitar que um integrante fique com o ônus de exercer o papel de “fortaleza inabalável” e, comumente ser invisibilizado em suas carências e fragilidades, o suporte emocional deve ser mútuo, o que pode contribuir para conexões mais autênticas, menos sofrimentos e maior harmonia nas relações familiares.

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