A irradiância solar que chega à superfície da Terra nem sempre se comporta como esperamos. Mesmo em dias parcialmente nublados ou aparentemente encobertos, a combinação entre a posição do Sol e a configuração das nuvens pode provocar aumentos momentâneos na intensidade da radiação solar, fazendo com que ela ultrapasse os valores normalmente esperados para condições de céu limpo. Esse fenômeno é conhecido como sobreirradiância (ou overirradiance) e pode ter implicações importantes para o desempenho e a operação de sistemas fotovoltaicos.
Mas esses episódios duram apenas alguns segundos ou podem persistir por vários minutos? E como esse comportamento se manifesta em uma região de intensa atividade convectiva, como a Amazônia Central? Essas foram algumas das questões investigadas no trabalho “Persistência temporal de eventos de sobreirradiância na Amazônia Central”, apresentado no Congresso Brasileiro de Energia Solar (CBENS 2026), que recebeu o prêmio de Melhor Trabalho na Categoria Profissional.
A pesquisa utilizou medições de irradiância solar realizadas durante a campanha experimental GoAmazon 2014/5, em Manacapuru (AM), combinadas com imagens hemisféricas do céu que permitem estimar a fração de cobertura de nuvens. Com registros de irradiância em intervalos de apenas um minuto, foi possível identificar e analisar milhares de episódios de sobreirradiância, investigando não apenas sua intensidade, mas também por quanto tempo esses eventos permanecem ativos.
Foram identificados 15.981 eventos, com duração média de 4,5 minutos e mediana de 3 minutos. Embora a maioria tenha sido relativamente breve, aproximadamente 34% persistiram por pelo menos 5 minutos e 13,5% duraram 10 minutos ou mais. Esses resultados mostram que a sobreirradiância não deve ser considerada apenas uma flutuação instantânea da radiação solar: uma parcela significativa dos episódios apresenta persistência temporal que merece atenção.

Um dos resultados mais interessantes foi o registro de irradiância de até 1.590 W/m², aproximadamente 55% acima do valor estimado para condições de céu limpo naquele momento. Alguns dos episódios mais intensos ocorreram quando a cobertura de nuvens ultrapassava 90%. Isso demonstra que um céu aparentemente muito nublado também pode apresentar condições favoráveis a intensificações da radiação solar, dependendo da distribuição e da geometria das nuvens.
Esse comportamento está relacionado à complexa dinâmica das nuvens convectivas na Amazônia. A reflexão da radiação nas bordas das nuvens e os múltiplos processos de espalhamento atmosférico podem intensificar temporariamente a energia solar que chega à superfície. Assim, a presença de nuvens não significa necessariamente uma redução uniforme da irradiância.
Os resultados ampliam a compreensão sobre a variabilidade da radiação solar em ambientes tropicais úmidos e reforçam a importância de considerar a duração desses episódios em estudos de avaliação do potencial solar, planejamento e dimensionamento de sistemas fotovoltaicos. Afinal, conhecer não apenas a intensidade, mas também por quanto tempo esses eventos persistem é fundamental para compreender seus possíveis impactos na operação da geração solar.
O trabalho completo será publicado nos anais do CBENS 2026 em breve.

