RA Guará

As chamadas cidades satélites do Distrito Federal são os núcleos urbanos que se desenvolveram fora do Plano Piloto de Brasília para abrigar a população e organizar a ocupação do território. Embora a expressão “cidade satélite” ainda seja amplamente utilizada no senso comum, a denominação oficial adotada pelo Governo do Distrito Federal é Região Administrativa (RA). Atualmente, o DF é dividido em diversas Regiões Administrativas, cada uma com gestão própria vinculada ao governo distrital, desempenhando papel fundamental no desenvolvimento econômico, social e urbano da capital.

O Decreto nº 2.356 de 31/08/1973 criou a administração regional do Setor Residencial Indústria e Abastecimento (SRIA). Com o Decreto nº 11.921, de 25/10/1989, tornou-se a Região Administrativa do Guará (RA X), separando-o da Região Administrativa de Brasília (RA I). O nome deriva do córrego Guará, cujo nome está associado ao lobo-guará, animal típico do Cerrado que era comum na região antes da urbanização.

Letreiro em frente à Administração Regional do Guará. Foto: ViniRoger
Letreiro em frente à Administração Regional do Guará. Foto: ViniRoger

Em 1966, cerca de 600 famílias de trabalhadores do SIA moravam nos lotes onde funcionavam as indústrias. Buscando solucionar essa situação, um grupo de empresários criou a Sociedade da Indústria, Abastecimento e Gráfica (ADESIAG) para reivindicar a criação de um assentamento. O então prefeito do Distrito Federal, Plínio Cantanhede, e o então superintendente da extinta Sociedade de Habitações de Interesse Social (SHIS), Wadjô Gomide, foram designados para atender a esse pedido. Depois de buscar apoio do Banco Nacional de Habitação (BNH) e a permissão do urbanista Lúcio Costa, o projeto foi iniciado.

O Guará surgiu em 1967 com o objetivo de comportar os trabalhadores do Setor de Indústria e Abastecimento (SIA), invasões, funcionários públicos, etc. A cidade teve seu início onde hoje é a QI 05 do Guará I, estendendo-se depois para as QEs e QIs 1 e 3. Quando oficialmente fundado, em 05/05/1969, o Guará tinha 2623 casas e 1021 em construção. Somadas a essas casas do mutirão, a SHIS construiu ainda mais 3000, constituindo o núcleo inicial do Guará I, com 2994 km².

Com a necessidade de abrigar mais servidores, iniciou-se, em 1969, a urbanização do Guará II, projetado para atender a União, em uma parceria do Governo Federal com o Governo do Distrito Federal (GDF). A partir de então, o Guará vem se expandido, tendo sido acrescida, no ano de 1987, a QE 38, para assentar famílias de invasões. Em 1990, foram criadas as QE 42 e 44, com o mesmo objetivo e hoje já existem as QEs 46, 48, 50, 52, 54, 56 e 58. Para fins de desenvolvimento econômico, foi criado o Setor de Oficinas, em 1984, e, em 2000, o Pólo de Modas.

O mapa a seguir mostra os setores do Guará em uma antiga edição do Plano Diretor (um mapa atualizado com todos os lotes pode ser visto no site oficial):

Mapa de setores do Guará. Fonte: PDL do Guará
Mapa de setores do Guará. Fonte: PDL do Guará

O Guará possui três eixos urbanos bem definidos que estruturam sua configuração espacial: as avenidas RI 1, Central e Contorno. É possível notar pelo mapa que os bairros mais populosos são Guará I e Guará II. Entre eles, existe uma longa faixa de terra por onde passam a linha do metrô e a linha de transmissão de alta tensão de energia elétrica.

Guará I

O Guará I organiza-se em torno da via de atividades RI 1, composta por três troncos que partem de um ponto central, marcado por uma rotatória. Um deles conecta a cidade à Estrada Parque Taguatinga (EPTG), outro estabelece a ligação com o Guará II e o terceiro promove a conexão viária com a porção oeste da cidade. A estrutura viária local é constituída por uma malha de pequenas ruas distribuídas no interior das Quadras Externas (QEs) e das Quadras Internas (QIs). Além disso, duas vias coletoras, situadas nas laterais da cidade e formadas pelas bordas dos quadriláteros, percorrem toda a sua extensão.

O Guará I é composto por 34 quadras, divididas entre QEs e QIs. Ambas seguem um sistema de numeração sequencial de 1 a 11, passando, a partir da quadra 12, a utilizar apenas números pares, de 12 a 22. As quadras ímpares estão localizadas a leste (direita no mapa) da via RI 1, enquanto as pares se distribuem a oeste.

As Quadras Internas apresentam configuração quadrangular, com áreas verdes em seu interior, comércio local e conjuntos de residências unifamiliares e edifícios residenciais de três pavimentos. Já as Quadras Externas são formadas por aglomerados que circundam esses quadriláteros e não seguem um padrão único de organização. Nelas, observa-se uma estrutura predominantemente ortogonal, com eixos que orientam a circulação interna e contribuem para a regularidade da malha urbana.

Outro aspecto marcante do Guará I é a distribuição equilibrada das áreas verdes, que confere certa uniformidade à paisagem urbana. O espaço formado entre quatro quadras configura um quadrante menor, contribuindo para a composição de um sistema de espaços livres que favorece a permeabilidade visual e constitui o chamado “respiro verde”.

Hierarquia viária e mapa estético do Guará I. Fonte: COSTA, 2015
Hierarquia viária e mapa estético do Guará I. Fonte: COSTA, 2015

Guará II

A principal área de concentração urbana do Guará II organiza-se em torno da Avenida Contorno, uma via de atividades que forma um anel viário e se conecta diretamente à Estrada Parque do Guará (EPGU), via de trânsito rápido. Essa estrutura é atravessada pela Avenida Central, também caracterizada como via de atividades. A partir desses eixos principais, articulam-se as vias coletoras, que atravessam as quadras, e as vias locais, responsáveis pelo acesso aos conjuntos residenciais e aos lotes. O Guará II também conta com duas estações de metrô, associadas às linhas Verde e Laranja: uma situada ao lado da Feira Permanente do Guará e outra localizada entre o Guará I e o Guará II, em frente à Avenida Central.

A organização urbana do Guará II compreende Quadras Externas (QEs), Quadras Internas (QIs), Áreas Especiais (AEs) e o Polo de Modas, que abrigam diferentes usos e atividades. As QEs são predominantemente residenciais, de baixa densidade, com conjuntos de casas unifamiliares, praças e comércio local. Sua distribuição compreende:

  • Quadras Externas dentro do perímetro da Avenida Contorno: 12 quadras, sendo as ímpares de 13 a 21 e as pares de 24 a 36.
  • Quadras Externas nas porções oeste e sul da Avenida Contorno: cinco quadras pares, numeradas de 38 a 46, além da previsão de criação das QEs 48, 50, 52, 54, 56 e 58.
  • Quadra Externa 23: localizada na porção norte da Avenida Contorno, diferencia-se das demais por abrigar atividades de entretenimento e serviços institucionais, como a Feira Permanente do Guará e o Centro Administrativo Vivencial e Esportivo (CAVE), em vez de constituir uma área predominantemente residencial.

Ao longo da Avenida Central, encontram-se seis Quadras Internas ímpares, numeradas de 23 a 33, compostas por lotes destinados a edifícios residenciais e ao comércio local. Além das áreas residenciais, o Guará II possui o Polo de Modas e seis Áreas Especiais pares, numeradas de 2 a 10, sendo a AE 2 subdividida em AE 2 e AE 2A. Essas áreas são destinadas a diferentes atividades e usos urbanos.

Do ponto de vista morfológico, as Quadras Externas do Guará II apresentam uma disposição lado a lado, separadas por amplas áreas verdes. Essas entrequadras foram concebidas para abrigar equipamentos como escolas em suas porções centrais, mantendo as laterais livres e permeáveis, embora apenas algumas contem com escolas efetivamente construídas. No interior das quadras, destaca-se um eixo longitudinal que funciona como uma espécie de espinha dorsal, articulando-se perpendicularmente com as vias de acesso. Esse eixo estrutura a distribuição dos espaços internos e delimita uma área verde central, cuja configuração reproduz, em escala menor, o padrão dos vazios presentes nas entrequadras paralelas. Assim, a disposição das quadras, dos eixos viários e das áreas livres contribui para definir a paisagem urbana característica do Guará II.

Hierarquia viária e mapa estético do Guará II. Fonte: COSTA, 2015
Hierarquia viária e mapa estético do Guará II. Fonte: COSTA, 2015

Lúcio Costa

As Quadras Econômicas Lúcio Costa (QELC), localizadas às margens da Estrada Parque Taguatinga (EPTG), próximas ao Guará I, começaram a ser implantadas em 1986, no contexto das propostas urbanísticas de Lúcio Costa para a expansão de Brasília. Inauguradas em 1987, estão relacionadas à concepção de quadras econômicas apresentada pelo urbanista, que buscava ampliar a oferta de moradias ao longo dos eixos de ligação entre o Plano Piloto e as cidades-satélites.

A configuração urbana das QELC distingue-se pela combinação de vias com traçado suavemente curvilíneo e edifícios residenciais dispostos de maneira alternada. Em vez de formar fileiras paralelas e contínuas, os blocos apresentam uma implantação escalonada, com edificações posicionadas próximas às quinas umas das outras. Essa disposição produz uma composição menos rígida do que a de uma malha ortogonal convencional, na qual as ruas se cruzam perpendicularmente e as edificações tendem a acompanhar alinhamentos regulares.

A disposição dos edifícios também define espaços livres de formas e dimensões variadas entre as construções. Em planta, esses vazios aparecem como intervalos entre os blocos, cuja distribuição é condicionada pelo posicionamento alternado das edificações e pelo traçado das vias. A relação entre os volumes construídos, as ruas curvas e os espaços abertos constitui, assim, um dos aspectos mais característicos da organização espacial do conjunto.

A escala dos edifícios residenciais e a disposição dos blocos conferem unidade ao conjunto, sem que isso resulte em um alinhamento contínuo das fachadas. A organização espacial é marcada, sobretudo, pela repetição da tipologia dos edifícios e pela alternância de sua implantação ao longo das vias. Dessa forma, as QELC apresentam uma composição urbana distinta daquela observada nas quadras mais regulares do Guará I e do Guará II, nas quais predominam configurações mais próximas de uma organização ortogonal.

Colônias Agrícolas

A origem dessas áreas está ligada à organização territorial do Distrito Federal e à intenção de manter uma produção agropecuária próxima ao mercado consumidor de Brasília. Em diferentes momentos, houve parcelamento de terras rurais, comercialização de lotes, formação de condomínios horizontais e iniciativas governamentais de regularização. A valorização imobiliária e a demanda por moradia contribuíram para esse processo, que também passou a envolver questões de infraestrutura, propriedade da terra e proteção ambiental. O Projeto de Lei distrital nº 1.636/2025, que propõe reunir o Setor Habitacional Bernardo Sayão e as antigas Colônias Agrícolas Águas Claras e IAPI sob o nome de Setor Habitacional Guará Park.

Fontes

COSTA, Jacqueline Marra Ferreira. Nova proposta para o Centro Metropolitano do Guará. 2015. Trabalho Final de Graduação (Bacharelado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de Brasília, Brasília, 2015. Disponível em: <https://repositorio.uniceub.br/jspui/handle/235/7783>.

TOMÉ, Candice de Albuquerque. Avaliação pós-ocupação da quadra econômica Lúcio Costa em Brasília-DF: estudo das alterações ocorridas na quadra e nos edifícios. 2009. 117 f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) — Universidade de Brasília, Brasília, 2009.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.