Em 8 de março de 2026, uma forte chuva caiu em São Paulo, devido à combinação de ventos úmidos em superfície que sopravam do mar em direção ao continente, organizados por um frente fria predominantemente oceânica, com instabilidades provenientes do interior do estado, geradas por um cavado. O CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências da capital paulista) manteve diversas subprefeituras em estado de atenção e de alerta para alagamentos, com transbordamentos dos córregos Guaratiba, Mooca, Água Espraiada, Moinho Velho e Ipiranga. Regiões da zona sul, leste, sudeste e São Bernardo do Campo ficaram debaixo d’água, interditando avenidas arteriais como Ricardo jafet/Abraão de Morais, dos Bandeirantes, Miguel Stefno e Juntas Provisórias.

Segundo o Corpo de Bombeiros, entre o meio-dia e as 17h deste domingo, foram registradas 15 chamadas de quedas de árvores, duas chamadas para desabamentos e 180 chamadas para enchentes na capital e na região metropolitana de São Paulo. Dentre os estragos estão também alagamentos nas marginais Tietê e Pinheiros, o desabamento de um muro no Aeroporto de Congonhas, um buraco que interditou duas faixas da Avenida Affonso D’escragnolle Taunay (100 metros após o Viaduto Aliomar Baleeiro), o muro de uma academia que cedeu e a água invadiu o local no bairro da Saúde e uma Paróquia ficou alagada na Vila Clementino.
O CEMADEN (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) mediu 106 mm em 1 hora. Das estações meteorológicas do CGE, até 17h30, a que registrou o maior volume de chuva foi a do Ipiranga: 103,8mm. Registro semelhante foi a da estação meteorológica do IAG-USP (Instituto de Astronomia, geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo), de 100,6 mm. Essa estação fica no meio do PEFI (Parque Estadual das Fontes do Ipiranga), próximo das nascentes do rio Ipiranga.

Transbordamento do piscinão e alagamentos nas várzeas
Um ponto importante registrado por pessoas no local foi o transbordamento do piscinão do rio Ipiranga. O reservatório R2-Aliomar Baleeiro/Deputado Jooji Hato do Córrego Ipiranga está na altura do número 3.800 da Avenida Professor Abraão de Morais, formado por dois tanques com capacidade para armazenar 200 mil metros cúbicos de água, que equivalem a 80 piscinas olímpicas. Inaugurado em fevereiro de 2022, ele fica logo depois do reservatório R1 – Lagoa Aliperti, na região da Rodovia dos Imigrantes, que permitirá o armazenamento de 110 mil metros cúbicos de água.

Apesar da capacidade nominal aparentemente folgada, houve transbordamento e alagamento das áreas de várzea nos bairros vizinhos. Para compreender as causas, é necessário estimar corretamente a área de contribuição efetiva a montante do reservatório, bem como aplicar coeficientes de escoamento superficial (runoff) que diferenciem áreas urbanas e de mata.
1. Dados de Entrada
- Área total da bacia hidrográfica: 23 km² = 23.000.000 m²
- Área a montante (efetivamente contribuinte): aproximadamente 1/3 da bacia total:
- Ocupação do solo na bacia: 80% urbano e 20% mata (praticametne toda na porção a montante, PEFI).
- Precipitação: h = 100 mm = 0,1 m
- Capacidade do piscinão: \(V_{max}\) = 200.000 m³
2. Coeficientes de Escoamento Superficial (Runoff)
- Área urbana: \(C_{urb}\) = 0,90 (alta impermeabilização)
- Mata: \(C_{mata}\) = 0,20 (alta infiltração)
3. Estimativa das Áreas a Montante
A área de mata na bacia total é:
\(A_{\text{mata, total}} = 0,20 \times 23.000.000 = 4.600.000 \, m^2\)Considerando que 90% dessa mata está a montante:
\(A_{\text{mata, montante}} = 0,90 \times 4.600.000 = 4.140.000 \, m^2\)A área urbana a montante é obtida por diferença:
\(A_{\text{urb, montante}} = 7.670.000 – 4.140.000 = 3.530.000 \, m^2\)4. Cálculo da Área Equivalente Impermeável
A área equivalente impermeável é dada pela soma ponderada das áreas pelos respectivos coeficientes de runoff:
\(A_{\text{eq}} = (A_{\text{urb, montante}} \times C_{\text{urb}}) + (A_{\text{mata, montante}} \times C_{\text{mata}})\)Substituindo os valores:
\(A_{\text{eq}} = (3.530.000 \times 0,90) + (4.140.000 \times 0,20)\)
\(A_{\text{eq}} = 3.177.000 + 828.000 = 4.005.000 \, m^2\)
5. Volume de Água que Chegou ao Piscinão
O volume gerado pela chuva na área de contribuição é:
\(V = A_{\text{eq}} \times h\)
\(V = 4.005.000 \times 0,1 = 400.500 \, m^3\)
6. Comparação com a Capacidade do Piscinão
- Capacidade máxima: 200.000 m³
- Volume afluente: 400.500 m³
O volume excedente é 200.500 m³, ou seja, o volume que chegou ao piscinão foi o dobro da sua capacidade. Os cálculos apontam que o transbordamento do piscinão e os alagamentos nas várzeas podem ser explicados pela subestimação da área de contribuição real. Este caso evidencia a importância de, em projetos de drenagem urbana, considerar que eventos extremos serão cada vez mais comuns em tempos de mudanças climáticas.

Fontes
- CGE – Boletim das 08/03/2026 17:56
- CBN – Chuva no fim de semana deixa dois mortos e total de vítimas chega a 21 em SP desde dezembro
- Agência brasil – Chuva em SP provoca alagamentos e deixa zona leste em estado de alerta
- g1 – Córregos transbordam na Zona Sul de São Paulo e carros da Enel boiam em alagamento
- Jornal da USP – Córrego do Ipiranga é mais um exemplo de políticas mal formuladas
- Prefeitura de São Paulo – Prefeito vistoria obras de piscinão no Ipiranga
- ISTOÉ Dinheiro – Prefeitura inaugura dois piscinões na zona sul da capital paulista
- AMARAL, Rosangela do. Análise integrada do ambiente urbano e as inundações recorrentes: caso da Bacia Hidrográfica do Córrego Ipiranga (São Paulo/SP). 2020. 278 f. Tese (Doutorado em Geografia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2020. Disponível em: <https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8135/tde-15122020-194333/publico/2020_RosangelaDoAmaral_VCorr.pdf>
