A Psicologia Positiva é um movimento que busca estudar cientificamente o bem-estar, forças pessoais e felicidade. Martin Seligman é considerado o fundador dessa área e criou o site Authentic Happiness, que oferece questionários e recursos para medir aspectos de bem-estar e caráter. Seus modelos teóricos e ferramentas práticas para medir e promover bem-estar são frequentemente citadas por Jonathan Haidt em seu livro A Hipótese da Felicidade (“The Happiness Hypothesis”, 2006). Nele é explorado como ideias antigas sobre felicidade se conectam com descobertas modernas da psicologia, mostrando que a busca pela felicidade é tanto científica quanto filosófica.
Logo no início do livro, Haidt apresenta a metáfora do condutor e o elefante para ilustrar como funciona a mente humana. O condutor representa a parte racional e consciente, aquela que planeja, analisa e tenta controlar as ações. Já o elefante simboliza a parte emocional, intuitiva e automática, muito mais poderosa em termos de motivação e comportamento. A ideia central é que, embora o condutor possa segurar as rédeas e dar direção, o elefante é quem realmente decide para onde vai — se ele não quiser cooperar, o condutor tem pouca força para obrigá-lo. Essa metáfora é usada ao longo do livro para mostrar que a felicidade e as escolhas humanas dependem de alinhar razão e emoção, em vez de acreditar que apenas o raciocínio lógico pode dominar nossas vidas.
O “Values in Action (VIA) Classification of Strengths and Virtues”, desenvolvido por Martin Seligman e Christopher Peterson e apresentado no livro, é uma tentativa de mapear virtudes universais presentes em diferentes tradições filosóficas e religiosas. Ele funciona como um contraponto positivo ao DSM, destacando não os transtornos, mas as forças humanas que promovem bem-estar e realização. A classificação organiza essas forças em seis grandes virtudes, cada uma acompanhada de características específicas que refletem maneiras pelas quais os indivíduos podem viver de forma mais plena e significativa:
- Sabedoria e conhecimento – Criatividade, curiosidade, mente aberta, amor pelo aprendizado, perspectiva
- Coragem – Bravura, perseverança, integridade, vitalidade
- Humanidade – Amor, bondade, inteligência social
- Justiça – Cidadania, imparcialidade, liderança
- Temperança – Perdão, humildade, prudência, autocontrole
- Transcendência – Apreciação da beleza, gratidão, esperança, humor, espiritualidade
Outro ponto interessante apresentado no livro diz respeito a estudos realizados por James W. Pennebaker sobre a escrita de traumas pelos pacientes. Os sujeitos que utilizaram a escrita apenas como desabafo não tiveram avanços significativos em seu tratamento, nem mesmo os que usaram escrita somente para entender melhor as causas e consequências. Avanços significativos foram observados nas pessoas que demonstraram uma percepção gradualmente mais aguçada dos fatos: quando as palavras ajudam a criar uma história, é possível colher frutos mesmo anos depois da escrita.
Pennebaker sugere que se escreva continuamente durante 15 minutos por dia, durante vários dias, sem edição ou censura – o objetivo é externalizar seus pensamentos e sentimentos. Escreva sobre o que aconteceu, como você se sente sobre isso e por que seu sentimento é esse. Antes de concluir sua última sessão, certifique-se de fazer o seu melhor para responder às seguintes perguntas: “Por que isso aconteceu?” e “O que posso tirar de bom disso?”
“Deus, conceda-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar as coisas que posso, e sabedoria para saber discernir entre as duas.”
Oração da Serenidade
Na célebre hierarquia das necessidades de Abraham Maslow (1908-1970), uma vez que as pessoas tenham satisfeito suas necessidades físicas (tais como alimento e segurança), elas passam adiante para as necessidades de amor e autovalorização, que é obtida fortemente por intermédio do trabalho. Robert White (1904-2001) aponta a necessidade/vontade de desenvolver competências por meio de controle do ambiente e de interações com ele, chamando isso de “motriz da efetivação”. Necessidades como água e alimento desaparecem após poucas horas depois de supridas; já a necessidade de efetivação não é de natureza deficitária, permanecendo como uma constante ao longo da vida.
Considerando esse ponto de vista para contemplar as condições de trabalho modernas, observe uma das críticas de Karl Marx (1818-1883) ao capitalismo. Ele afirma que a Revolução Industrial destruiu a relação histórica entre artesãos e os bens que produziam. O trabalho setorizado transforma as pessoas nas engrenagens de uma máquina gigantesca, sem se importar com a necessidade de efetivação das pessoas. O processo de exteriorização de uma essência humana e do não-reconhecimento desta atividade enquanto tal é chamado por Marx de alienação. O trabalho alienado faz com que o indivíduo não tenha uma real noção de seu valor. Trabalhadores com maior autonomia para executar suas funções tendem a desfrutar muito mais delas.
Haidt ainda mostra o resultado de pesquisas em que a maioria das pessoas encara seu trabalho de uma dessas três maneiras:
- Emprego – O trabalho é visto principalmente como uma fonte de renda. A motivação central é o salário, e a pessoa tende a buscar apenas segurança financeira, sem grande envolvimento emocional ou propósito.
- Carreira – O trabalho é encarado como um caminho de progresso e reconhecimento. A pessoa busca crescimento, status e conquistas profissionais, valorizando promoções e avanços na hierarquia.
- Vocação – O trabalho é percebido como uma missão ou chamado. Ele traz sentido profundo, conexão com valores pessoais e satisfação em contribuir para algo maior do que o próprio indivíduo.
Por fim, após o livro apresentar esses outras dezenas de pontos importantes para avalização, a conclusão é feita abordando a questão do sentido da vida, que segue:
O que você pode fazer para ter uma vida boa, feliz, satisfatória e significativa? Qual é a resposta à questão do propósito na vida? Eu acredito que a resposta só possa ser encontrada no entendimento de que tipo de criatura nós somos dividida nas muitas formas nas quais nós nos dividimos. Fomos moldados pela seleção individual para sermos criaturas egoístas que lutam por recursos, prazer e prestígio, e fomos moldados pela seleção de grupo para sermos criaturas de colmeias que desejam se perder em algo maior do que o “eu”. Somos criaturas sociais que necessitam de amor e apegos, e somos criaturas industriais que necessitam de efetivação, capazes de entrar num estado de compromisso vital com nosso trabalho. Somos o condutor e o elefante e nossa saúde mental depende do trabalho conjunto dos dois, cada um se apoiando nas forças do outro. Não acredito que haja uma resposta inspiradora à pergunta: “Qual é o propósito da vida?” Ainda assim, ao recorrermos à sabedoria antiga e à ciência moderna, podemos encontrar respostas sedutoras à questão do propósito na vida. A versão final da hipótese da felicidade é a de que a felicidade vem do meio-termo. A felicidade não é algo que se possa encontrar, adquirir ou alcançar diretamente. É preciso criar as condições ideais e esperar. Algumas dessas condições jazem dentro de nós, tais como a da coerência entre as partes e os níveis de nossa personalidade. Outras condições requerem relações com coisas que vão além de nós: assim como as plantas precisam de sol, água e um bom solo para prosperarem, as pessoas precisam de amor, trabalho e uma conexão a algo maior. Vale a pena se esforçar para manter as relações corretas entre você e outrem, entre você e seu trabalho, entre você e algo maior que você. Se você acertar nesse aspecto, um senso de propósito e sentido emergirá.

