Voo noturno, de Saint-Exupéry

Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) foi um escritor e ilustrador francês mundialmente conhecido pela sua obra “O Pequeno Príncipe” (de 1943). Nesse famoso livro, o personagem principal vivia sozinho num asteroide do tamanho de uma casa que tinha três vulcões (dois ativos e um extinto) e uma rosa. Foi o orgulho da flor que arruinou a tranquilidade do mundo do pequeno príncipe e o levou a começar uma viagem em busca de amigos. Chegando à Terra, encontrou diversos personagens a partir dos quais conseguiu repensar o que é realmente importante na vida. Essa mudança de valores sugere ao leitor quão equivocados podem ser os nossos julgamentos, e como eles podem nos levar à solidão – por exemplo, estarmos entregues às preocupações diárias, e esquecendo valores, pessoas e objetivos de vida mais importantes.

Antoine de Saint-Exupéry no cockpit de seu Caudron C.630 Simoun, F-ANRY, em Paris. Fonte: This Day in Aviation

O que alguns não sabem é que, quando ainda estava no serviço militar, tirou seu brevê de piloto civil em Rabat (Marrocos) no ano de 1921. Em 1926, foi admitido na Aéropostale (fundada em 1918 como Sociedade Latécoère de Aviação), voando entre Toulouse, Casablanca e Dacar. Também voou na América e nas Forças Francesas Livres, lutando com os Aliados num esquadrão do Mediterrâneo em aviões P-38 Lightning. Sua última tarefa foi recolher informação sobre os movimentos de tropas alemãs em torno do Vale do Ródano antes da invasão aliada do sul da França em 31 de julho de 1944. Relatou-se um acidente de avião no dia seguinte, perto da Baía de Carqueiranne, Toulon. Em 2004, os destroços do avião que pilotava foram achados a poucos quilômetros da costa de Marselha, mas eu corpo nunca foi encontrado.

Veja mais sobre Saint-Exupéry e suas escalas no Brasil clicando no link. O canal do YouTube do site “Aviões e Músicas” fez um vídeo falando mais sobre as atividades aéreas de Saint-Exupéry:

Dentre suas obras, a maioria acontece no mundo dos pilotos, baseando-se em suas aventuras: O aviador (1926), Correio do Sul (1929), Voo Noturno (1931), Terra dos Homens (1939), Piloto de Guerra (1942).

Aviso de SPOILER: as resenhas que costumo escrever visam um debate depois da leitura da obra, e não para instigar sua leitura (como é de costume ter na contracapa dos livros). Então, fique avisado que, daqui pra frente, podem existir revelações da história que tirariam o suspense de uma primeira leitura.

Em “Voo Noturno“, são narradas aventuras de um piloto (Fabien) e de um radiotelegrafista (Pellerin) em voos à noite do serviço de correio aéreo na região sul da América (Argentina, Chile, Paraguai, Uruguai e Brasil) e sua ligação com a Europa. Realizado sob pouquíssimo apoio tecnológico (somente mapas, telégrafo, bússola e o horizonte), cada voo era sujeito a todo tipo de problema. O responsável pela rede de aviões postais (Rivière) tentava equilibrar o bom senso de não voar naquelas condições e a necessidade da empresa realizar o transporte das correspondências.

Em uma de suas viagens sobre os Andes, relatam sobre um ciclone (região de baixa pressão atmosférica, propensa a tempestades) formado sobre o Oceano Pacífico e que teria ultrapassado a cordilheira no sentido leste. Na verdade, como o fenômeno que promove esse tipo de ciclone (as correntes de jato) acontecem em uma altitude maior que o topo dos Andes, o ciclone é destruído a oeste da cordilheira e formado novamente a leste.

“(…) a neve cegava-o. Mas violentas rajadas salvaram-no, elevando-o a sete mil metros. ‘Mantive-me, com certeza, rente às cristas durante toda a travessia.’ Também falou do giroscópio, cuja tomada de ar deveria ser mudada: a neve obstruía-a: ‘Forma uma camada de geada, percebe?’ Mais tarde, outras rajadas fizeram Pellerin tombar e, mais ou menos a três mil metros, surpreendia-se de não ter ainda chocado com alguma coisa. É que já sobrevoava; a planície. ‘Dei por isso de repente, ao desembocar num céu limpo.’ Explicou, enfim, que tivera nesse instante a sensação de sair duma caverna.”

Ainda em outra de suas aventuras, “pesadas nuvens apagavam as estrelas”:

“Os primeiros redemoinhos da tempestade distante atacavam o avião. Soerguida suavemente, a massa metálica premia o corpo do telegrafista, depois parecia evaporar-se, fundir-se e durante alguns segundos, ele pairou sozinho na noite. Então, com ambas as mãos, agarrou-se com força às longarinas de aço. E como nada mais via no mundo, senão a lâmpada vermelha da carlinga, estremeceu ao sentir-se baixar no seio das trevas, sem socorro, sob a proteção exclusiva duma lâmpada de mineiro.”

Sua viagem mais tensa aconteceu em meio a uma tempestade que atingia desde a Patagônia até a Cordilheira dos Andes. O piloto inclusive chegou a voar acima das nuvens (não devem ser nuvens de tempestade em si, já que um avião naquele tempo sem pressurização não conseguiria atingir essa altitude) e manter a antena recolhida (a estática gerada por indução elétrica das tempestades praticamente inviabiliza a comunicação e o acúmulo de cargas pode até facilitar a passagem de uma descarga elétrica atmosférica).

Rivière acreditava que deveria ser durão para ser um bom líder, e as missões difíceis exigiam que ele fosse inflexível para não fracassarem. Por outro lado, em pensamento ele considerava ser importante uma amizade mais próxima, refletindo sobre questões existenciais. Isso traz uma temática sempre presente nos livros de Saint-Exupéry: devemos dedicar mais tempo às amizades, termos compaixão e repensar as coias que realmente importam nas nossas vidas.

Esse conflito interno de Rivière atingiu o clímax quando o avião de Fabien enfrentou a tempestade. Após toda a tensão passada pelas falhas na comunicação do avião com o solo, cujas mensagens deveriam ser repassadas ao escritório de Rivière em Buenos Aires, o avião desapareceu. E o chefe permaneceu “carregando a sua pesada vitória” como um chefe durão, apesar de que parece ter se arrependido de não ter tratado Fabien e sua mulher com maior compaixão.

“Nos não pedimos para ser eternos, mas apenas para não ver os atos e as coisas perderem subitamente o seu sentido.”

Rivière em “Voo noturno” – Antoine de Saint-Exupéry

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