Velhice negativada e negação da velhice

Por Maria Auxiliadora Roggério

“[…] O que é mesmo que a chateava? Onde era exatamente o ponto que doía tanto? A vergonha. Ser velho dá vergonha e dá vergonha porque é impudico, […] Deu-se conta de um sentimento ruim, o de que além de velha pecava pela rejeição de sua velhice e pecava feio, aumentando-se por conseqüência e castigo em mais velhice e mais feiúra”.
(“O tempo”, Adélia Prado)

Com o aumento da expectativa de vida e do contingente de idosos, vem ganhando representatividade a questão do envelhecer com qualidade de vida. Projeções do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – dão a saber que, em 2050 a cada três brasileiros, um será idoso. Em meados de 2025, o Brasil deverá ocupar o sexto lugar no ranking mundial da população idosa. Em outras palavras, por volta de 32 milhões de pessoas acima dos 60 anos ou 15% da nossa população. (Fonte: IBGE: Censo 2000).

Tal fato implica na necessidade de mudanças nas políticas públicas que deverão ser mais adequadas a essa realidade, um novo olhar da sociedade sobre o envelhecer e a velhice e do velho sobre si mesmo.

Em nossa sociedade orientada para a juventude, envelhecer significa perder as qualidades valorizadas na juventude, como beleza, força, agilidade, papéis desempenhados, poder aquisitivo, direitos e responsabilidades. E, com isso, o respeito.

Conquistar qualidade de vida na velhice não é um atributo do indivíduo biológico, psicológico ou social, ou uma responsabilidade individual, mas, o resultado das relações interpessoais. (Neri, 1997).

Muitos idosos consideram-se inúteis, estorvo para a família e para a sociedade. Também surge a idéia de infelicidade, porque muitas perdas ocorrem com o envelhecimento e na velhice. Sem dúvida, há o declínio de capacidades físicas, a memória sofre alterações, as oportunidades sociais diminuem, bem como a possibilidade de realização de certos projetos.

Mas, a sociedade discrimina a maioria dos velhos, relegando-os; são vistos como muito diminuídos em suas capacidades ou em seus potenciais. Desse modo, o próprio velho acaba se vendo assim, como um incapaz, receoso em “ousar” determinadas atitudes ou comportamentos considerados inadequados no contexto cultural em que está inserido, sofrendo restrição de sua liberdade. Às vezes, nem a atitude ou o comportamento, ocorrem; basta o desejo e logo surgem imposições, críticas: “Uma mulher de setenta anos, querendo namorar?! E querendo namorar um homem de cinqüenta?!” ou “Sessenta e cinco anos e pensando em viajar sozinho?!”. Muitos poderiam ser os exemplos do preconceito que carregamos desde nossa infância, em relação aos idosos. Em nossa juventude, não falamos muito da questão da velhice. No máximo, pensamos em nossa aposentadoria – com dinheiro e tempo para viajar e curtir uma vida de lazer e contemplação. Não estamos socialmente preparados para ver um idoso ativo, como continuação de uma vida adulta. Também não estamos preparados para nossa própria velhice.

Mario Prata (1997), nos fala dessa preparação:

“Sempre me disseram que a vida do homem se dividia em quatro partes: infância, adolescência, maturidade e velhice. Quase correto, esqueceram de nos dizer que entre a maturidade e a velhice existe a envelhecência”. (p.13)

Berlinck (2000), elaborando o conceito de envelhecência, a caracteriza como um processo de transformação da identidade, arte de viver a velhice:

“A envelhecência se distingue do envelhecer porque este é considerado, em nossa sociedade, como um estágio da vida que é desprezível. […] Na envelhecência, ao contrário, o sujeito se vê na contingência de ter de pensar sua velhice, ou seja, distingui-la do preconceito e do estigma para que possa ser vivida com um mínimo de dignidade. Esse trabalho de pensamento é, via de regra, um esforço solitário, que pode enriquecer o mundo interno do sujeito”. (p. 196)

Pensar na própria velhice já vivenciando essa etapa da vida pode significar adaptar-se a uma nova realidade, enfrentando situações de desvalorização, sofrimento e vergonha. Na cena social, os idosos têm sua auto-imagem depreciada, são tolhidos em suas liberdade e autonomia; as experiências vividas são desqualificadas, as questões afetivas e sexuais ignoradas. Essa violência – real e simbólica – gera sentimentos de inadequação, fazendo com que se sintam inúteis, indesejados ou, simplesmente, tolerados.

Física ou simbólica, a violência leva a situações de humilhação, falta de reconhecimento e pertença, a um processo de invalidação da pessoa e está na origem do processo social da vergonha.

A vergonha objetiva a inércia de quem a sofre.

O idoso poderia revoltar-se e despertar para a cidadania, tornando-se agente de sua própria libertação, mas não há reação. Em vez disso, conforma-se à vergonha sentida, interioriza e legitima sua própria invalidação social.

A vergonha surge, então, por saber-se velho que perdeu seu lugar de “sujeito”, numa sociedade que considera a velhice uma doença inevitável e incurável; decadência, e não transformação. São estereótipos que influenciam a interação com pessoas idosas e o olhar destas sobre si mesmas. Martins & Rodrigues (sd), nos dizem que:

“Socialmente, e no caso dos idosos, a valorização dos estereótipos projeta sobre a velhice uma representação social gerontofóbica e contribui para a imagem que estes têm de si próprios, bem como das condições e circunstâncias que envolvem a velhice, pela perturbação que causam uma vez que negam o processo de desenvolvimento”. (p. 250)

O lugar e o papel do velho são determinados pela sociedade, segundo sua ideologia e variáveis históricas e socioculturais. Estigmas e preconceitos norteiam essa representação, da qual os velhos também partilham, embora essa ideologia não defina o velho em particular. Dessa forma, não se sentem incluídos na categoria de velho, porque “velho” será sempre o “outro”. (Mercadante, 2005). Porém,

“O sujeito que envelhece sabe perfeitamente que aquela imagem lhe pertence, mas experimenta ante ela uma certa estranheza, um susto, como se a imagem fosse de outro: há uma falta de reconhecimento como imagem, não como sujeito. […] Quando um idoso se olha no espelho, o que este lhe devolve é uma imagem ligada a uma deterioração, uma imagem com a qual ele não se identifica”. (Goldfarb, 1998, p.51)

Como nos disse Drummond (1999): “Meu corpo não é meu corpo, é ilusão de outro ser. Sabe a arte de esconder-me e é de tal modo sagaz que a mim de mim ele oculta”. (p. 7). Nos escondemos atrás de algo – do corpo – que não somos, e o corpo se torna a negação do ser.

A velhice estigmatizada, do corpo em declínio, ultrapassa os limites do corpo e atinge globalmente o ser humano idoso envolvendo o psiquismo, e sua condição sociocultural. Novos paradigmas estão surgindo. Socialmente, homens e mulheres de mais de cinqüenta anos de idade das elites urbanas, representam um modelo de rejuvenescimento, preocupados com velhice bem-sucedida (estabelecimento de metas possíveis de serem realizadas; atividades físicas inscritas dentro do cotidiano; alimentação e ambientes saudáveis; promoção de saúde mental; bem-estar psicológico; relacionamentos sociais; criatividade; sexualidade; manutenção da auto-estima); enquanto que, nas demais camadas sociais, o modelo é de morte social, pelo isolamento. Exclusão gradual – quando não abrupta – dos idosos no mercado de trabalho, no convívio familiar e nas relações sociais; superproteção ou evitação de contato; reações agressivas; violência. O velho não investe em si mesmo, pois somente enxerga a decadência e a própria finitude. A ausência de projetos para o futuro nega a possibilidade de que este exista.

É importante ressaltar que, através de reivindicações dos idosos e da sociedade civil, algumas políticas sociais trouxeram melhorias significativas para os idosos, como passe livre nos ônibus urbanos, fila preferencial em bancos, repartições públicas e privadas, prioridade nos processos jurídicos, e contribuíram para uma imagem positiva dos velhos frente à velhice.

Mas, essas políticas públicas são insuficientes para mudar práticas com foco ideológico que contribuem para a cristalização de estereótipos negativos e preconceitos sobre a velhice. Esse discurso, que expressa a velhice com algo negativo, reflete-se no anseio dos idosos em permanecer na atividade, com autonomia e independência, garantindo um senso de identidade e valor, que negam seu próprio envelhecimento como forma defensiva contra o desencanto de pertencer ao grupo caracterizado de “velhos”.

Um modo de lidar com a vergonha de ser velho – angústia da personagem do conto de Adélia Prado, mencionado em epígrafe – e superar esse sentimento, seria a restauração do sentimento de confiança (em si e entre indivíduo, sociedade e mundo). Confiança na capacidade criativa, nas qualificações, em novas práxis, nas potencialidades, nas escolhas. Sensibilidade à experiência do outro, descolamento dos estigmas e ressignificação do lugar do velho no mundo, sempre em movimento e em transformação.

A velhice deve ser respeitada em seus aspectos singulares e os velhos, tentarem encontrar os segredos dessa nova etapa, talvez, inspirados pela letra de “Tempos Modernos” (**), de Lulu Santos: “Eu vejo a vida melhor no futuro […] Eu vejo a vida mais clara e farta / repleta de toda satisfação / que se tem direito / do firmamento ao chão […] Eu vejo um novo começo de era […] Vamos viver tudo que há pra viver / vamos nos permitir”.

 

(*) TCC de Psicogerontologia apresentado à PUC-SP.

(**) Álbum Acústico MTV – Lulu Santos, gravado em 28 de junho de 2000, no Pólo de Cinema e Vídeo, Rio de Janeiro.

 

Referências bibliográficas

ANDRADE, C. DRUMMOND de, (1999). As contradições do corpo. In: Corpo: novos poemas. 13ª ed. Rio de Janeiro:Record.

BERLINCK, M. T. (2000). Envelhecência. In: Psicopatologia Fundamental. São Paulo:Escuta.

GOLDFARB, D, C, (1998). Corpo, tempo e envelhecimento. São Paulo:Casa do Psicólogo.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE – Censo demográfico 2000. Rio de Janeiro (RJ). Disponível em http://www.ibge.gov.br. Acesso em: 12 de setembro de 2007.

MARTINS, R. M. L.; RODRIGUES, M. L. M. (sd). Estereótipos sobre idosos: uma representação social gerontofóbica. Educação, ciência e tecnologia (pp. 249-254). Disponível em: http://www.ipv.pt/millenium/Millenium29/32.pdf. Acesso em: 25 de outubro de 2007.

MERCADANTE, E. F. (2005). Velhice: uma questão complexa. In: CÔRTE, MERCADANTE & ARCURI (orgs.) Complexidade, velhice e envelhecimento. São Paulo:Vetor.

NERI, A. L. (1997). Qualidade de vida na velhice. In: M. DELITTI (org.) Sobre comportamento e cognição: a prática da análise do comportamento e da terapia cognitivo-comportamental. (pp. 34-40). Campinas:Arbytes.

PRADO, A. (2001). O tempo. In: Filandras. Rio de Janeiro:Record.

PRATA, M. (1997). 100 Crônicas. Cartaz Editorial/Jornal O Estado de São Paulo (p. 13). Disponível em http://www.releituras.com/marioprata_envelhece.asp. Acesso em: 10 de março de 2006.

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  • Para quem tem mais de 65
    anos

    Ivone Boechat (autora)

    1 – Tome posse da maturidade. A longevidade é uma
    bênção! Comemore! Ser maduro
    é um privilégio; é a última etapa da sua vida e se você acha que não
    soube viver as outras, não perca tempo, viva muito bem esta. Não fique
    falando toda hora: “estou velho”. Velho é coisa enguiçada. Idade não é
    pretexto para ninguém ficar velho. Engane a você mesmo sobre
    a sua idade, porque os psicólogos dizem que se vive de acordo com a idade declarada!

    2 – Perdoe a
    você antes de perdoar os outros. Se você falhou, pediu perdão? Deus já o perdoou
    e não se lembra mais. Mas você fica remoendo o passado… Não se importe com o
    julgamento dos outros. Só há dois times no Universo: o do Salvador e o do
    acusador. Neste último você sabe quem é
    goleiro. Continue no time do Salvador.

    3 – Viva
    com inteligência todo o seu tempo. Viva a sua
    vida, não a do seu marido, dos filhos, dos netos, dos parentes, dos vizinhos…
    Nem viva só pra eles, viva pra você também. Isto se chama amor próprio, aquilo
    que você sacrificou sempre! Nunca viva em função dos outros. Faça o seu projeto
    de vida!

    4 – Coma muito
    menos; durma o suficiente; não fique o dia inteiro, dormindo, dando desculpa de
    velhice. Tenha disciplina. Fale com muita sabedoria. Discipline sua voz: nem
    metálica, nem baixinha; seja agradável!

    5 – Poupe
    seus familiares e amigos das memórias do passado. Valorize o que foi bom. Experiências
    caóticas, traumas, fobias, neuroses, devem ser tratadas com o psicoterapeuta.
    Não transforme poltrona em divã, ouvido em descarga.

    6 – Não aborreça
    ninguém com o relatório das suas viagens. Elas são
    interessantes só pra quem viaja. Ninguém aguenta ouvir os relatórios e ver
    fotografias horas e horas. Comente apenas o destino e a duração da viagem, se
    alguém perguntar. Aprenda a fazer uma síntese de tudo, a não ser que seus
    amigos peçam mais detalhes. Se alguém perguntar mais alguma coisa, seja breve.

    7 – Escolha
    bons médicos. Não se automedique. Não há nada mais irritante do que um idoso
    metido a receitar remédio pra tudo o que o outro sente. Faça uma faxina na sua
    farmácia doméstica.

    8 – Não arrisque cirurgias plásticas rejuvenescedoras.
    Elas têm prazo curto de duração. A chance de você ficar mais feio é altíssima e a de ficar mais jovem é fugaz. Faça exercícios faciais. Socorra os músculos da sua face. Tome
    no mínimo oito copos de água por dia e o sol da manhã é indispensável. O crime
    não compensa, mas o creme compensa!

    9 – Use
    seu dinheiro com critério. Gaste em coisas importantes e evite economizar tanto com você.
    Tudo o que se economizar com você será para quem? No
    dia em que você morrer, vai ser uma feira
    de Caruaru na sua casa. Vão carregar tudo. Não darão valor a nada daquilo
    que você valorizou tanto: enfeites, penduricalhos, livros antigos, roupas
    usadas, bijuterias cafonas, ouro velho… prataria preta, troféus encardidos,
    placas de homenagens. Por que não doar as roupas, abrir um brechó ou vender
    todas as suas bugigangas, apurar um bom dinheiro e viajar?

    10 – A maturidade
    não lhe dá o direito de ser mal educado. Nada de encher o prato na casa dos
    outros ou no self-service (com os
    outros pagando); falar de boca cheia, ou palitar os dentes na mesa
    de refeições (insuportável).

    11 – Só masque chiclete sem testemunhas. Não corra o risco de acharem que você já está ruminando ou
    falando sozinho.

    12 – Aposentadoria
    não significa ociosidade. Você deve arranjar alguma ocupação interessante e que
    lhe dê prazer. Trabalhar traz muitas vantagens para a saúde
    mental, além do dinheiro extra para gastar, também com você.

    13 – Cuidado
    com a nostalgia e o otimismo. Pessoas amargas e tristes são chatíssimas,
    as alegres demais, também. Elogie os amigos, não fique exigindo explicações de
    tudo. Amigo é amigo.

    14 – Leia.
    Ainda há tempo para gostar de aprender. A maturidade pode lhe trazer
    sabedoria. Coloque-se no grupo sempre pronto para aprender. Não se apresente em
    lugar nenhum dizendo: sou muito experiente!

    15 – Não
    acredite nas pessoas que dizem que não tem nada demais o idoso usar
    roupas de jovens, cuidado. Vista-se bem, mas com discrição. Cuidado com a
    maquiagem, se for pesada, você vai ficar horrível.

    16 – Seja avó
    do seus netos, não a mãe nem a babá. Por isso nem pense em educá-los
    ou comprometer todo o seu tempo com as tarefas chatas de ir buscar na escola, levar a festinhas, natação,
    inglês, vôlei… Só nas emergências. Cuidado com aquela disponibilidade que
    torna os outros irresponsáveis.

    17 – Se
    alguém perguntar como vão seus netos, não precisa contar tuuuuuuuudo!
    Evite discorrer sobre a beleza rara e a inteligência excepcional deles. Cuidado com a idolatria de
    neto e o abandono dos filhos casados…

    18 – Não seja
    uma sogra chata. Nunca peça relatório de nada. Seu filho tem a família dele. Você agora é parente! Nunca,
    nunca, nunca mesmo, visite seus filhos sem que seja convidado.
    Se o filho ligar pra você, não diga: ah! lembrou finalmente da sua mãe? É
    melhor dizer: Deus o abençoe meu filho.

    19 – Cuidado em
    atender ao telefone: se a pessoa perguntar como você vai e você
    responder “estou levando a vida como Deus quer”; “a vida
    é dura”; “estou preparando a partida”; “estou vencendo a dureza”; você vai ver
    que as ligações dos amigos e dos parentes vão rarear, cada vez mais.

    20 – A
    maturidade é o auge da vida, porque você tem idade, juízo, experiência, tempo e
    capacidade para se relacionar melhor com as pessoas. Então delete do seu computador mental o vírus da inveja, do orgulho, da vaidade,
    promiscuidades, cobranças, coisas pequenas e frustrantes para tomar posse de
    tudo o que você sempre sonhou: a felicidade.

    Extraído do livro Educação-a força
    mágica de Ivone Boechat