Super-homem: o além tudo

Por Vinicius Siqueira

O conceito de super-homem é a cereja do bolo na filosofia de Nietzsche: é o ponto alto de uma escalada difícil, que requer certa bagagem. Que bagagem seria essa? Da própria filosofia nietzscheana. Por ter escrita extremamente hermenêutica, só nos resta dissecar um pouco de seu pensamento para chegar à ideia do além-do-homem.

Friedrich Nietzsche (1844-1900): filólogo, filósofo, crítico cultural, poeta e compositor alemão.

Friedrich Nietzsche (1844-1900): filólogo, filósofo, crítico cultural, poeta e compositor alemão.

Precisamos começar pela vontade de potência. Vontade de potência é a energia vital que a tudo move, é a força criadora que mantém o mundo um grande rio de destruições e reconstruções incessantes. Segundo Nietzsche, em fragmento póstumo,

E sabeis… o que é pra mim o mundo?… Este mundo: uma monstruosidade de força, sem princípio, sem fim, uma firme, brônzea grandeza de força… uma economia sem despesas e perdas, mas também sem acréscimos, ou rendimento,… mas antes como força ao mesmo tempo um e múltiplo,… eternamente mudando, eternamente recorrentes… partindo do mais simples ao mais múltiplo, do quieto, mais rígido, mais frio, ao mais ardente, mais selvagem, mais contraditório consigo mesmo, e depois outra vez… esse meu mundo dionisíaco do eternamente-criar-a-si-próprio, do eternamente-destruir-a-si-próprio, sem alvo, sem vontade… Esse mundo é a vontade de potência — e nada além disso! E também vós próprios sois essa vontade de potência — e nada além disso!”

A vontade de potência é justamente a não-linearidade dos movimentos, é excesso do poder, é poder que busca mais poder… E é aquilo que Nietzsche não encontrava no homem de sua época.

Ele só via mesquinhez, moralismo e castração. Um mundo de pessoas que não viviam, que só admiravam a natureza como espectadoras. Mas havia algo que poderia mudar esta situação: a morte de Deus.

Em Nietzsche, a morte de Deus é a morte dos princípios metafísicos mais fundamentais da valorização do além-vida em detrimento da vida como ela é, da valorização do mundo suprassensível em detrimento do mundo sensível, efetivo.

O que isto significa na prática? Que não seremos mais cristãos? Sim e não. Significa que não seremos mais o tipo de homem cristão. Este tipo de homem se move a partir de referência que estão sempre fora dele: a moral, os costumes, deus, a religião, o partido, a profissão, o mercado e a ciência. Na prática, a morte de Deus é a morte da previsão, é a morte da história enquanto ciência e da filosofia da história. É o assassinato das teleologias.

Na filosofia de Nietzsche, matar a história enquanto ciência e assassinar as teleologias é abrir caminho para a vida genuína. É por isso que em Crepúsculo dos Ídolos, o autor afirma que somente com a morte de Deus é “novamente estabelecida a inocência do vir-a-ser.”

E o que isso tudo tem a ver com o super-homem? Simples: a morte de deus abre caminho para a profunda falta de crença no mundo (afinal, sem deus, tudo é permitido), ao mesmo tempo, deixa as portas da potência escancaradas.

O homem nascido após a morte de Deus tem a chance de dar livre fluxo à potência, de não ser movido por força reativas, por forças que só existem para barrar a satisfação do outro. Este homem não será o velho europeu moralista cristão. Esqueça este mal-acabado sujeito da modernidade.

O super-homem irá escalar a montanha da humanidade, se destacando por sua capacidade de criar valores, não de seguir. E justamente esta características não o coloca longe do nazismo tanto apregoado a este conceito? O nazista é antes de tudo seguidor.

Ele será o ser da transvaloração por excelência. Ele será o verdadeiro vivente, justamente porque não se sujeitará a nada, nem à ciência. Talvez por isso, depois de anunciar a morte de Deus, Nietzsche se pergunta se “nós mesmos não precisamos nos tornar deuses para que venhamos apenas a parecer dignos deste ato?”. O super-homem é deus, é potência que quer mais potência.

A ciência, desta forma, é só um conhecimento estruturado pela crença platônica (e cristã) da verdade. A ciência, em sua sede de democracia, iguala os homens, mas nenhum homem é igual ao outro. Este é o grande ponto de Nietzsche: ninguém é igual. Não existem “espécies” para classificação, cada coisa é uma coisa e não há como serem agrupadas. É a morte da ciência.

O super-homem vai além da ciência, sua vida não é a vida dos cálculos ou das previsões. O super-homem não é sociólogo nem físico, é vida pura, é uma dinamite.

Vinicius Siqueira é editor da revista eletrônica Colunas Tortas.

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