Sorte de Kokura

Desde 1963, Kokura é um distrito da cidade japonesa de Kitakyushu, situada no norte da ilha de Kyushu, resultado da fusão com outras quatro pequenas cidades (Moji, Tobata, Wakamatsu e Yahata). Antes uma cidade autônoma, foi incluída nas duas listas de alvos das bombas atômicas lançadas pelos americanos sobre o Japão na Segunda Guerra Mundial, mas graças às condições meteorológicas, acabou se salvando.

Castelo de Kokura. Fonte: Wikipedia

Castelo de Kokura. Fonte: Wikipedia

O Projeto Manhattan, nome dado ao esforço de guerra Aliado, culminou no teste de uma arma nuclear. A Experiência “Trinity” foi o primeiro teste nuclear da história, conduzido pelos Estados Unidos da América em 16 de Julho de 1945 perto de Alamogordo (Novo México). Foi um teste de uma bomba de plutônio de implosão, o mesmo tipo de arma usada posteriormente em Nagasaki. Mesmo com a rendição nazista, os norte americanos haviam terminado a arma mais destrutiva criada até então e pretendiam testá-la.

Os norte americanos montaram listas de cidades alvo para laçamento de bombas atômicas com antecedência. Caso não fosse possível a primeira cidade da lista, os aviões deveriam se dirigir para a segunda cidadde da lista, e assim por diante. Para a escolha das cidades, foram utilizados critérios como distância das bases e porta aviões e grau de destruição – não adianta jogar a bomba em uma cidade parcial ou totalmente destruída.

Em 6 de Agosto de 1945, os EUA lançaram a primeira bomba atômica (“Little Boy“, de urânio) sobre a cidade de Hiroshima. Ela já era o alvo principal, mas a segunda era Kokura. O Coronel Paul Tibbets Jr. era o comandante do grupamento 590, que foi transferido para a pequena ilha de Tinian, no Arquipélago das Marianas, no meio do Pacífico. Ele comandou o bombardeiro B-29 que levava a bomba. Na lateral do avião, estava o nome de sua mãe: Enola Gay. Voando 9 mil metros de altitude, desceu a 4.550 metros para lançar a bomba, que explodiu a 500 metros do chão, transformando em vidro a terra em um raio de mais de 300 metros, provocando um desloacamento de ar com ventos de mais de 800 km/h.

Já a segunda bomba atômica (“Fat man“, de plutônio), foi lançada três dias depois. Kokura era o alvo principal.

Não havia um suporte de sensoriamento remoto da atmosfera acurado nessa situação. Voar visualmente, sem dependência total dos instrumentos, é fundamental em uma operação militar, ainda mais naquela época em que a tecnologia não era avançada a ponto de garantir segurança e sucesso na empreitada. Além disso, desejava-se acompanhar e registrar a ação da bomba com seu grande poder de destruição.

Haviam dois “weather planes” (aviões com a função de reconhecimento das condições meteorológicas) que voaram com antecedência: um para Nagasaki (Laggin’ Dragon) e o outro para Kokura (Enola Gay, o mesmo avião que lançou a bomba atômica em Hiroshima, mas com uma diferente tripulação). Eles reportaram boa visibilidade: “3/10 low clouds, no intermediate or high clouds, and forecast of improving conditions”.

O piloto do avião Bockscar, Charles Sweeney, que carregava a bomba, chega às 10:44 em Kokura em uma esquadrilha de seis aviões. No entanto, o registo de voo foi “Target was obscured by heavy ground haze and smoke” (alvo obscurecido pela névoa pesada do solo e fumaça). Um membro da tripulação classificou a cobertura de nuvens em 7/10: “7/10 clouds coverage – Bomb must be dropped visually but I don’t think our chances are very good”.

A variação brusca nas condições de tempo no Japão já eram conhecidas dos militares norte americanos. Além disso, em 8 de agosto de 1945, o 20º AF tinha enviado 221 B-29 para a cidade vizinha de Yahata (Yawata, 9 km de distância) para lançar bombas incendiárias. Provavelmente o vento levou as partículas de poeira em suspensão e a fumaça resultante da queima para essa região, adensando a névoa e reduzindo a visibilidade.

Em Nagasaki, o céu também estava coberto de nuvens, sendo necessário encontrar um buraco nas nuvens para o lançamento. Depois de 43 segundos de queda livre, a bomba explodiu às 11:02 hora local, a uma altitude de cerca de 1.650 pés (500 m). Por causa da má visibilidade devido à cobertura de nuvens, a bomba perdeu seu ponto de detonação pretendido por quase duas milhas, e danos foi um pouco menos extensa do que em Hiroshima. Cerca de 40 mil dos 240 mil habitantes de Nagasaki foram mortos instantaneamente, e entre 25 mil e 60 mil ficaram feridos. No entanto, crê-se que o número total de habitantes mortos poderá ter atingido os 80 mil, incluindo aqueles que morreram, nos meses posteriores, devido a envenenamento radiativo.

Mapa feito no início de 1945 com padrões climáticos de verão no Japão. Produzido pela USAAF’s IMPACT magazine via Fold3.com

Mapa feito no início de 1945 com padrões climáticos de verão no Japão. Produzido pela USAAF’s IMPACT magazine via Fold3.com

Apesar de ter sido alvo secundário e principal, Kokura salvou-se de ambos bombardeios atômicos americanos, em especial ao segundo. Os pilotos americanos cunharam a expressão “sorte de Kokura” para designar situações ou fatos que podem parecer desagradáveis a princípio, mas que, analisando depois, se não fossem por elas, algo bem pior aconteceria. Apesar de muitos lugares afirmarem que virou um provérbio no Japão, essa expressão não existe no japonês e utilizá-la seria considerado um desrespeito à memória dos mortos de Nagasaki.

Os apoiadores dos bombardeios geralmente afirmam que eles causaram a rendição japonesa, evitando baixas em ambos os lados. Mas também os EUA pretendiam mostrar ao mundo (principalmente à União Soviética) o seu poderio nuclear, assim como impedir o avanço dos comunistas sobre o Japão. A Operação Downfall (nome de código dado ao plano dos Aliados para a invasão do Japão no final da Segunda Guerra Mundial) foi cancelada quando o Japão se rendeu, após aos Bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki e a invasão soviética na Manchúria. Em 15 de agosto de 1945, diante das destruições causadas pelas bombas, o Japão se rendeu, pondo fim à Segunda Guerra mundial e iniciando a chamada Guerra Fria.

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Fontes

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