São Caetano: Azulão

As “zebras” do futebol deixam o jogo mais divertido e ajudam a mostrar que o favoritismo jamais vence uma partida, e sim uma equipe de atletas. Das que surgiram no futebol brasileiro, umas das histórias mais interessante é a do time de futebol da cidade de São Caetano do Sul, conhecido como Azulão. Poucos times no mundo cresceram tanto e tão rápido. Mesmo que não tenha se mantido assim durante muito tempo, merece ter sua história registrada.

Jogo de repescagem pela Libertadores (28/04/2004) entre São Caetano e Independiente (Argentina) no estádio Anacleto Campanella.

Jogo de repescagem pela Libertadores (28/04/2004) entre São Caetano e Independiente (Argentina) no estádio Anacleto Campanella.

A cidade de São Caetano do Sul faz parte do ABC paulista, junto com São Bernardo do Campo e Santo André (cidade de seu grande rival, que já ganhou a Copa do Brasil de 2004 e o Campeonato Brasileiro da série B de 2008). É a cidade com o melhor IDH do Brasil (PNUD/2010) e uma das com maior PIB. Sua história começou ao redor de uma fazenda que virou o bairro paulistano de São Caetano. Abrigou um núcleo de imigrantes italianos durante o Império e conquistou a emancipação em 1948.

A Associação Desportiva São Caetano foi fundada em 4 de dezembro de 1989, recebendo o nome atual após o novo clube conseguir sua filiação junto a Federação Paulista de Futebol. O “azulão” manda suas partidas no Estádio Municipal Anacleto Campanella (nome do prefeito da cidade durante as décadas de 50 e 60), cuja capacidade é para pouco mais de 14 mil torcedores.

Em 1991, já ganhou o campeonato paulista na série A3, feito esse repetido em 1998. Dois anos depois, conquista o título da série A2 do Paulistão, sendo que quatro anos depois ganharia o título da primeira divisão. Mas o time também brilhou em campeonatos nacionais e até na Libertadores, aproveitando o momento surgido de uma grande lambança bagunça na organização do futebol em nível nacional.

Copa João Havelange

O Gama, time do Distrito Federal, deveria ser rebaixado depois do Campeonato Brasileiro de 1999 por causa do “caso Sandro Hiroshi”, jogador que havia adulterado sua idade e disputado o Sul-Americano sub-17 de forma irregular. No entanto, o time obteve na justiça comum o direito de disputar qualquer competição nacional em 2000, impedindo a CBF de organizar o Campeonato Brasileiro do ano seguinte.

Assim, o Clube dos 13 criou um torneio nacional (sem o apoio da CBF) batizado de Copa João Havelange – as denúncias de corrupção na FIFA alguns anos depois mostram que o nome da Copa não poderia ser mais adequado. O campeonato contava 114 times (!) divididos em módulos: azul (composto por times da Série A e da Série B), amarelo (séries B e C), módulo verde (clubes das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste da série C) e módulo branco (clubes das regiões Sul e Sudeste da série C). Lógico que a composição desses módulos colocaria os clubes grandes, que estavam na segunda divisão (como Bahia e Fluminense) no módulo que seria o equivalente à primeira divisão. Dessa forma, os times grandes estavam garantidos em uma mesma divisão – o Corinthians terminou o campeonato em último lugar junto com o Santa Cruz, mas nem por isso seria “rebaixado” para outro módulo no ano seguinte.

Além disso, o regulamento criava uma segunda fase onde os campeões dos módulos inferiores iriam jogar contra os melhores colocados da “primeira divisão” e teriam inclusive a chance de se sagrar campeões! Dessa forma, ganharia o apoio dos dirigentes de times menores, já que teriam grande visibilidade ao jogar contra times grandes com transmissão pela TV, ganhando verbas de publicidade, bilheteria, etc. Mas parecia que não estavam preocupados com eventuais zebras. E aí entra o São Caetano, que chegou às finais do módulo amarelo e garantiu uma vaga na fase final.

A equipe, comandada por Jair Picerni, mal tinha 10 anos na época e praticamente não era conhecido. No primeiro jogo entre São Caetano e Fluminense, em São Paulo, houve empate de 3 a 3, sendo que o São Caetano começou perdendo por 2 a 0. Seria um pequeno susto para o tricolor carioca, já que o jogo de volta seria em pleno Maracanã. Aos 27 minutos do segundo tempo, Adhemar bate falta e marca o gol da vitória, calando o Maracanã e eliminando o Fluminense.

Na fase seguinte, encararam o Palmeiras em um Palestra Itália lotado no primeiro jogo. Wagner e César abriram o placar para o Azulão em apenas oito minutos com muito toque de bola e um futebol rápido. O Palmeiras diminuiu com Arce, mas Adhemar, de novo de falta, fez 3 a 1. Um minuto depois, Taddei diminuiu. Na segunda etapa, Arce empata de pênalti, mas Adhemar marcou mais um e decretou o placar final: 4 a 3. Na partida de volta, começou perdendo por 2 a 0, mas empatou e conseguiu a classificação.

Na semifinal, ganharam de 3 a 2 do Grêmio no Palestra Itália, com grande torcida paulista apoiando o time do ABC. No jogo de volta, com a torcida do Grêmio em peso, o Azulão ganhou de virada por 3 a 1 e segue para a final do campeonato nacional. Iria enfrentar o Vasco, de Romário.

Juninho Paulista e Adhemar na final da Copa João Havelange

Juninho Paulista e Adhemar na final da Copa João Havelange

Depois de empatar em 1 a 1 no primeiro jogo da final, em São Paulo, parecia que a história iria se repetir: empate em casa, jogar fora contra a torcida de um time grande e vencer o jogo. Mas aí começaram mais lambanças do futebol brasileiro. A partida decisiva do campeonato brasileiro seria no estádio de São Januário, o que alguns alegaram como um lugar pequeno dado o número de interessados em participar do evento. Foram mais de 30 mil ingressos vendidos e muitos outros que entraram sem ingresso mesmo. Quando o jogo começou, o São Caetano mandava na partida, encurralava o Vasco e logo iria fazer o gol.

Mas então parte do alambrado da arquibancada cedeu por causa do excesso de público e centenas de pessoas caíram. Uma confusão tomou conta do local. O cartola vascaíno Eurico Miranda entrou em campo e queria que a partida continuasse, mas as autoridades não deixaram por questões claras de segurança. Acabou que o jogo foi remarcado para janeiro do ano seguinte. O time paulista perdeu o embalo e acabou derrotado por 3 a 1, perdendo a taça de campão mas ganhando uma história de grandes conquistas em tão pouco tempo.

Em 2001, ficou em quinto lugar no Campeonato Paulista e foi eliminado nas oitavas de final da Libertadores apenas nos pênaltis para o Palmeiras. Mantiveram o estilo de jogo de Jair Picerni: marcação acirrada, toque de bola rápido de qualidade e muita velocidade. Fez uma grande campanha no primeiro turno do Campeonato Brasileiro: 18 vitórias, cinco empates e apenas quatro derrotas em 27 jogos, com 48 gols marcados e 25 sofridos (melhor defesa). E chegou a mais uma final, contra o Atlético Paranaense! Pela segunda vez seguida, o São Caetano foi vice-campeão brasileiro.

Libertadores da América

Na primeira fase da Libertadores de 2002, o time venceu quatro jogos e perder apenas dois, com destaque para as vitórias sobre Cobreloa (3 a 0) e Alianza (4 a 0) em casa e Cerro Porteño (3 a 1) e Alianza (3 a 0) fora. Nas oitavas de final, dois empates contra o Universidad Católica-CHI em 1 a 1 e vitória nos pênaltis por 4 a 2. Nas quartas, duelo contra o Peñarol-URU, com vitória uruguai em casa por 1 a 0 e vitória brasileira por 2 a 1 no jogo de volta, caindo em outra decisão por pênaltis, vencida pelo São Caetano por 3 a 1.

Na semifinal, enfrenta o time de melhor campanha na fase de grupos, o América-MEX. No primeiro jogo, em SP, vitória por 2 a 0. Na volta, em plena Cidade do México, um empate em 1 a 1 colocou o São Caetano na final da Libertadores! Um time com apenas 13 anos de vida estava na decisão da principal competição do continente, algo que Corinthians, Fluminense, Botafogo nem Atlético-MG haviam haviam conseguido na época. Se ganhasse o título, disputaria o Mundial contra o Real Madrid em dezembro do mesmo ano!

FUTEBOL - HISTÓRIA DO SÃO CAETANO - ESPORTES - ACERVO - Os jogadores do São caetano em pé(da esquerda para a direita): o goleiro Sívio Luiz, Dininho, SerginhoO o sexto da esquerda para a direita) - Agachados: Russo, Adãozinho, Anaílson, Robert, Rubens Cardoso, Marcos Senna, Aílton, Marlon, Wágner(D) e seus companheiros de equipe, antes da partida contra o Olímpia, válida pela final da Taça Libertadores da América de 2002 - Estádio Paulo Machado de Carvalho (Pacaembu) - São Paulo - SP - Brasil - 31/07/2002 - Foto: Acervo/Gazeta Press

São Caetano na final da Libertadores 2002 no Pacaembu. Escalação: Sílvio Luiz; Russo, Daniel, Dininho e Rubens Cardoso; Marcos Senna, Adãozinho, Aílton e Robert; Anaílson e Somália. Técnico: Jair Picerni. Foto: Acervo/Gazeta Press

O rival era o tradicional Olimpia do Paraguai, bicampeão e que tentava o tri em pleno ano de centenário. No primeiro jogo, em Assunção, o São Caetano conseguiu o mais difícil: venceu os paraguaios em pleno Defensores del Chaco por 1 a 0. Bastava um empate no Pacaembu no jogo de volta, e já começaram o jogo abrindo o placar. No entanto, os paraguaios viraram o jogo em 2 a 1, levando a decisão para os pênaltis. O Olimpia venceu nas cobranças por 4 a 2, e o São Caetano ganha mais um vice-campeonato.

No ano seguinte, sua ida à repescagem da Libertadores veio de forma emocionante na última rodada: 2 a 0 na altitude de La Paz contra o The Strongest, com o gol da classificação a cinco minutos do fim. Dessa forma, conseguiu-se um gol a mais no saldo em relação ao Peñarol, que ficou em terceiro e desclassificado. Contra o Independiente, maior campeão da Libertadores até então, São Caetano vence nos pênaltis e segue até as quartas-de-final, quando é derrotado pelo Boca Juniors-ARG.

O fim de uma era

Em 2004, liderados pelo técnico Muricy Ramalho, o clube conquistou seu primeiro título de primeira divisão, o Campeonato Paulista, contra o Paulista de Jundiaí. Também chegaria a liderar o Brasileirão no fim de junho.

Nesse mesmo ano, em um jogo contra o São Paulo, o zagueiro Serginho faleceu em campo, em decorrência de uma parada cardíaca. O clube foi punido com a perda de 24 pontos na classificação, terminando na 18º colocação. Desde então, os momentos de brilhantismo começaram a ofuscar e tornarem-se cada vez mais raros.

Em 2007, o time conseguiu chegar à final do Campeonato Paulista, depois de eliminar o São Paulo (então o campeão brasileiro) nas semifinais em pleno Morumbi. No primeiro jogo da final, o São Caetano ganhou por 2 a 0 do Santos, mas no jogo de volta, o Santos conseguiu igualar o placar, fazendo o time do litoral conquistar o Campeonato Paulista em função do regulamento.

Em 2013, mesmo com a contratação do pentacampeão Rivaldo, o time fez péssimas campanhas nas principais competições, sendo rebaixada para a Série A2 do Campeonato Paulista e para a Série C do Campeonato Brasileiro – em para a série D em 2014.

Algumas coisas mudaram também no futebol brasileiro. O campeonato nacional firmou-se no sistema de pontos corridos. Alguns times grandes caíram (mais de uma vez) para a segunda e até para a terceira divisão, enquanto outros times até então pequenos começaram a crescer no cenário nacional, com importantes vitórias. As “zebras” ficaram cada vez mais comuns, mostrando que os times pequenos começaram a ganhar força. Mas também os grandes começaram a perder qualidade, com os grandes craques sendo vendidos rapidamente para o exterior, algumas vezes antes mesmo de fazer sucesso por aqui, só retornando depois de rejeitados pelo futebol europeu e jogando mais pelo nome do que pelo futebol apresentado.

Fontes: Wikipedia e site Imortais do Futebol.

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