Política e aviação

Em tempo de eleições, a política sempre aparece como pauta na vida do cidadão. Para os que dizem não gostar de política, saibam que a palavra significa “arte ou ciência da organização, direção e administração de nações, estados, cidades, condomínios, clubes, escolas e qualquer reunião de pessoas com um fim, utilizando a habilidade para tratar das relações humanas com o objetivo de obter os resultados desejados”. Em outras palavras, é a forma como os seres humanos se organizam e como o poder é distribuído entre eles, ou seja, é algo amplo e fundamental para uma sociedade funcionar.

O site “Monolito Nimbus/Comissário Nerd” entrevistou a comissária Dolores Arieta para saber mais sobre alguns pontos importantes de questões políticas envolvendo a aviação, como também sobre sua formação profissional. Dolores é candidata a deputada federal pelo PEN 51 (Partido Ecológico Nacional) e aqui fará uma discussão sobre os projetos de lei 434/2011 e 2453/2007, expansão do aeroporto de Viracopos, ANAC, sindicato e outros assuntos políticos importantes na aviação.

Avião sobre Brasília, projetada em formato de avião.

Avião sobre Brasília, projetada em formato de avião.

Maria Dolores Gimenez Arieta nasceu no Rio de Janeiro (capital) e ganhou o apelido “Lollyn”, já que sua mãe é espanhola e Dolores tem os apelidos de Lola, Lolita, Lolly, Lollyn em espanhol. É formada em Pedagogia com especialização em pré-escola e pós-graduação em psicopedagogia e especialização em administração escolar. Já foi pedagoga no Instituto de Ensino Tabajara (no bairro de Moema, São Paulo), secretária executiva de gerência e de diretoria (além do português, fala inglês, espanhol e italiano) e ingressou na Varig em 1990, como Comissária, onde ficou até a Gol assumir. Entrou na TAM em novembro de 2007 também como Comissária, completando 24 anos de experiência na profissão em 2014.

– Como foi sua decisão de ser comissária?

A tia de uma amiga era cmra. na Varig, e sempre nos contava suas histórias de viagens ressaltando a parte histórica, arquitetura, paisagens, nos deixando maravilhadas. Procurava também despertar nossa curiosidade com relação aos estudos, mostrando fotos relacionadas à matéria que estávamos estudando no momento, e contando fatos interessantes que não constam nos livros, e só sabe quem tem a oportunidade de conhecer pessoalmente.

A vida me levou para outro rumo. Mas um dia estava dirigindo para o trabalho, quando vi uma faixa na rua dizendo que a Varig estava contratando, em um impulso me inscrevi e passei.

Fiquei maravilhada com o curso, na época as próprias empresas o ministravam. Adorava a parte prática, sobrevivência na selva, marinharia, combate ao fogo, serviço de bordo, era um mundo novo e cheio de magia.

Quando comecei a voar, nossa que cansaço! O trabalho era desgastante, trabalhávamos com serviço de porcelana em todas as etapas, o que hoje é feito apenas em voos internacionais. Mas era maravilhoso poder estar em todos locais que havia visto nos livros, e vivenciado com as histórias da tia de minha amiga, e assim se passaram 24 anos apaixonados pela aviação, costumo dizer que ainda estou em lua de mel com a profissão. É verdade que passei por momentos muito difíceis, pois isso é normal na vida, mas o importante é fazer com amor aquilo que nos propomos.

– Onde realizou o curso de formação?

Na própria Varig.

– Considerou-o adequado as suas funções?

Sim, o curso foi muito completo, didático e os instrutores conheciam profundamente suas disciplinas.

– Durante o processo de falência da Varig, o que aprendeu sobre a relação entre empresa e empregado?

Naquela época infelizmente as coisas eram diferentes, os funcionários não tinham tantos recursos como hoje, para tomarem conhecimento sobre a saúde de uma empresa, quando soubemos que a Varig estava indo mal, já não havia o que fazer, e o governo tinha interesse que ela quebrasse.

Como a pressão foi muito grande, os dirigentes não conseguiam realizar seus planos de reestruturação, comunicavam aos funcionários e solicitavam seu auxílio, mas eram impedidos de dar continuidade ao projeto, o que nos causava muita insegurança. Desta forma o prometido nunca era cumprido, e nossa relação passou a ser de desconfiança.

Aprendi que a aviação depende da vontade política para sua sobrevivência, por isso é tão importante e necessário termos uma representação política em uma Casa Federal.

– O que sentiu mudar na aviação, desde os tempos de Varig até o atual emprego na TAM, principalmente com relação aos passageiros, serviço de bordo e ritmo de trabalho?

A aviação mudou muito, ela tornou-se mais profissional. Profissional no sentido de que os tripulantes a veem hoje como um trabalho comum. Quando um voo termina, todos vão embora correndo, têm pressa para saírem logo da aeronave, é como se encerrassem o expediente ali, indo rápido para um relógio de ponto.

Antigamente não tínhamos pressa de sair, ficávamos conversando na aeronave, “finger”, aeroporto… Não tínhamos pressa para que o serviço de bordo terminasse, ficávamos no corredor “batendo papo” com os pax – o que chamávamos de “fazer uma social”, hoje não, o serviço é automatizado, e ao seu término todos permanecem nas galleys até a preparação para o pouso.

Mas isso também se dá, devido à mudança na finalidade da viagem do pax. Antigamente não era tão comum viajar-se a trabalho, principalmente chegando-se, por exemplo, pela manhã para uma reunião e retornando-se antes do almoço. Tudo hoje é muito rápido e fácil.

Em minha opinião, a aviação antiga estava muito bem para aquele contexto, e a atual está muito bem para o estilo de vida que temos hoje, extremamente dinâmico, e eu gosto disso. Tudo na vida tem que se moldar às necessidades que vivemos no momento, é como se diz, cada coisa há seu tempo.

O ritmo de trabalho hoje é mais intenso no sentido de termos menos tempo de repouso, as empresas dispõem mais dos funcionários, deixando-os por um período menor nos hotéis e dando menos folgas, cumprindo apenas os limites mínimos.

– Qual foi o impacto que a redução do número de comissários nas aeronaves, aplicada em 2009, teve em sua rotina de trabalho e de seus colegas?

Com a redução do número de cmros, houve também uma redução no tamanho do serviço de bordo, para que a segurança de voo não fosse afetada. Mas o efeito foi catastrófico, muitos colegas dos voos nacionais foram demitidos e alguns da rota internacional voltaram para os voos domésticos, este foi o meu caso. Este tipo de movimentação causa insegurança e incerteza no grupo, o que gera medo e insatisfação, fazendo com que o ambiente de trabalho fique muito pesado e difícil. A aviação é cheia de altos e baixos, e todos devem estar sempre preparados, mas mesmo assim, é um trabalho maravilhoso e gratificante.

– O PLS (Projeto de Lei do Senado) nº 434 de 2011 aumenta as horas de trabalho do aeronauta? Qual sua opinião e posicionamento quanto a essa questão?

Aqui reproduzo primeiro como é nossa regulamentação, e após a proposta:

– Art. 21: Jornada de trabalho:
1) Tripulação mínima ou simples: 11 horas
Tripulação mínima, simples ou composta: 14 horas
2) Tripulação composta: 14 horas
Tripulação mínima, simples ou composta: 14 horas
3) Tripulação de revezamento: 20 horas
Tripulação de revezamento: 20 horas

– Art. 23:
1) 60 horas semanais e 176 horas mensais
60 horas semanais e 190 horas mensais.

– Art. 29:
1) Tripulação mínima ou simples: 09:30 horas
Tripulação mínima, simples ou composta: 12 horas
2) Tripulação composta: 12 horas
Tripulação mínima, simples ou composta: 12 horas
3) Tripulação de revezamento: 15 horas
Tripulação de revezamento: 16 horas

Observando-se os números pode-se achar que não há muita diferença, mas esta observação é para leigos.

Para quem é da área esses números assustam, pois já trabalhamos no limite da fadiga, tema que está sendo amplamente debatido, devido aos seguidos acidentes que estão ocorrendo por esse motivo.

Os debates sobre a nova Regulamentação combatem pesadamente esta tentativa de alteração, levando-se em consideração dados estatísticos reais de pesquisas mundialmente reconhecidas.

Se você é aeronauta e quiser contribuir com a pesquisa sobre fadiga, a JEPPENSEN está coletando dados mundias sobre este tema. Entre os dias 15/08/14 e 15/09/14 será realizada uma coleta de dados com tripulantes de empresas aéreas de todo o mundo. Para contribuir no processo, baixe o aplicativo CrewAlert Lite (sistema operacional iOS apenas) e siga os passos do tutorial. Os dados são sigilosos.

Sou contra o aumento das horas de trabalho. Temos que tornar a aviação cada vez mais segura e não ao contrário. Nossa área é muito específica, e apenas quem tem profundo conhecimento e vivência tem capacidade para discuti-la.

Na proposta, foi sugerida a alteração do Art. 25 que se refere ao tempo para apresentação do sobreaviso de 90 minutos para 180 minutos, conforme um abaixo-assinado encabeçado por mim no ano passado. Este item consta na Convenção Coletiva em vigor.

Segue link com a proposta da nova Regulamentação (PLS Nº 434 de 2011).

– Com relação ao Projeto de Lei 2453/07, que estabelece novas normas para a investigação de acidentes aéreos, as informações prestadas pelo Cenipa na investigação do acidente aéreo tendo sigilo processual ajudam as investigações ou podem afetar a transparência do processo?

Temos aí os dois fatores: ajuda no que diz respeito aos leigos não terem acesso, como no caso do voo TAM 3054 que se acidentou em CGH em 17 de julho de 2007 – PR-MBK. Os Senadores conseguiram a gravação da caixa preta de voz (CVR – Cockpit Voice Recorder), a traduziram sem levar em consideração os termos técnicos e todo um sensacionalismo foi criado encima do fato, que por si só já era bastante penoso.

Dificulta no sentido em que é muito importante o estudo de caso que enquanto trip’s fazemos em cada acidente, a partir deste, tomamos providências para a não reincidência, e aperfeiçoamos o procedimento em casos semelhantes.

O órgão competente sempre baixa determinações para que determinado tipo de acidente não ocorra mais, porém cada empresa pode baixar determinações complementares, e é aí que entra a importância de quem é da área ter acesso às informações.

Defendo que deva ser sigiloso para as áreas não envolvidas com aviação, e, depois de concluído, divulgado a todos.

Segue link com o funcionamento da lei do sigilo de investigações aeronáuticas (PL Nº 2453 de 2007).

– A região de Viracopos tem mapeadas 47 nascentes de rios ameaçadas pela expansão do aeroporto, causando compactação do solo e diminuição do volume de água. A Cetesb até já multou concessionária Aeroportos Brasil Viracopos por assorear um ribeirão. Como um deputado pode atuar nesse assunto, representando o cidadão?

Esta representação é feita através de pressão junto aos órgãos públicos envolvidos, e também da mobilização da opinião pública. Um legislador necessita do povo ao seu lado, para ter força de ir contra aos interesses de quem detém o poder financeiro.

Meu partido PEN 51 (Partido Ecológico Nacional) tem uma Fundação voltada para a ecologia, a FEN (Fundação Ecológica Nacional) presidida pelo Prof. Carvalho, que além de ambientalista e especialista em combustíveis renováveis, é intimamente relacionado à aviação, mais abaixo escreverei sobre ele, esta Fundação defende:

Para que um empreendimento humano seja considerado sustentável é preciso que seja:

  • Ecologicamente correto
  • Economicamente viável
  • Socialmente justo
  • Culturalmente diverso

Levando-se em consideração que a água é um bem findável, jamais poderemos aceitar o assoreamento de qualquer fonte, mesmo que seja para a ampliação de um aeroporto importante como Viracopos, este desenvolvimento não justifica a perda de um bem tão precioso.

O prof. Carvalho muito me honrou fazendo o que se chama de “dobradinha”, somos parceiros de projetos e ele é candidato à Deputado Estadual por São Paulo. Além de um profissional extremamente competente e reconhecido, é ser um ser humano maravilhoso, e tem um currículo invejável, citarei apenas seu envolvimento com a aviação. É engenheiro e mestre em Administração de Empresas, foi professor de transporte aéreo na FGV, tem treinamento na Boeing, participou da privatização da VASP, implantou a Viação Itapemirim, foi um dos fundadores do ILA (Instituto de Logística da Aeronáutica).

– Existe muita crítica sobre a morosidade dos trabalhos da Infraero e ANAC. Seria falta de funcionários? Ou a legislação acaba emperrando e/ou burocratizando os procedimentos? Quais saídas poderiam ser apontadas para mitigar esses problemas?

Com certeza não é falta de funcionários, apesar deles dizerem que sim. As empresas privadas têm uma eficiência muito maior com uma quantidade de funcionários bem menor.

Enquanto não conseguirmos mudar não só as leis que regem o funcionalismo público, como também sua mentalidade instituindo a eficiência como meta, da forma que é feita nas empresas privadas, continuaremos tendo que conviver com a ineficiência do setor.

E o que o torna ainda mais moroso sem dúvida é a burocracia, ou seja, os novos políticos terão um árduo trabalho pela frente, tendo não só que alterar leis já existentes e ineficientes, como criar novas que tenham em vista as regras de uma administração moderna e competente.

– Qual a importância de um sindicato forte e unido?

Um sindicato só tem força para representar uma classe, a partir do momento em que a maioria dos membros desta for participante. O sindicato não tem força para sentar-se à uma mesa de negociações representando 50% dos membros de uma classe por exemplo.

É de suma importância que os membros participem ativamente, indo às reuniões, enviando mensagens, etc., para que os dirigentes saibam o posicionamento destes, frente aos diferentes assuntos, para poder representá-los e ter respaldo em suas decisões.

Candidatura à deputada federal

O deputado é um representante do povo no parlamento (congresso nacional, no caso do deputado federal), cujas principais funções são:

  • Legislar (propor, emendar, alterar e revogar leis);
  • Representar a população nas decisões sobre variados assuntos;
  • Controlar/fiscalizar as contas e ações do governo.

Já um partido político é um grupo organizado, legalmente formado, orientado para influenciar ou ocupar o poder político. Assim, todos os seus integrantes devem possuir ideias e ações em harmonia com a ideologia do partido.

dolores

A comissária Dolores Arieta (Lollyn) é candidata a deputada federal pelo PEN 51 (Partido Ecológico Nacional) e seu número é 5158. Veja suas frentes de batalha:

  1. Representação política da aviação: Tudo nesta depende de vontade política. Exemplo: concessão de novas linhas, “slot”, alteração de horário.
  2. Planos de pensão: Tendo o AERUS como norteador, não deixar que o que ocorreu aqui ocorra com os demais planos de pensão.
  3. Regulamentação das profissões: Tendo a regulamentação aeronáutica como norteadora, trabalhar para que as profissões que ainda não possuam regulamentação a tenham (exemplo: acupunturistas); e atualizar as que necessitem (exemplo: aeroviários).
  4. Trabalhar de forma efetiva para que haja sustentabilidade na saúde, educação, segurança pública, economia e em tudo o mais que nosso país tanto necessita.
  5. O desenvolvimento deve ser sustentável.
  6. Transformar grandes obras públicas e privadas convencionais em sustentáveis. Com pequenas alterações e sem grande oneração.
  7. Fazer com que novos projetos de grandes obras públicas e privadas sejam sustentáveis.

Outras considerações podem ser vistas no blog “O cão que fuma”. Para entrar em contato com a candidata (dúvidas, sugestões…), segue o e-mail: lollyn1@terra.com.br

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