Podemos confiar nos noticiários?

Existem vários fatores que podem influenciar uma notícia, desde a escolha da pauta até as palavras utilizadas. Antes dos grandes protestos de 2013 já existiam protesto quase que diariamente na Avenida Paulista, em São Paulo, mas nunca eram noticiados. Somente viravam notícia se invadissem as faixas de trânsito. Vejamos esse exemplo com mais detalhes:

Um determinado jornal local determinou a pauta de um dia contendo 1 minuto para falar sobre futebol e 30 segundos para falar sobre uma manifestação que ocorrera em São Paulo. Desses segundos, a maior parte foi com relação aos impactos no trânsito, inclusive entrevistando pessoas para exemplificar como isso “atrapalhou a vida delas”. Ao voltar para o âncora do telejornal, ele comenta algo que beira “quer protestar? Protesta em silêncio, e não atrapalha quem tem nada a ver com isso”. Na verdade, o principal retratado em uma notícia deveria ser o motivo que a causou.

Cartazes de protestos durante jogo na Copa das Confederações: Uma boa pergunta com resposta que deveria ser clara e transparente em uma democracia. Fonte: Getty Images.

Cartazes de protestos durante jogo na Copa das Confederações: Uma boa pergunta com resposta que deveria ser clara e transparente em uma democracia. Fonte: Getty Images.

Observe as duas matérias abaixo, publicadas no mesmo jornal e na mesma página. A notícia sobre o ex-presidente Lula recebe destaque, está no alto e com fonte maior no título. O título sugere que foi Lula, pessoa física, quem recebeu o dinheiro, e não o Instituto Lula, o que faz muita diferença. A empresa e quem faz a afirmação recebem nomes, o que é uma estratégia discursiva que pretende garantir legitimidade à afirmação – argumento de autoridade. Observando a segunda notícia, ela vem abaixo e com menos destaque. Note também que, enquanto lá ‘Lula recebeu…’, aqui a ‘empreiteira doou…’, alterando o agente da ação. Além disso, a empreiteira não tem nome, é genericamente chamada de ‘empresa’. O destinatário é o Instituto FHC, não o ex-presidente FHC, pessoa física. E quem chancela a denúncia é um ‘laudo’, e não mais a PF. Além disso, o total de dinheiro doado para o Instituto Lula foi arredondado de R$ 3,97 milhões para um valor maior, o que não aconteceu com o valor repassado para o Instituto FHC, que entraria para a casa dos milhões.

Página do jornal Estadão de 06/11/2015 com destaques para as diferenças na forma como uma notícia bem semelhante pode ser contada de diferentes maneiras

Página do jornal Estadão de 06/11/2015 com destaques para as diferenças na forma como duas notícias bem semelhantes podem ser contada de diferentes maneiras

Quais os motivos que temos para desconfiar de fontes ditas “imparciais” de notícias? Os maiores veículos de comunicação, que tem maior alcance de público, pertencem a um número pequeno de corporações poderosas, que visam o lucro. Notícias que manchem a credibilidade da emissora ou de seus anunciantes devem ser minimizadas ou retiradas. Esses grupos controlam concessões públicas, como rádio e TV. Muitos políticos controlam emissoras afiliadas de TV em seus estados.

Uma notícia pode ser contada de diferentes maneiras. Um exemplo clássico é falar que o time “dispara na liderança”, mesmo estando o campeonato em sua 3ª rodada, ou não comentar nada e apenas dizer o número de pontos ganhos. Certamente, a primeira versão é mais passional e favorável à imagem do time que lidera, mesmo que seja no início do campeonato e com outros time com a mesma pontuação (ou quase a mesma).

Sátira sobre o que a impresa mostra e o que acontece. Fonte: site Iconoclastia http://iconoclastia.org/2013/06/13/manifestacoes-a-grande-midia-contra-as-redes-sociais/

Sátira sobre o que a imprensa mostra e o que acontece. Fonte: site Iconoclastia.

Usar o lado emocional também é dar uma tendência de interpretação à notícia. Por exemplo, fechar a imagem nos olhos de alguém quando diz algo triste é um truque muito comum para fazer aumentar a dramaticidade da notícia. Existem noticiários que apelam para o emocional durante todo o programa, atraindo a atenção e vencendo os concorrentes na corrida pela audiência.

IBOPE

O Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (mais conhecido como IBOPE) é uma das maiores empresas de pesquisa de mercado da América Latina. A empresa fornece um amplo conjunto de informações e estudos sobre mídia, opinião pública e outros pontos no Brasil e em outros países. Foi a primeira empresa do mundo a oferecer o serviço de medição de audiência de TV em tempo real, a partir de 1988, em São Paulo. Em 2012 a medição ocorre em 4200 domicílios, sendo que cada ponto equivale a 60 mil domicílios como amostragem.

Em cada cidade onde é realizada a medição de audiência de TV, o IBOPE sorteia um conjunto de domicílios que representam a população. Com a autorização dos moradores, é instalado um aparelho em cada televisor da casa (people meter), que identifica e registra automaticamente qual canal está sendo assistido. O aparelho envia, pelo sistema de telefonia celular, as informações de todas as mudanças de canais realizadas pelo telespectador para uma central de coleta dos índices que as processa, analisa e distribui para os clientes.

Conclusão

Não é sábio acreditar em tudo o que as notícias dizem, mas isso não significa que não se pode acreditar em nada. Deve-se ter espírito crítico ao receber uma informação, por exemplo, saber mais sobre a emissora e seus patrocinadores (não faria sentido uma notícia dizendo que telefones celulares podem causar câncer em ter propagandas de várias empresas de telefonia celular).

Veja esse premiado comercial (do Jornal Folha de S. Paulo) mostrando como uma notícia pode ser contada de uma maneira completamente tendenciosa e falando apenas verdades:

Veja mais na matéria Podemos confiar nos noticiários? da Revista Despertai! e no site Iconoclastia.

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