Piove, piove

Adoniran Barbosa: esse é o nome artístico de João Rubinato (Valinhos, 1910 – São Paulo, 1982), filho de imigrantes italianos de Cavárzere (província de Veneza). Trabalhou como humorista na rádio (emplacou o famoso bordão “nós viemos aqui pra beber ou pra conversar?”) mas sua vida ficou marcada como sambista. Provavelmente, seu maior sucesso tenha sido “Trem das Onze”, que virou “hino” de São Paulo e cuja tradução para o italiano fez bastante sucesso na Itália.

Suas construções linguísticas, pontuadas pela escolha exata do ritmo da fala paulistana, foram na contramão da própria história do samba. Brincava com o fato do paulistano “falar errado” (“nóis vai”, por exemplo). Os tipos humanos que surgem representam um dos painéis mais importantes da cidadania brasileira: os despejados das favelas, os engraxates, a mulher submissa que se revolta e abandona a casa, o homem solitário, social e existencialmente solitário, etc.

Foto do anos 1960 com Adoniran Barbosa (de chapéu) e uma das formações dos Demônios da Garoa: Canhotinho, Toninho, Ventura Ramires, Claudio Rosa e Arnaldo Rosa (da esquerda pra direita).

Em 1955, os Demônios da Garoa gravaram, com grande sucesso, o samba de Adoniran “Saudosa maloca”, que havia sido composto em 1951 e gravado pelo próprio Adoniran, sem, no entanto, ter alcançado alguma repercussão. Teve várias outra parcerias de sucesso, como Hervê Cordovi, Gonzaguinha, Clara Nunes, Elis Regina, Geraldo Blota e Benito di Paula.

No engraçado “Samba Italiano”, Adoniran demonstra sua brilhante capacidade em expressar a mistura cultural paulistana. Ele a escreveu em 1965, num dia que chovia bastante na cidade de São Paulo e um amigo pediu para ele retratar o acontecido:

Gioconda, piccina mia, / Gioconda, minha pequena,
vai a brincar nel mare, / vai brincar no mar,
nel fondo, / no fundo,
ma attenzione col tubarone! / mas atenção com o tubarão!
Hai udito? / Ouviu?
Hai capito? / Entendeste?
Meu San Benedito! / Meu São Benedito!

Piove, Piove / Chove, chove
Fá tempo che piove quá, Gigi / Faz tempo que chove aqui, Gigi
E io, sempre io / E eu, sempre eu
Sotto la tua finestra / Sob a sua janela
E voi senza me sentire / E você sem me sentir
Ridere, ridere, ridere / Rindo, rindo, rindo
De questo infelice qui / Deste infeliz aqui

Ti ricordi Gioconda / Se lembra Gioconda
De quella sera in Guarujá / Daquela tarde no Guarujá
Quando il mare te portava via / Quando o mar te levava embora
E me chiamaste: ‘Aiuto, Marcello! / E você me chamava: ‘Socorro, Marcello!
La tua Gioconda ha paùra de quest’onda’ / Sua Gioconda está com medo desta onda’ “

Na música, a chuva serve como elemento cômico. Em um momento, o eu lírico está todo molhado embaixo da janela da Gioconda e ela, em vez de ajudar, fica dando risada. Mas depois, na praia, vem a “vingança”.

Para saber mais de Adoniran e sua obra bem paulistana, vale a pena ler o artigo “Uma leitura geográfica da formação da cidade de São Paulo na obra de Adoniran Barbosa“, de Wladimir Jansen Ferreira. O podcast Radiofobia Classics também fez um programa muito bom com uma seleção de clássicos do sambista.

Demônios da garoa

Um dos principais intérpretes das canções de Adoniran Barbosa é o grupo Demônios da garoa, que surgiu no início da década de 1940 e dura até hoje, com diferentes integrantes. Em 1949, durante as gravações do filme O Cangaceiro, conheceram o compositor Adoniran Barbosa. Nasceu a parceria que rendeu os principais sucessos do grupo e seu reconhecimento nacional.

Inicialmente chamado de “Grupo do Luar”, mudou para o nome atual graças a um ouvinte de rádio que participou de um concurso para eleger um novo nome para o grupo. Provavelmente, o nome deve-se a São Paulo ser conhecida como “terra da garoa”. Mas por quê esse apelido?

Na década de 1930, a dupla sertaneja “Alvarenga & Ranchinho” já cantava a música “Êh… São Paulo”:

“Êh, êh, êh São Paulo
Êh São Paulo
São Paulo da garoa
São Paulo que terra boa

São Paulo das noites frias
Ao cair da madrugada
Das campinas verdejantes
Cobertas pela geada

São Paulo do céu azul
Das noites enluaradas
Das lindas manhãs de Sol
Ao raiar da madrugada”

Devido ao relevo acidentado, morros e grande quantidade de rios, São Paulo sempre teve condições favoráveis ao acúmulo de umidade em algumas regiões e consequente formações de chuvisco (ou garoa) e até mesmo nevoeiros (neblina). A relativa proximidade com o Oceano Atlântico representa um aporte extra de umidade com a brisa marítima, principalmente no fim da tarde.

Com a urbanização e formação de ilhas de calor, assim como a retirada de vegetação, que auxiliam no aumento da umidade, seria de se esperar uma redução das garoas em São Paulo. Além disso, poluentes emitidos na atmosfera por fábricas e automóveis podem influenciar na formação de gotículas de nuvem, aumentando as gotas de nuvens gerando chuva moderada e forte em vez de chuvisco.

No entanto, de acordo com dados da Estação Meteorológica do Parque Cientec, que conta com dados desde 1933, o número de ocorrências de garoa não tem apresentado tendência de queda, nem mesmo de aumento. Com exceção das variabilidades interanuais, as garoas em São Paulo têm-se mantido basicamente constante – veja mais e o gráfico dos dados no site Meteorópole clicando no link.

O senso comum contradiz os dados, dizendo que tem menos garoa atualmente. Provavelmente, as pessoas estão se preocupando mais com chuvas que geram alagamentos e estão fazendo mais atividades em ambientes fechados, dando a impressão de que a garoa é menos frequente. Também é comum ouvir que é mais comum ter garoa no inverno (estação seca), sendo que a maioria das ocorrências acontece no início e término da estação chuvosa. Mas justamente por chover pouco no inverno é que as garoas ganham destaque, resultando em um viés de confirmação – do tipo “toda vez que eu lavo o carro, chove”.

Veja mais exemplos da relação entre Meteorologia e música clicando no link.

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