O Tacão de Ferro

Publicado pelo escritor norte-americano Jack London em 1907, “O Tacão de Ferro” (The Iron Heel) descreve uma insurreição que teria ocorrido entre 1914 e 1918, analisada por um observador do século XXVII. Nele, retrata o desenvolvimento da classe operária norte-americana e seus embates com a oligarquia, sob o ponto de vista de Avis Everhard, jovem de família rica que se apaixona por Ernest, um socialista que se torna líder dos revoltosos.

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Jack London foi o pseudônimo de John Griffith Chaney (1876-1916), autor, jornalista e ativista social norte-americano, pioneiro no que era, então, o novo mundo das revistas comerciais de ficção, tendo sido um dos primeiros romancistas a obter celebridade mundial somente com as suas histórias. Dentre as suas obras mais conhecidas, estão “The Call of the Wild” (O Grito da Selva), “Before Adam” (Antes de Adão) e “The Sea Wolf” (O lobo do mar).

London era um comunista militante. No livro “Tacão de ferro”, ensina os principais conceitos do marxismo e a sua forma de entender o mundo de forma simples e quase natural. Em vez de ficção científica, pode-se dizer que se trata de uma “ficção sociológica”.

O posfácio do livro é de Leon Trótski (1879-1940), intelectual marxista e revolucionário bolchevique, organizador do Exército Vermelho e rival de Stalin na tomada do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) à morte de Lenin.

Para ir “entrando no clima” do livro, seguem duas passagens para reflexão:

“Não fomentamos o ódio. Dizemos que a luta de classes e uma lei do desenvolvimento social. Não somos responsáveis por ela. Não fazemos a luta de classes. Simplesmente a explicamos, como Newton explicou a gravitação. Explicamos a natureza do conflito de interesses que produz a luta de classes.”

“O capital e o trabalho deveriam ser amigos (…) ponha os pés no chão. Lembre-se de que estamos de acordo quanto ao fato de que o homem médio é egoísta”

Se é utópico que os trabalhadores e os donos do capital sejam parceiros, o que realmente acontece?

Resenha

(Sabe aquele momento do filme “A Origem”, ou “Inception” no nome original, onde se entra em um sonho, dentro de outro, dentro de outro, e assim por diante em diferentes níveis de realidade? Para entender quem conta a história de quem aqui é algo desse tipo.)

O narrador vive numa utopia no século XXVII, a Irmandade dos Homens (inclusive a maioria das notas de rodapé do livro são dele). Ele reproduz e comenta manuscrito feito por Avis (mulher de Everhard). É uma descrição factual, ainda que fictícia, do início da luta revoltosa dos socialistas utópicos contra a democracia capitalista, no início do século XX.

O registros iniciam-se em 1912, quando a aristocrata Avis casa-se com Ernest Everhard. Os Estados Unidos estão nas mãos de oligarcas e os operários ganham salários miseráveis. Em resposta à tentativa dos reformadores de atingir o poder por meio das eleições, a oligarquia cria um sistema de repressão chamado Tacão de Ferro.

Nos primeiros capítulos Ernst Everhard realiza embates verbais com elementos da classe dominante, em defesa da ciência contra a metafísica e sobre a luta de classes. Nota-se por aí que o autor estaria “menos interessado no destino individual de seus heróis do que no destino da humanidade”, como diria Trotsky em seu posfácio. O que lhe importa são as idéias de Ernest sobre o conflito entre capital e trabalho ou sobre a teoria da mais-valia.

“Não seria então bastante irracional destruir os teares mecânicos e voltar ao método manual, mais precário e dispendioso? (…) Não é verdade que aquelas fusões, conhecidas como monopólios, produzem com mais eficiência e a um custo menor do que mil pequenas empresas em competição? (…) Então não seria irracional destruir essa fusão barata e eficiente?”

“Mas chegará o dia em que a fusão dos monopólios controlará todas as leis; em que a fusão dos monopólios será o próprio Governo”

Nesses parágrafos, o protagonista apresenta a evolução natural da economia para um sistema mais eficiente, que gere mais produção excedente e mais lucro. Segundo ele, a grande maioria dos empresários está destinada a quebrar em todos os setores, restando apenas um pequeno grupo.

“Em vez de destruir essas máquinas maravilhosas que produzem com eficiência e pouco gasto, por que não as controlamos? (…) Isso é socialismo, uma fusão muito maior do que os monopólios, uma fusão social e econômica maior do que qualquer outra que já apareceu na face da Terra. Pertence ao curso da evolução. Esse é o lado vencedor.”

Após mostrar o extremo da concentração de renda através dos monopólios, a evolução natural seguirá para uma revolução da grande maioria para dominar esse pequeno grupo detentor da maior parte da riqueza.

Para explicar o conveito de mais-valia, o protagonista dá o exemplo de uma fábrica de sapatos:

“Supusemos que a divisão do produto seria semelhante à divisão que ocorre em todos os processos industriais. Supusemos também que o trabalho poderia comprar de volta, com os salários, apenas parte do produto, e que o capital não consumiria todo o remanescente do produto. Supusemos ainda que quando o trabalho consumisse todo o salário e quando o capital consumisse tudo o que queria, ainda haveria um excedente a ser consumido. Concordamos que esse excedente poderia apenas ser exportado. Concordamos, também, que o efeito do descarregamento desse excedente em outro país seria o desenvolver os recursos daquele país, e que em pouco tempo haveria nele um excedente não consumido. Ampliamos esse processo para todos os países do planeta, até que todos eles estivessem produzindo anualmente, e diariamente, um excedente que não poderia ser consumido, o qual não teriam como descarregar em outro país. Agora pergunto-lhes novamente: o que fazer com esse excedente?”

No livro 1984, uma resposta a essa pergunta poderia ser a guerra (“Guerra é paz”). No entanto, isso é uma situação extrema, muito custosa em termos humanos e paliativa. Outros diriam “cria-se a necessidade” através de propagandas, ou “façamos produtos que quebram logo”, dentre outras situações que funcionam pontualmente no tempo e no espaço. Então o próprio protagonista responde:

“Quando todo país ficar com um excedente que não foi consumido nem vendido em suas mãos, o sistema capitalista quebrará sob a tremenda estrutura dos lucros que ele cultivou. E nesse dia, a luta será pela posse das máquinas.”

Note que a quebra não precisa ser necessariamente em toda a economia, mas isso pode acontecer através de crises, que afetam alguns setores, e com o tempo podem se tornar cada vez mais comuns e generalizadas. E dessa batalha, sendo a vitória dos trabalhadores, uma nova era de redistribuição de renda começa. No caso de vitória dos monopólios, “o trabalho e todos nós seremos esmagados sob o tacão de ferro de um despotismo tão cruel e terrível como qualquer despotismo que manchou as páginas da história humana”.

A Primeira Revolta é esmagada. A Segunda também seria, mas Avis não sabe disso. Para ela, a revolução sairia vitoriosa e seu relato serviria para celebrizar a memória do marido, morto dois meses antes. A narrativa é interrompida bruscamente. Avis, supõe-se, é assassinada após ter escondido os manuscritos.

“A condição do povo do abismo dava dó. A educação em escolas comuns, quando isso era possível, deixou de existir. Eles viviam como animais em grandes e esquálidos guetos operários, exasperados em meio à miséria e à degradação. Todas as suas antigas liberdades haviam desaparecido. Eram escravos do trabalho (…) era-lhes negado o direito de se mudarem de um local para o outro , ou de portarem ou possuírem armas.”

Esse parágrafo mostra a constante queda nos níveis de educação, de riqueza, de liberdade e até restrições à imigração ou auto-defesa.

Do ponto de vista da época em que foi publicado, o livro é um exercício de antecipação histórica e um relato profético. Prevê a aliança entre o capital financeiro e a aristrocracia trabalhista, o caos nos meios de transporte urbanos e o regisme fascista como resultado inevitável da derrota da revolução operária. Além disso, a data escolhida para a Primeira Revolta, a primavera de 1918, é curiosamente próxima da Revolução Russa, ocorrida em 1917.

O clímax do romance está na descrição da Comuna de Chicago, que sintetiza o massacre infligido à Primeira Revolta. Nessas cenas terríveis, London logra unir, de forma assustadoramente expressionista, tese e drama. A ela conflui uma massa fantasmagórica de miseráveis, que o autor denomina “povo do abismo”.

“Eu vejo que no futuro próximo se avizinha uma crise que me abate e me faz tremer pela segurança de meu país (…) As grandes empresas têm sido enaltecidas, uma era de corrupção em altos postos irá se seguir, e o poder do dinheiro da nação tentará prolongar seu reinado atuando em detrimento do povo, até que a riqueza esteja acumulada em umas poucas mãos e que a República seja destruída.”

Abraham Lincoln

Fontes

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