O negócio da nostalgia

A nostalgia descreve uma sensação de saudade idealizada por momentos felizes vividos no passado. Na cultura de massa, geralmente esses momentos são separados por décadas (anos 80, anos 90, etc) e estão associados a costumes, produtos, filmes, músicas etc relacionados à infância, uma época da vida sem tantas responsabilidades. Resgatar esse momentos tem trazido cada vez mais importância no mundo dos negócios em diversas áreas, principalmente a do entretenimento. A tendência retrô está em alta no mercado.

Exposição "Castelo Rá-Tim-Bum", série infantil da TV Cultura, no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo: recebeu cerca de 410.000 pessoas em seis meses. Fotos: ViniRoger.

Exposição “Castelo Rá-Tim-Bum”, série infantil da TV Cultura, no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo: recebeu cerca de 410.000 pessoas em seis meses. Fotos: ViniRoger.

A literatura tem seus principais sucessos em obras de ficção envolvendo o sobrenatural e os filmes de maior bilheteria são refilmagens e histórias já contadas em histórias em quadrinhos. Muitas lanchonetes surgem baseadas nos hambúrgueres e milk shakes dos anos 50 e 60. Canais do youtube que falam sobre filmes e desenhos dos anos 80 e 90 ganham milhões de visualizações. A moda sempre retoma tendências já utilizadas anteriormente, reforçadas por aparições na televisão. Reprises e refilmagens de novelas também são comuns e dão bons índices de audiência.

Cada vez mais recorrente, esse fenômeno ocorre porque, diante do mundo adulto, é comum recordar a infância como forma de escapismo. O escapismo é a distração mental de obrigações e realidades desagradáveis recorrendo a devaneios e imaginações. Muito utilizado no século XIX, parece retomar com força na cultura ocidental no início do século XXI.

Incentivar esse escapismo da realidade em uma sociedade capitalista está intimamente ligado a promover o consumismo de produtos explorando essa característica tão comum da cultura ocidental atualmente. Daí também surge um ponto de reflexão: por quê estamos tão interessados em fugir da realidade? É fato que uma geração comumente pensa que a sua é melhor que a geração seguinte. Isso acontece muitas vezes por acharem que são mais sábios e inteligentes por terem mais tempo de vida, mas estão olhando por outra perspectiva: uma pessoa de fora vê melhor os erros de um grupo de pessoas do que elas mesmas. Outra coisa que nos leva a uma fuga da realidade é observar a vida editada das pessoas nas mídias sociais. Logicamente as pessoas somente compartilham as coisas boas, fazendo parecer que todos estão bem enquanto você não está.

Muitas vezes achamos que na vida as coisas são boas OU ruins, mas tudo tem seu lado bom e seu lado ruim – e muitas vezes até gradações entre as duas medidas. Assim, não é porque você está lendo uma crítica que deva jogar todas suas lembranças pro alto. Não seja radical, e sim, tenha diferentes pontos de vista sobre a mesma realidade. Estando consciente sobre suas ações, você vai aproveitar melhor a vida, de uma maneira mais racional.

Queria compartilhar aqui algo que fez parte da infância de muita gente mas que se perdeu na história: a Rádio do Chico Bento. Lançado em 1989, é um filme estrelado pela Turma da Mônica, uma das únicas produções baseadas em Maurício de Sousa com apenas atores reais. Faz anos que encontrei a fita VHS perdida em um sebo do centro de São Paulo, e depois de um tempo decidi digitalizá-la para sua melhor preservação.

Chico Bento opera sua estação de rádio com a assistência do sonoplasta Turcão – toda vez que entra ou sai do ar, ele puxava uma cordinha com um aqueles clássicos sinais luminosos escrito NO AR. Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali participam da programação, que inclui uma versão de Chapeuzinho Vermelho e dois comerciais: esparadrapo Tapaboca e a rolha (remédio contra disenteria). Um dos melhores quadros é o “cantinho da pregunta”, o que é levado bem ao pé da letra.

Algumas novelas também deixaram saudade, em tempos que assistir a Rede Globo de Televisão era um dos poucos programas disponíveis à noite para as famílias. O escritor Benedito Ruy Barbosa é o autor de novelas de sucesso, como Os Imigrantes, Pantanal, Renascer e Rei do Gado.

Renascer, exibida pela primeira vez em 1993, conta a saga de José Inocêncio, um fazendeiro da zona cacaueira de Ilhéus, Bahia. Ao chegar à região onde vai fazer sua vida, finca um facão aos pés de um frondoso jequitibá, como um símbolo de sua coragem e do sonho de se tornar eterno. Foi pai de quatro filhos, sendo que a mãe morre por complicações durante o parto do caçula. O fato faz com que Zé Inocêncio desenvolva um relacionamento de ódio com o filho. As desavenças se aceleram quando Inocêncio, já cinquentão, conquista e casa-se com a namorada de João Pedro, a jovem Mariana, que é neta do seu maior desafeto no passado, Belarmino, assassinado de forma misteriosa, onde as suspeitas recaem sobre o próprio Inocêncio. Para piorar, João Pedro acaba casando-se com Sandra, filha de Teodoro, o vizinho que disputa terras com Zé Inocêncio. Outro destaque da trama é o catador de caranguejos Tião Galinha, que por causa da sua ingenuidade, acredita que o sucesso alcançado pelo coronel Zé Inocêncio se deve ao fato de ele ter criado um diabo dentro de uma garrafa, seu amuleto.

Veja essa homenagem com o áudio retirado do início do primeiro capítulo da novela Renascer, quando Zé Inocêncio encontra o maior Jequitibá da região de Ilhéus (Bahia) e finca seu facão para iniciar sua era de domínio do local como “coronel”. O vídeo a seguir teve imagens gravadas do Jequitibá Rosa no Parque Estadual de Vassununga (Santa Rita do Passa Quatro-SP, Km 243 da Via Anhanguera).

Outro grande sucesso escrito por ele é a novela O Rei do Gado, de 1996-97, que conta o conflito de gerações entre as famílias Mezenga e Berdinazi, imigrantes italianos que fizeram fortuna no Brasil com criação de gado e plantações de café, respectivamente. Veja mais no post sobre o cemitério de Pistoia, que também tem um vídeo com uma homenagem que refiz uma das cenas mais famosas: quando o personagem vivido por Raul Cortez viaja para a Itália e encontra o túmulo de seu irmão, que morreu na Segunda Guerra.

Apesar de doces que não são mais fabricados e lugares que não existem mais, pelo menos esse filme não se perdeu completamente na memória das pessoas, podendo ser revisto por uns e assistidos por uma nova geração.

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  • CARACA, RÁDIO DO CHICO BENTO!!!!

    MANO, ISSO SIM É NOSTALGIA.