Monty Python e o Guia do Mochileiro das Galáxias

O Guia do Mochileiro das Galáxias (The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy) é uma série de ficção científica cômica criada por Douglas Adams, que também escreveu esquetes para o grupo Monty Python. Veja alguns trechos do livro e a origem de alguns ícones nerds que surgiram com a obra e com o grupo de humor nonsense.

Nonsense” é uma expressão inglesa que denota algo disparatado, sem nexo. A expressão é frequentemente utilizada para denotar um estilo característico de humor perturbado e sem sentido, que pode aparecer em diversas artes, como no livro “Alice no país das maravilhas”, de Lewis Carroll, e em obras surrealistas. No caso do humor nonsense, ele tem a sua base em coisas absurdas, sem sentido, cenários fictícios ou demasiadamente elaborados. É muito apreciado porque permite fugir das normas estabelecidas, pensar de forma diferente do que está definido como aceitável e lógico.

Ilustração do Guia do Mochileiro das Galáxias sendo esmagado por um pé gigante (que sempre aparece no seriado "Monty Python") - parte de trás do guia tem em letras garrafais escrito "NÃO ENTRE EM PÂNICO" para ajudar os leitores em momentos difíceis.

Ilustração do Guia do Mochileiro das Galáxias sendo esmagado por um pé gigante (que sempre aparece no seriado “Monty Python”) – a parte de trás do guia tem em letras garrafais escrito “NÃO ENTRE EM PÂNICO” para ajudar os leitores em momentos difíceis.

Monty Python

Douglas Adams (1952-2001) foi um escritor e comediante britânico, famoso pela série de rádio, jogos, livros e por ter escrito esquetes para a série televisiva Monty Python’s Flying Circus – série para televisão britânica transmitido pela BBC entre 1969 a 1974, roterizada e estrelada pelos Monty Python. Esse grupo de comédia britânico era formado por Graham Chapman, John Cleese, Terry Gilliam (cartunista que trabalhara na revista Mad e cineasta com elementos surrealistas), Eric Idle, Terry Jones, Michael Palin e Douglas Adams. A influência na comédia gerada pelo grupo é percebida nos trabalhos de South Park, Saturday Night Live e em toda uma geração de humoristas brasileiros (Regina Casé, Luís Fernando Guimarães, Evandro Mesquita e programas como Casseta e Planeta Urgente! e TV Pirata). Veja as esquetes mais famosas do Monty Python no vídeo e links abaixo (o tempo está relacionado com o vídeo do Nerd Office):

Até uma linguagem de programação levou o nome graças ao grupo, a python, uma linguagem de alto nível, interpretada e orientada a objetos.

O Guia do Mochileiro das Galáxias

A obra começou como série radiofônica transmitida pela primeira vez no Reino Unido pela Radio 4, da BBC, em 1978, e mais tarde foi publicada (muito modificada e amplificada) numa Saga de romances em cinco partes:

Em 2005, foi lançado o longa metragem baseado no primeiro livro da série, com várias diferenças entre a história do livro e o filme – todas acrescentadas pelo próprio autor Douglas Adams.

O Dia do Orgulho Nerd, ou Dia do Orgulho Geek, é uma iniciativa que advoga o direito de toda pessoa ser um nerd (ou um geek) e para promover a cultura nerd, comemorado em 25 de maio. A data foi escolhida como para comemorar a première do primeiro filme da série Star Wars, o Episódio IV: Uma Nova Esperança, em 25 de maio de 1977, mas divide a mesma data com o Dia da Toalha, para os fãs da “trilogia” O Guia do Mochileiro das Galáxias, em homenagem ao seu escritor. O enredo desse livro fala muito de outro livro (que se chama “Guia do Mochileiro das Galáxias) e que faz algumas afirmações a respeito das toalhas:

“Segundo ele, a toalha é um dos objetos mais úteis para um mochileiro interestelar. Em parte devido a seu valor prático: você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kakrafoon; pode usá-la como vela para descer numa minijangada as águas lentas e pesadas do rio Moth; pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em um combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você -estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz); você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro; e naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa.

Porém o mais importante é o imenso valor psicológico da toalha. Por algum motivo, quando um estrito (isto é, um não-mochileiro) descobre que um mochileiro tem uma toalha, ele automaticamente conclui que ele tem também escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, garrafinha de aguardente, bússola, mapa, barbante, repelente, capa de chuva, traje espacial, etc, etc. Além disso, o estrito terá prazer em emprestar ao mochileiro qualquer um desses objetos, ou muitos outros, que o mochileiro por acaso tenha “acidentalmente perdido”. O que o estrito vai pensar é que, se um sujeito é capaz de rodar por toda a Galáxia, acampar, pedir carona, lutar contra terríveis obstáculos, dar a volta por cima e ainda assim saber onde está sua toalha, esse sujeito claramente merece respeito.”

Talvez você já tenha ouvido como resposta “42” a alguma pergunta sua. Isso também surgiu com esse livro. Foi construído um super computador para saber qual é a Resposta à Questão da Vida, o Universo e Tudo o Mais. Após muito tempo (mesmo) o computador (chamado Pensador Profundo) responde “42”. Depois, complementa “Pois é! Assim, quando vocês souberem qual é exatamente a pergunta, vocês saberão o que significa a resposta.” Às vezes, uma boa pergunta é mais importante do que sua resposta. O início para o entendimento de algo começa com a pergunta, devemos saber antes o que queremos saber – não adianta falar “não entendi nada” quando acaba a aula, tem que usar o cérebro um pouco para fazer alguma pergunta específica. Veja um trecho do filme ilustrando melhor essa passagem (sugere que a Terra com todas as suas formas de vida seja o novo supercomputador para calcular essa pergunta):

No outro livro da séria, “A vida, o Universo e Tudo Mais”, existe o planeta Krikkit. Ele é envolto por uma poeira e a civilização de lá se desenvolve acreditando que não existe nada. Um dia, cai um meteoro e astronautas saem para investigar. Ao descobrirem que existe literalmente um universo de coisas fora o planeta deles, a reação dos habitantes é muito interessante: eles decidem destruir todo o universo, exceto eles, para que a crença deles continue inabalável. Parece absurdo, mas o negacionismo diante de fatos é algo muito debatido em diversas culturas.

Finalizando, segue um compilado de trechos do início do primeiro livro nos quais retirei as divagações que dão tanta graça ao livro, mas com o intuito de mostrar a importância que alguma coisa pode ter a determinada pessoa e desimportância completa para outras (tipo a destruição da Terra):

“A casa ficava numa pequena colina bem nos limites de uma vila, isolada. (…) A única pessoa para quem a casa tinha algo de especial era Arthur Dent, e assim mesmo só porque ele morava nela. (…) Na noite de quarta-feira tinha caído uma chuva forte, e a estrada estava enlameada e molhada, mas na manhã de quinta um sol intenso e quente brilhou sobre a casa de Arthur Dent pelo que seria a última vez.

Arthur ainda não havia conseguido enfiar na cabeça que o conselho municipal queria derrubá-la e construir um desvio no lugar dela. Às oito horas da manhã de quinta-feira, Arthur não estava se sentindo muito bem. Acordou com os olhos turvos, levantou-se, andou pelo quarto sem enxergar direito, abriu uma janela, viu um trator, encontrou os chinelos e foi até o banheiro. (…)

-Desista, Sr. Dent, o senhor sabe que é uma causa perdida. O senhor não vai conseguir ficar deitado na frente do trator o resto da vida. (…) Infelizmente, o senhor vai ter que aceitar – disse o Sr. Prosser, rodando seu chapéu de pele no alto da cabeça. – Esse desvio tem que ser construído e vai ser construído!

-Primeira vez que ouço falar nisso. Por que é que tem que ser construído?

-Como assim, “por que deve ser construído”? Oral – exclamou ele. – É um desvio. É necessário construir desvios. Os desvios são vias que permitem que as pessoas se desloquem bem depressa do ponto A ao ponto B ao mesmo tempo que outras pessoas se deslocam bem depressa do ponto B ao ponto A. (…) O senhor teve um longo prazo a seu dispor para fazer quaisquer sugestões ou reclamações, como o senhor sabe -disse o Sr. Prosser.

-Um longo prazo? -exclamou Arthur. -Longo prazo? Eu só soube dessa história quando chegou um operário na minha casa ontem. Perguntei a ele se tinha vindo para lavar as janelas e ele respondeu que não, vinha para demolir a casa. É claro que não me disse isso logo. Claro que não. Primeiro lavou umas duas janelas e me cobrou cinco pratas. Depois é que me contou.

-Mas, Sr. Dent, o projeto estava à sua disposição na Secretaria de Obras há nove meses.

-Pois é. Assim que eu soube fui lá me informar, ontem à tarde. Vocês não se esforçaram muito para divulgar o projeto, não é verdade? Quer dizer, não chegaram a comunicar às pessoas nem nada.

-Mas o projeto estava em exposição…

– Em exposição? Tive que descer ao porão pra encontrar o projeto.

– É no porão que os projetos ficam em exposição.

-Com uma lanterna.

-Ah, provavelmente estava faltando luz.

-Faltavam as escadas, também.

-Mas, afinal, o senhor encontrou o projeto, não foi?

-Encontrei, sim – disse Arthur. – Estava em exibição no fundo de um arquivo trancado, jogado num banheiro fora de uso, cuja porta tinha a placa: Cuidado com o leopardo.

(…)

Um silêncio súbito tomou conta da Terra, talvez pior ainda que o barulho. Por algum tempo, não aconteceu nada. As grandes espaçonaves pairavam imóveis no céu, sobre todas as nações da Terra. Pairavam imóveis, imensas, pesadas, completamente paradas no céu, uma blasfêmia contra a natureza. Muitas pessoas entraram em estado de choque quando suas mentes tentaram entender o que estavam vendo. As naves pairavam imóveis no céu da mesma forma como os tijolos não o fazem. (…)

Antes de ser destruída, a Terra assistiria a uma demonstração da perfeição absoluta em matéria de reprodução sonora, o maior sistema de som jamais construído. Mas não se ouviu um concerto, nenhuma música, nenhuma fanfarra, e sim uma simples mensagem.

-Povo da Terra, atenção, por favor – disse uma voz, e foi maravilhoso. Som quadrafônico perfeito, com níveis de distorção tão baixos que o mais corajoso dos homens não conseguiria conter uma lágrima.

-Aqui fala Prostetnic Vogon Jeltz, do Conselho de Planejamento do Hiperespaço Galáctico – prosseguiu a voz. – Como todos vocês certamente já sabem, os planos para o desenvolvimento das regiões periféricas da Galáxia exigem a construção de uma via expressa hiperespacial que passa pelo seu sistema estelar e infelizmente o seu planeta é um dos que terão de ser demolidos. O processo levará pouco menos de dois minutos terrestres. Obrigado. – O sistema de som voltou ao silêncio. (…)

-Esta surpresa é injustificável. Todos os planos do projeto, bem como a ordem de demolição, estão em exposição no seu departamento local de planejamento, em Alfa do Centauro, há 50 dos seus anos terrestres, e portanto todos vocês tiveram muito tempo para apresentar qualquer reclamação formal, e agora é tarde demais para criar caso. O sistema de som foi desligado novamente e seu eco foi morrendo por todo o planeta. As naves imensas começaram a virar lentamente no céu, com facilidade. Na parte de baixo de cada nave abriu-se uma escotilha, um quadrado negro vazio.

A esta altura, alguém tinha conseguido ligar um transmissor de rádio, localizar uma frequência e enviar uma mensagem às naves vogons, falando em nome do planeta. Ninguém jamais ouviu o que foi dito, apenas a resposta. O imenso sistema de som voltou a transmitir. A voz estava irritada:

-Como assim, nunca estiveram em Alfa do Centauro? Ora bolas, humanidade, fica só a quatro anos-luz daqui. Desculpem, mas se vocês não se dão ao trabalho de se interessar pelas questões locais, o problema é de vocês. -Após uma pausa, disse: -Energizar os raios demolidores.

Das escotilhas saíram fachos de luz.

– Diabo de planeta apático – disse a voz. – Não dá nem pra ter pena. – E o sistema de som foi desligado. Houve um silêncio terrível. Houve um ruído terrível. Houve um silêncio terrível. A Frota de Construção Vogon desapareceu no negro espaço estrelado.”

Escute mais sobre as obras de Douglas Adams no Scicast.

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