Meteorologia e música

As condições atmosféricas, estudadas pela Meteorologia, costumam ser usadas como pano de fundo e metáfora em várias músicas, visando transmitir sentimentos.

Foto: ViniRoger

Foto: ViniRoger

Provavelmente uma das músicas mais famosas que fazem lembrar da Meteorologia é a canção “Águas de Março”, de Tom Jobim, Composta em 1972, ficou famosa também no dueto com Elis Regina. Sua letra tem caráter pouco narrativo e fortemente imagético, fazendo parte de um repertório de músicas referindo-se à natureza. O poema “O caçador de esmeraldas”, de Olavo Bilac, serviu de inspiração no trecho abaixo (“Foi em março, ao findar da chuva, quase à entrada / do outono, quando a terra em sede requeimada / bebera longamente as águas da estação (…)”)

“São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração”

Ambos os casos fazem referência às chuvas do final do verão no hemisfério sul e final da estação chuvosa no Rio de Janeiro, São Paulo e outras regiões. Tom ainda fez a música instrumental Rancho das nuvens, cuja melodia pretende fazer o ouvinte se sentir leve, flutuando em um ambiente de nuvens.

A música “Chover” do grupo “Cordel do Fogo Encantado” já começa declamando, em ritmo de cordel, uma constatação popular que relaciona o canto do sabiá com as chuvas:

“O sabiá no sertão
Quando canta me comove
Passa três meses cantando
E sem cantar passa nove
Porque tem a obrigação
De só cantar quando chove”

Basicamente, a música é um pedido pela chuva até que começam os trovões, chove e como tudo fica depois da chuva no sertão no sertão nordestino.

A banda de rock Toto compôs a música “Africa” em 1982. A letra é meio confusa mas dá a entender que o eu lírico queria ver a namorada ali na Africa com ele para poder viver novas experiências e a chuva representa lavar, renovar, crescer:

“Abençoo as chuvas que caem na África”

Talvez isso tenha servido de inspiração para o “Angel City Chorale”, um coro comunitário de Los Angeles, a fazer a apresentação da música antecedida por uma espécie de “clapping music“. Nesse gênero de música, somente sons corporais geram a música. Nesse caso, o esfregar das mãos por várias pessoas simula uma chuva distante; o estalar de dedos faz parecer que a chuva está mais perto (e quando mais rápido, mais forte vai ficando a chuva); pular simula trovões. Confira no vídeo abaixo:

O musical “Singin’ in the Rain” (no Brasil, “Dançando na chuva”), com Gene Kelly, é um dos ícones do cinema. A ideia da música é mostrar que, mesmo em uma situação que deixaria qualquer um mal, ele consegue ficar feliz, “dançando e cantando na chuva”:

“Eu rio para as nuvens
Tão escuras lá em cima
Tenho o sol em meu peito”

“Que a tempestade afugente
Todo mundo daqui
E que venha a chuva
Eu estou a sorrir”

Um pouco na mesma linha, a música “Raindrops Keep Falling On My Head“, de B.J. Thomas, a chuva é tratada como uma representação das coisas ruins que acontecem no dia a dia, mas que mesmo assim a pessoa não se deixa abater.

“Pingos de chuva continuam caindo em minha cabeça,
Mas isso não significa
Que meus olhos logo ficarão vermelhos.
Eu não sou de chorar
Porque eu nunca vou parar a chuva
Reclamando
Porque eu sou livre,
Nada está me preocupando!”

Ficar molhado na chuva também é tratado como algo cômico na música “Samba italiano“, de Adoniran Barbosa e até hoje cantada pelos Demônios da Garoa – clique no link para saber mais.

Outras vezes, a chuva é utilizada para ilustrar momentos tristes, como na música “Crying In The Rain” (cantada pelo grupo A-HA, regravada dos The Everly Brothers):

“Se eu esperar por céus tempestuosos
Você não distinguirá a chuva das lágrimas em meus olhos”

Outro exemplo é “Lágrimas e chuva“, do Kid Abelha:

“Lágrimas e chuva
Molham o vidro da janela
Mas ninguém me vê”

Mais um exemplo, para quem gosta de pagode: “Temporal” do Art Popular:

“Cadê aquele nosso amor
Naquela noite de verão
Agora a chuva é temporal
E todo céu vai desabar”

Na música “Medo da chuva“, Raul Seixas fala por um eu lírico que liberta-se do casamento e torna-se pronto para uma nova vida:

“Eu perdi o meu medo
Meu medo, o meu medo da chuva
Pois a chuva voltando pra terra
Traz coisas do ar”

Outra do Raulzito: em “Trem das Sete“, fala-se de uma mudança que está para vir com o “céu carregado” indicando um “novo aeon”, mas com algum aspecto negativo:

Ói, olha o céu, já não é o mesmo céu que você conheceu,
Não é mais
Vê, ói que céu, é um céu carregado e rajado
Suspenso no ar

Na estrofe seguinte, é revelado que no céu estão “brumas de mil megatons”, o que leva a crer em um fim do mundo com bombas atômicas e depois o surgimento de uma nova era.

O vento costuma ser associado a mudanças, já que o ar em movimento pode levar outras coisas juntos com ele. Por exemplo, a música “Vento no litoral” (1991), da Legião Urbana, usa essa metáfora para falar do sofrimento devido à morte de um namorado com quem ficou por um bom tempo.

“Sei que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora”

A música “Dust in the wind“, do Kansas (regravada pelo Scorpions) também usa o vento como uma figura de linguagem para falar sobre a vida e sua efemeridade:

“Poeira ao vento
Tudo o que somos é poeira no vento”

A respeito das tempestades, o compositor italiano Gioachino Rossini compôs “Guilherme Tell”, uma ópera em quatro atos baseada na lenda que dá título à obra. Na Abertura (Overture), é formada por cinco partes, sendo que a parte chamada “Tempestade” é bem dinâmica, tocada por toda a orquestra. A tempestade indica, através da mudança de ritmo na música, uma quebra na história: em um calmo festival na Suíça, um dos soldados de Gesler atenta contra a filha de Leuthold e Leuthold o mata para defendê-la, sendo que William Tell vai defendê-lo e é preso.

A Disney fez um curta metragem (“The Band Concert”, de 1935) em que Mickey Mouse toca esse trecho com uma banda bem na hora que aparece um tornado. O tornado suga tudo em seu caminho, até mesmo o pavilhão em que a banda está tocando. Mas a banda está tão acostumada com as distrações que eles continuam a tocar de dentro do tornado (em que Mickey flutua passado os restos de uma casa destruída). À medida que a tempestade passa, a banda (exceto Mickey) é jogada em uma árvore e eles terminam a “overture”. O único membro restante do público é Donald Duck que aplaude com entusiasmo:

Na música “Riders on the storm” (tradução: chinelos na tempestade Viajantes na tempestade), do The Doors, acontecem várias cenas assustadores, dignas de um filme de suspense, e a tempestade serve como pano de fundo. A letra fala um pouco sobre a agressividade da vida, subentendendo-se um paralelo com a agressividade da tempestade, e comparando a existência ao longo do tempo como caminhar em uma tempestade.

Para os cristãos, o arco-íris está associado à esperança (um sinal da aliança de Deus com os homens). “Over the Rainbow” foi especialmente escrita para mostrar os talentos de Judy Garland no filme O Feiticeiro de Oz, de 1939. Sua melodia melancólica e letra simples representam o desejo de uma pré-adolescente de escapar da desesperança do mundo, desde a tristeza da chuva até o brilho de um novo mundo “além do arco-íris”:

“Acordar onde as nuvens estão muito atrás de mim
Onde problemas derretem como balas de limão”

A canção Volare fala do sonho de uma pessoa aproveitando a liberdade de voar em céu azul. Em contraponto com um céu nublado, o céu sem nuvens costuma indicar alegria.

A letra da música “Previsões à toa“, escrita por Guilherme F. C. Neto (banda Distorções), tem muita Meteorologia. Confira no vídeo a seguir:

A “nebulosidade oito oitavos” diz respeito a cobertura de nuvens no céu, dividido em oito partes. A cumulonimbus é um dos dez gêneros de nuvens, responsável por tempestades severas com raios. E o ar saturado é o ar cheio de vapor d’água, uma das condições para formar nuvens e chuva.

Além disso, a letra exemplifica o que foi comentado anteriormente: a primeira parte da música, com tempo fechado, chuva e raios, o eu lírico está triste, enquanto que na segunda parte, o céu aberto e os ventos ilustram a renovação.

Já com mais bom humor, existe a música “It’s rainning man” (1982), da dupla “Weather Girls”. Formada por Martha Wash e Izora Armstead, a dupla mudou para esse nome com o sucesso da canção. Basicamente, na música elas apresentam uma previsão do tempo em que está chovendo homem. Do ponto de vista METEOROLÓGICO, está certo falar que, antes de uma tempestade, a umidade aumenta e os barômetros diminuem. O barômetro é um equipamento que mede a pressão atmosférica, ou seja, quanto menor o peso da coluna de ar, mais leve estão as parcelas de ar que sobem com umidade para alimentar uma tempestade.

No Brasil, a dupla sertaneja Teodoro e Sampaio fez a música “Vai chover mulher” , que conta com um anúncio na rádio que “uma grande chuva de mulher se aproxima de nossa região” e as providências que eles tomam a respeito.

ps: não procure “música meteorologia” no Google rsrs Vai aparecer o funk “Meteorologia” do MC Andrewzinho (se quiser ouvir, é por sua conta e risco :P). E falando em funk e Meteorologia, existe a Furacão 2000: equipe de som, produtora e gravadora carioca) produz coletâneas e shows de funk carioca. Foi a principal responsável pela divulgação do funk carioca nos anos 1990 e popularização no Brasil.

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