Litoral sul de São Paulo

A região do Lagamar compõe um imenso e sinuoso estuário, envolvendo os municípios de Iguape, Cananéia e Ilha Comprida (Microregião de Registro, SP) e da Baía do Paranaguá (PR), e sobe a serra, adentrando o Vale do Ribeira. Devido a sua grande quantidade de parques e áreas de preservação, além de questões econômicas e qualidade dos meios de transporte, a região é um lugar excelente para quem quer ficar longe do stress urbano, com suas praias, matas e cavernas.

O vídeo acima mostra um compilado das principais atrações turísticas de Iguape (e Jureia), Ilha Comprida, boto cinza no canal de Cananéia e Ilha do Cardoso.

Registro

O nascimento do povoado de Registro está relacionado à procura de ouro por meio de vias fluviais no rio Ribeira de Iguape. Por ser o centro do registro do ouro que ia para Portugal e articulador da produção que viajava de Iporanga até os navios do antigo porto de Iguape, ficou conhecido com o nome Porto de Registro de Ouro.

Em 1912, uma assembleia paulista selou contrato de doação sem ônus de 50 mil hectares de terra não-cultivada de propriedade do Estado na região ao Sindicato Tóquio, que a repassou a famílias que se disporiam a emigrar do Japão e a radicar-se definitivamente no Brasil. Em 1913, foi constituída a empresa de colonização Brasil Takushoku Kabushiki Kaisha (Sociedade Colonizadora do Brasil/BTKK), que sucedeu o Sindicato Tóquio neste contrato de assentamento. Após fundar a Colônia Iguape, em 1919 a BTKK sofreu fusão com a Kaigai Kogyo Kabushiki Kaisha (Companhia Ultramarina de Empreendimentos S. A./KKKK). Além do arroz, os imigrantes japoneses também estão relacionados com o cultivo do chá e do junco.

Dentre as principais atrações da cidade, estão o Bosque Municipal Torazo Okamoto, a Praça dos Expedicionários, a arquitetura japonesa da Praça Cidade de Nakatsugawa e o “Parque Prefeito José de Carvalho” (a popular “Praça Beira Rio”), situada às margens do Rio Ribeira e onde se encontrava uma árvore guaracuí, um dos símbolos do município, e agora existe uma obra também denominada Guaracuí (uma flor estilizada de 7m de altura, em aço) que a artista plástica Tomie Ohtake doou em 2002. Ainda nessa Praça, o Centro de Educação e Cultura KKKK, conhecido também como antigo Casarão do Porto, é um conjunto constituído de engenho de beneficiamento de arroz e quatro armazéns que começou a ser construído em 1919 pela KKKK à margem direita do Rio Ribeira de Iguape. O estilo inglês típico do início do século XX foi favorecido pela produção abundante de telhas e de tijolos de barro na região.

Iguape

A palavra “Iguape” tem origem na língua tupi e significa “na enseada do rio”. Possivelmente desde 1498 (4 anos após a assinatura do Tratado de Tordesilhas) já vivia na região o aventureiro espanhol Ruy Garcia Moschera, a quem é oficialmente atribuída a fundação do município. Seu centro histórico é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional como patrimônio nacional desde 2009. A 15 minutos de caminhada do centro histórico, está o Mirante do Cristo Redentor, de onde se tem uma vista panorâmica de Iguape e Ilha Comprida, do outro lado do Mar Pequeno (mistura de um dos estuários do Rio Ribeira do Iguape e do Oceano Atlântico).

Vista do centro histórico de Iguape (destaque para a Igreja Matriz, com fachada de ladrilhos) a partir do morro do Cristo. Foto: ViniRoger.

Vista do centro histórico de Iguape (destaque para a Igreja Matriz, com fachada de pastilhas) a partir do morro do Cristo. Foto: ViniRoger.

Seguindo nessa direção, atinge-se a Praia do Leste (Icapara) e a Praia da Jureia (com acesso via balsa e, por ser de mar aberto, com ondas mais fortes), que já faz parte da Estação Ecológica de Juréia-Itatins. Foi criada em uma época em que o setor imobiliário, os ambientalistas e as empresas (a NUCLEBRAS, que implantaria usinas nucleares) disputavam a terra. Nessa unidade de conservação ambiental, também podem ser visitados o Núcleo Itinguçu, a Cachoeira do Perequê, a Vila Barra do Una, o Canto da Praia da Juréia e Praia do Guaraú. A estação termina no município vizinho, Peruíbe.

Se o que busca é tranquilidade, hospede-se em algum lugar longe do centro histórico de Iguape ou em Ilha Comprida, pois é comum a Igreja tocar música realmente alto, badalar o sino a cada meia hora e a noite é comum os barzinhos colocarem música ao vivo bem alto até de madrugada.

Ilha Comprida

Emancipada em 5 de março de 1992, o município de Ilha Comprida teve o acesso via Iguape melhorado após a inauguração de Ponte Prefeito Laércio Ribeiro. Seu nome se deve por seu território ter uma extensão muito maior que a largura (74 km de extensão de praias contínuas e, no máximo, 4 km de largura em alguns pontos). Dentre as praias mais famosas, estão a das Pedrinhas (na vila de mesmo nome) e Boqueirão Norte. Para chegar em Boqueirão Sul, deve-se ir de estrada asfaltada até a balsa de Cananéia ou ir pelas praias. Nesse caso, ir pela avenida beira mar no sentido sul até o posto de bombeiros e perguntar sobre a tábua de marés, já que só dá pra ir com maré baixa – quando for passar pelos rios, tem um ponto da foz onde acumula areia e fica mais alto, podendo assim o carro passar sem entrar muito na água.

(FOTO) Dunas do Araçá - onde acaba o asfalto. Foto: ViniRoger.

(FOTO) Dunas do Araçá – onde acaba o asfalto. Foto: ViniRoger.

Para o lado interno da ilha, existe a predominância de mangues. As dunas se espalham ao longo da orla nas proximidades do Mar Pequeno. As dunas do Araçá, que ficam 7,5 quilômetros do lado esquerdo do Boqueirão, com altura de até dez metros e uma linda vista para o mar. Em vários pontos da Ilha, existem acumulados de areia com vegetação rasteira e pequenas lagoas.

O rio corta um dos 28 sambaquis da ilha. Sambaqui é um monte de conchas, resultado do acúmulo por vários anos dos rejeitos da alimentação predominantemente de ostras por povos primitivos, anteriores aos nossos índios. A maioria está ao sul da ilha, sendo que alguns já foram cobertos pela areia ou vegetação. O mais famoso é o Sambaqui do Nóbrega, que pode ser visitado. Veja mais sobre os Sambaquis da região lagunar de Cananéia no artigo do link.

Do porto (no Mar Pequeno, de frente para Iguape), é possível fazer um passeio de catamarã (um barco com ar condicionado, som ambiente e espaço no piso superior para observação das paisagens) até Marujá, na Ilha do Cardoso, e o Parque Nacional do Superagui, já no município de Guaraqueçaba (Paraná). Ele navega por 200 km ao longo do complexo lagunar estuarino, passando pelo Parque Estadual da Ilha do Cardoso, Cananéia, a curiosa Vila Fantasma, além de cenários com manguezais, botos e aves marinhas.

Cananéia

Cananéia é por alguns considerada a cidade mais antiga do Brasil (5 meses antes da fundação de São Vicente). O Centro Histórico ainda preserva os estilos arquitetônicos adotados pelas primeiras casas desde o período colonial até o final do século XIX. O município possui parte na ilha (mais antiga) e parte no continente. Uma ponte no caminho pelo Mar de Dentro liga a cidade ao continente passando pelo vilarejo de Porto Cubatão e próximo ao Parque Estadual do Lagamar de Cananéia. Da cidade, saem balsas para Boqueirão Sul (em Ilha Comprida) e barcos para outras ilhas da região.

Centro histórico de Cananéia, com igreja e marco comemorativo. Foto: ViniRoger.

Centro histórico de Cananéia, com igreja e marco comemorativo. Foto: ViniRoger.

A Ilha do Cardoso integra em seu território uma área de preservação, o Parque Estadual Ilha do Cardoso. Na praia do Itacurussá, existem armadilhas para peixes onde costumam ter os famosos botos cinzas da região saltando e se alimentando. Andando 11 km pela mesma praia no sentido mar aberto, partindo do ponto onde os barcos costumam aportar para desembarque, existe uma réplica de um dos marcos do Tratado de Tordesilhas, erguido no mesmo local onde encontrava-se o marco original, hoje parte do acervo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro. As praias, os costões rochosos e as dunas podem ser vistos na face da ilha que recebe as águas do oceano, onde se encontram as praias de Itacurussá, Ipanema, Cambriú, Fole Pequeno, Foles, Lage e Marujá.

Ilha do Cardoso - Praia do Itacurussá (ou Pereirinha ou Perequê, devido ao rio que desemboca na praia) - o rio tem a água avermelhada por causa da decomposição de matéria orgânica, de raízes e de folhas. Foto: ViniRoger.

Ilha do Cardoso – Praia do Itacurussá (ou Pereirinha ou Perequê, devido ao rio que desemboca na praia) – o rio tem a água avermelhada por causa da decomposição de matéria orgânica, de raízes e de folhas. Foto: ViniRoger.

A Vila de Marujá é um vilarejo situado na restinga da Ilha do Cardoso. Sem acesso por estrada, é um ponto para aproveitar praias e o contato com a natureza. De lá, pode-se seguir via canal para Superagui ou Ariri, passando por Ararapira.

Com relação aos passeios de barco na região: tudo é bem improvisado. Você chega na orla de onde saem os barcos e conversa com os responsáveis pelos passeios. Conforme conseguem colocar pelo menos quatro pessoas em uma embarcação, você consegue sair para o passeio. E só vão até a praia de Itacurussá. Isso dá uns 20 minutos de ida na voadeira. Para a vila de Marujá, que é uma hora e meia de ida, só com grupos maiores. Provavelmente vão te falar que vai e volta barco direto de lá, que pode voltar a hora que quiser, mas o que acontece é que fazem algumas viagens de manhã e só pegam de volta depois das 15 horas, para você comer nas barracas da ilha, que são dos mesmos donos dos barcos. Ou então dizem que vão para Marujá e de lá pra vila fantasma, mas quando chegar lá você descobre que deve tratar com alguém de lá (e pagar de novo) pra fazer a viagem para Ararapira.

Ararapira

A vila de São José de Ararapira foi um dos primeiros povoados do Brasil, fazendo parte das 21 vilas fundadas pela coroa portuguesa no século XVIII. Atualmente, pertence ao município de Guaragueçaba (PR). Localizada em um ponto estratégico, cresceu e prosperou com o comércio da região até meados do século 19. Até a década de 1920, Ararapira era paulista, mas virou território paranaense por decreto. Mergulhou em maior decadência com a construção do canal do Varadouro, em 1952/53, e formação da ilha artificial de Superagui. Como consequência, houve um aumento considerável do nível da água do mar, ocasionando o inicio da decadência da vila. A maré, mais feroz após a abertura do Canal do Varadouro, está em constante duelo com a orla, desbarrancando-a pouco a pouco. Muitas casas já foram engolidas, o que é notado pelos escombros. Além disso, estradas pelo interior absorveram o tráfego de pessoas entre Curitiba e São Paulo. Muitos saíram dali para fundar do lado a vila de Ariri.

Dessa forma, Ararapira foi aos poucos se tornando uma “Vila Fantasma“, como também é conhecida. De tempos em tempos, antigos moradores e familiares ainda vão até a vila para cuidar de seus mortos que por lá ficaram. A Igreja de São José, construída no fim do século XIX, celebra festa no dia do santo uma vez por ano.

Também é possível ir a Ararapira e Marujá por barco saindo de Ariri. Para chegar nessa vila de Cananéia, deve-se pegar 45 km em estrada de terra saindo de Cananéia e depois pegar uma bifurcação à esquerda (seguindo pela direita, dá em uma estrada muito ruim que vai para Guaragueçaba e Morretes, no Paraná). Veja mais nesse relato relato de motociclistas que foram para Ariri, Ilha do Cardoso e Caminho do Itupava.

Por mais incrível que pareça, existe um passeio no Google Street View via barco e caminhada que permite você conhecer a região sem levantar da cadeira.

Cavernas

Um pouco mais ao norte dessa região, ainda na parte sul do estado de São Paulo, estão os municípios de Eldorado, Iporanga e Apiaí, famosos por seus complexos de cavernas. O Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (PETAR) faz parte do Mosaico de Unidades de Conservação do Paranapiacaba, composto também pelo Parque Estadual Intervales e outros. Abrange uma das províncias espeleológicas mais importantes do Brasil, com mais de 300 cavernas cadastradas.

A Caverna do Diabo é a maior caverna do estado de São Paulo e está preparada para o turismo. Também conhecida como Gruta da Tapagem, é famosa por suas formações e pela grande dimensão de seus salões internos. Dos 8 mil metros de extensão, apenas 800 metros estão livres para os turistas, com escadas e passarelas de concreto e iluminação artificial.

Curiosidades do português

É comum chamar os habitantes do litoral paulista como “caiçaras”, resultado da miscigenação entre índios, negros e colonos portugueses. A origem da palavra remonta a uma técnica usada para atrair o pescado, podendo ser considerada hoje um método de maricultura extensiva.

E Cananéia se escreve com ou sem acento? De acordo com o novo acordo ortográfico (2009), não se usa o acento agudo nos ditongos abertos “ei” e “oi” das palavras paroxítonas. No entanto, para ressalva de direitos, pode manter-se a grafia original de quaisquer firmas comerciais, nomes de sociedades, marcas e títulos que estejam inscritos em registro público, incluindo-se aqui os nomes das nossas cidades. Diferente é o caso de nomes de países e lugares que não são originais da língua portuguesa e sofreram tradução.

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