Deus é inocente: a imprensa não

Publicada em 2002, o livro de Carlos Dorneles traz o resultado de um amplo estudo sobre a atuação da imprensa em cobertura de guerras. O jornalista analisa com riqueza de detalhes a cobertura da mídia sobre os eventos que sucederam à queda das torres gêmeas, no dia 11 de setembro de 2001, e o ataque ao Afeganistão, até um ano depois dos atentados.

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Imagine uma televisão que adota um alinhamento automático com o governo de seu país, recomenda a seus repórteres que sejam patriotas, admite declaradamente a propaganda contra o “inimigo” e censura pronunciamentos de quem é contrário ao discurso oficial. Não seria uma aberração para os padrões ocidentais da chamada liberdade de expressão? Imagine então que esse canal tem o nome de Al Jazira. Seria difícil então imaginar o bombardeio que ele receberia da imprensa desse lado de cá do mundo? Mas como essa televisão não se chama Al Jazira, mas sim CNN, nossos padrões de reação são outros.

O título serve para mostrar que a religião serviu apenas como pano de fundo e desculpa para ações de conflito pelo poder na economia de uma região. José Saramago já comentou em artigo “Deus está inocente (…) Desconfiem do fator Deus”, para serem muito críticos daqueles usam o nome de Deus para promover qualquer política.

Estados Unidos

Um mês depois dos ataques, o presidente George W. Bush sancionou a “lei de combate ao terrorismo”, que amplia os poderes de autoridades federais para grampear telefones, rastrear internet, e-mails e celulares, e outras formas de restrição da liberdade e aumento de controle. Em 2001, a organização Repórteres Sem Fronteiras colocou os Estados Unidos na lista dos países que prejudicam a liberdade de imprensa.

Na época, foi muito noticiado que esporos de antraz de alta virulência foram introduzidos sob a forma de pó em envelopes enviados a várias figuras públicas nos EUA. Na mídia, sempre aparecia o fato ligado ao terrorismo promovido pela Al-Qaeda, Iraque ou outros governos e laboratórios estrangeiros. Depois das notícias diminuírem de frequência na imprensa, o FBI afirmou que já havia identificado o responsável, e que interrogara-o duas vezes. Ele era um cientista que trabalhou no laboratório militar de Fort Detrick (Maryland), que não foi preso por saber segredos militares.

Após um 1 ano do 11 de setembro, os gastos com segurança dobraram de 19 para 37.7 bilhões de dólares. Segundo a ONU, 50 bilhões seriam o suficiente para resolver boa parte de questões do mundo todo, como problemas de saúde, distribuição de água e erradicação da pobreza. Mas o secretário de defesa do governo dos EUA, Donald Rumsfeld, foi um dos que disse que essas verbas ainda eram insuficientes. Realmente, o setor da indústria bélica lucrou bastante.

Afeganistão

Antes mesmo dos atentados, os EUA já tentavam instalar um oleoduto atravessando Afeganistão e Paquistão até chegar ao Oceano Índico. O presidente Bush também já havia recebido informações dos serviços de espionagem alertando que Osama bin Laden poderia estar planejando sequestrar três aviões americanos.

Mesmo com a lei islâmica, repressão às mulheres e violações dos direitos humanos, o Talibã foi apoiado no início pelos EUA – basta ver o apoio dado pela mídia do cinema no filme “Rambo 2”, em que Sylvester Stallone luta ao lado dos soldados Talibãs. Eles haviam até acabado com as plantações de papoula (fonte do ópio), que depois cresceu bastante nas áreas controladas pela Aliança do Norte. Sob domínio dos aliados, a situação não mudou muito para os afegãos.

Civis confundidos com membros da Al-Qaeda e do Talibã foram presos e espancados em uma base dos EUA. Um dos 27 prisioneiros que foram libertados era agricultor e policial no novo governo pró-Estados Unidos. Sobre sua passagem com os soldados norte-americanos, ele disse “nos socaram e chutaram. E diziam ‘Você é terrorista! Você é da Al-Qaeda!”. Nos ataques aéreos, as bombas mataram soldados dos próprios EUA, Canadá, Aliança do Norte (afegãos aliados dos EUA), destruíram um hospital, prédios da Cruz Vermelha, do escritório da ONU e mataram vários civis.

Anos depois do início dos ataques, não pegaram nenhum dos grandes da Al-Qaeda (incluindo Osama Bin Laden, que anos depois foi encontrado no Paquistão) e o país permanece em estado de guerrilha contra o Talibã até hoje.

É comum a imprensa mostrar somente trechos curtos dos vídeos de Bin Laden e outros, sem mostrar o conteúdo total com seus pontos de vista. Em um dos trechos censurados de um vídeo mostrava imagens de mulheres palestinas sendo espancadas por soldados israelenses. Se o público quer entender as causas do ódio aos Estados Unidos, precisa desse tipo de informação.

Israel e Palestina

Um ponto levantado no livro é o tratamento diferenciado em atentados promovidos por grupos israelenses e palestinos: quando são assumidos por grupos palestinos, a mídia os classifica como “atos terroristas”, e seus protagonistas não têm nome, não têm história. São simplesmente “terroristas”, bárbaros sem motivação senão a própria barbárie, esvaziados que são das motivações políticas, econômicas e sociais dos seus atos extremos. No entanto, quando uma bomba explodiu na porta de um colégio palestino em Jerusalém Oriental, onde sete crianças e um professor ficaram feridos, no “Jornal do Brasil” o título era “Israelenses radicais atacam crianças”. Em “O Globo, “Justiceiros judeus atacam escolas” – o atentado foi assumido por um grupo judeu que se autodenominou “Vingadores de Crianças”.

Note que a imprensa não cumpre aquela função básica que qualquer aluno de jornalismo aprende na faculdade: ser independente, dar voz para todos os lados, ouvir todos os envolvidos. Princípios primários do jornalismo, como a checagem das informações e a pluralidade das fontes, não foram respeitados. É preciso dar visão de uma sociedade sob todos os ângulos, com todas as suas facetas, e não acreditar na versão de um lado só, não se submeter ao lado mais forte, de quem tem o poder. Às vezes, isso pode ser feito de uma maneira inocente, mas geralmente sem inocência e com cumplicidade.

No dia seguinte à tragédia do 11 de setembro, haviam títulos em destaque nos principais jornais brasileiros dizendo “palestinos comemoram” com fotos da agência Reuters*. No entanto, essas fotos mostravam um grupo de não mais do que 30 pessoas, a maioria crianças, pulando em frente a um fotógrafo.

* A maioria das empresas e organizações da mídia não possui correspondentes (repórter baseado fixamente numa cidade estrangeira e cobre as notícias da região em que se encontra). Assim, elas recorrem às agências de notícia: empresa jornalística especializada em difundir informações e notícias diretamente das fontes para os veículos de comunicação. A Reuters e a EFE estão entre as maiores do mundo.

Em março de 2002, tropas de Israel invadiram cidades palestinas, mas não permitiram a entrada de organizações independentes, observadores da ONU ou repórteres. Os moradores de Jenin ficaram sem luz, águia e comida. Bombeiros e médicos foram impedidos de atender feridos e retirar corpos das ruas. Parecia que o alvo do governo israelense era a infraestrutura de um futuro estado palestino.

Mesmo havendo mortos e feridos de um lado só, a mídia chama de batalha ou enfrentamento entre israelenses e palestinos. A Anistia Internacional acusou Israel de cometer violações de direitos humanos “em escala sem precedentes”, com bombardeios ilegais em áreas residenciais, assassinatos seletivos, tortura de presos e demolições de casas palestinas em grande escala.

Iraque

O Iraque é o segundo maior produtor de petróleo do mundo e era um dos países mais desenvolvidos do mundo árabe, com muitas conquistas feministas e problemas com pobreza bem menores que os vizinhos. No entanto, o governo de Saddam Hussein vinha assinando acordos com empresas francesas, alemãs, russas, chinesas e japonesas para a exploração dos campos de petróleo desde meados dos anos 1990. Situação essa muito ruim para os negócios das empresas norte americanas que financiaram a campanha de Bush para a presidência.

José Maurício Bustani, quando diretor geral da Organização para a proscrição de Armas Química (órgão ligado à ONU), conseguiu promover a destruição de dois milhões de armas químicas e dois terços das instalações para sua fabricação no mundo, assim como aumentou de 87 para 145 o número de países signatários. No entanto, o sucesso de Bustani era a solução de um tema que os EUA não querem ver solucionado. Ele mesmo disse que o governo americano queria que ele assinasse relatórios em branco sobre inspeções de armas químicas dentro dos Estado Unidos que na verdade nunca foram feitas.

Conclusões

O livro apresenta vários pontos que a imprensa mundial não noticiou ou o fez de maneira discreta e superficial. Dessa forma, a população sob influência dessa mídia não pode desenvolver corretamente uma opinião a respeito, pois não dispunha de boa parte da informação. Não precisavam mentir, apenas omitir ou mudar a relevância dos fatos.

Patriota não deve ser alguém que obedeça cegamente, pois imagine que os governantes estabeleçam regras que levem o país diretamente para o caos? Quem quer o bem de sei e seu país deve permanecer consciente e crítico a todo tipo de ação política.

Uma grande mensagem que fica é a de ler, ouvir e ver com o senso crítico aguçado, fazendo sempre as perguntas “quem, quando, onde, como e porque”. Veja os resumos dos filmes de Michael Moore no post com dicas de filmes para não ficar alienado, que abordam várias questões sobre a política dos Estados Unidos.

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