Como os aviões escrevem no céu?

Provavelmente você já viu aviões deixando rastros no céu, de maneira intencional ou não. Descubra como isso acontece.

Trilhas de condensação

Sabe aquela “fumacinha” que sai da boca quando soltamos ar úmido ao respirar em um dia frio? Isso acontece porque o vapor de água (invisível) sai da sua boca durante a respiração e passa para o estado líquido, formando minúsculas gotículas. Quando um volume de ar sobe na atmosfera com o vapor d’água da superfície, ele também esfria e acontece o mesmo processo para a formação de nuvens.

Tilhas de condensação nos céus de Veneza. Foto: ViniRoger.

Tilhas de condensação nos céus de Veneza. Foto: ViniRoger.

Gases quentes que saem das turbinas encontram ar mais frio ao redor e o vapor d’água, resultado da queima do combustível, condensa ou sublima (forma partículas de gelo). Também pode se formar devido à queda de pressão e temperatura nos centros de vórtices que partem das pontas das asas. Esse efeito é conhecido como trilha de condensação ou contrail, podendo durar várias horas ou serem dissipadas rapidamente, conforme a situação dos ventos em altitude.

Apesar de comum, as trilhas de condensação não são feitas intencionalmente, e frequentemente só formam um traço no céu, denunciando onde estava o avião. Mensagens mais elaboradas e premeditadas são feitas de outras formas.

Imagens e mensagens no ar

As aeronaves que fazem mensagens no céu deve ter uma alta manobrabilidade para permitir curvas em ângulo fechados, com um piloto treinado para esse fim. Além disso, ela deve possuir um tanque de óleo especial, que passa pelo motor e sai pelo escapamento a altíssimas temperaturas. Em contato com esse calor, o óleo deixa de ser líquido e vira vapor, dando origem aos traços brancos que a gente vê no céu. Em dias sem vento, a fumaça fica 30 segundos intacta no céu.

Leque de fumaça executado pela Esquadrilha da Fumaça nas festividades do 7 de setembor em 2011. Foto: Wikimedia.

Leque de fumaça executado pela Esquadrilha da Fumaça nas festividades do 7 de setembro em 2011. Foto: Wikimedia – Dilma Rousseff.

Em um show de 35 minutos, podem ser utilizados até 40 litros de óleo industrial, usado normalmente como lubrificante de peças. Ao comando do piloto (aperto de um botão no manche), o óleo é impulsionado por uma bomba hidráulica e percorre uma pequena tubulação, passando pelo motor e chegando ao escapamento do avião. Instalado na parte dianteira direita da aeronave, o escapamento recebe o óleo a uma temperatura entre 400 e 450 ºC. Com o calor, o líquido evapora, vira fumaça e é solto no ar.

As manobras aéreas no Brasil são feitas desde 1952, quando um grupo de pilotos da Aeronáutica no Rio de Janeiro usava o tempo livre na hora do almoço para treinar manobras radicais. A primeira escrita que o grupo fez foi sobre a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ), em 1956, quando quatro aviões escreveram “FAB” no céu. De lá para cá, o grupo se tornou um braço oficial das Forças Armadas, ganhando o nome de Esquadrão de Demonstração Aérea (popularmente chamado de “Esquadrilha da Fumaça”) e uma sede em Pirassununga/SP.

Aviões da Esquadrilha da Fumaça. Foto: FAB Divulgação

Aviões da Esquadrilha da Fumaça. Foto: FAB Divulgação

Dos aviões utilizados, inicialmente estavam o North American Texan T-6, depois o Embraer Tucano T-27 e o Embraer Super Tucano A-29. Veja mais sobre esses aviões nos links e sobre os voos nesse vídeo do Manual do Mundo:

Atualmente, eles voam a uma altura de mais ou menos 2.440 metros, onde sete aviões se posicionam uma ao lado do outro, com uma distância de três metros entre eles e uma velocidade de 370km/h. Dentre as manobras realizadas, estão:

  • Leque de fumaça – uma sequência de sete loopings que começa com seis aviadores partem da formação em seta, rasgando o céu de cima para baixo. Depois do primeiro looping, as aeronaves se enfileiram em linha reta e, voando paralelamente ao chão, cada avião desenha um outro looping de 180 graus e pousa na pista, deixando o leque no céu
  • Coração – as aeronaves partem juntas com formação em seta, vindos de cima para baixo. O grupo de seis aviões endireita a rota e se divide em dois trios, cada um desenhando uma das metades do coração. O desenho chega a ter 1 200 metros de altura, com uma base a 300 metros do chão.

Além das acrobacias, os aviões da Esquadrilha da Fumaça brasileira costumam escrever mensagens no céu durante suas apresentações. Nesse caso, a maioria das ações são controladas via computador.

Com mensagens geralmente escolhidas pelo Centro de Comunicação Social da Aeronáutica, é feito um cálculo de quanto óleo será necessário para queimar e liberar a fumaça para a escrita no céu. Esse cálculo é feito por por um programa de computador criado em 2013 pela Embraer, chamado Proesa (Programa de Escrita Aérea). Após o cálculo, os dados são salvos em uma espécie de pendrive e transferidos para o computador de cada um dos sete aviões que fazem parte da apresentação. O piloto só precisa apertar o botão para liberar pequenas quantidades de fumaça conforme o computador de bordo informar.

O vídeo acima mostra um exemplo de escrita no céu usando essa técnica. Cada letra tem, aproximadamente, 100 metros de altura. Algumas frases chegam a ter um comprimento de três quilômetros.

Fontes

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Um Pingback/Trackback

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  • Engenheiro Web
  • Samantha

    Muito bom! Eu realmente nunca tinha pensado nisso. Além disso, os pilotos precisam contar com a sorte (ou consultar a previsão do tempo antes, hehehe) para encontrarem uma condição de estabilidade de modo que a mensagem ficará no céu por mais tempo, se estiver estável (eu deduzo).

    Para rir um pouco, lembrei desse episódio dos Simpsons, em que Homer quer arruinar os planos românticos de Apu (e um desses planos é escrever uma mensagem romântica aérea para Manjula): http://simpsons.wikia.com/wiki/I'm_with_Cupid

    • Vinicius Roggério da Rocha

      Pois é, precisa de atmosfera estável e que não esteja em um nível muito alto, se não ninguém enxerga aqui embaixo. Creio que com essa técnica de “impressora matricial” da Embraer fique mais rápido e preciso para escrever as palavras antes que os ventos e a turbulência a destrua.

      Lembrei desse episódio também! rsrs Seria legal se realmente tivesse esse serviço de encomendar para um piloto fazer um desenho simples no céu, mas devido à perícia do piloto acho que ia sair bem caro.