Acumuladores compulsivos

por Maria Auxiliadora Roggério

DISPOSOFOBIA ou ACUMULAÇÃO COMPULSIVA  (Compulsive Hoarders) é uma doença que afeta 4% da população geral. Caracteriza-se por aquisição compulsiva e acúmulo de objetos inúteis para a maioria das pessoas, a incapacidade de usá-los e o medo de descartá-los.

Compulsão – Trata-se de um comportamento estereotipado, repetitivo, indesejado e que, embora desnecessário, a pessoa não consegue deixar de praticá-lo. Geralmente, compulsões são associadas a obsessões.

Obsessão – É uma ideia, imagem ou impulso também indesejados que surgem ao pensamento de forma persistente e anormal e que geram ansiedade ou aflição intensa.

Um ato compulsivo é carregado de sofrimento pelo insucesso na luta contra a compulsão. A pessoa sente-se compelida a realizar ações repetidamente, como forma de aliviar a pressão dos pensamentos obsessivos ou de regras rígidas. Já, um ato impulsivo surge ocasionalmente, de modo inesperado, acompanhado de forte estado emocional que leva o sujeito a agir em busca de satisfazer uma necessidade, basicamente corporal.

Os impulsos não têm uma finalidade consciente. A pessoa não pensa a respeito, partindo diretamente para a ação; possivelmente, em virtude de uma intensificação dos impulsos ou de um enfraquecimento dos mecanismos de inibição e recalque. Diferentemente das compulsões, nas quais a ação não é imediata, há certa deliberação consciente e resistência contra o ato que, em geral, apenas produz alívio temporário.

Nas síndromes compulsivas, ocorre a repetição de rituais e comportamentos – como, por exemplo, banhos excessivos, lavar as mãos muitas vezes, inúmeras verificações de portas trancadas, fechamento de gás, etc. – e atos mentais – repetir palavras mentalmente, rezar, fazer contas, entre outros. A realização de atos e rituais compulsivos relaciona-se à tentativa de afastar algo temido (como fazer algo mágico para que não morra alguém na família) ou submeter-se a determinadas regras imaginárias que não podem ser confrontadas.

As pessoas acometidas pela compulsão em acumular não enxergam a acumulação como um problema real. Não sabem como iniciou e vai evoluindo com o tempo. Guardam para alguma necessidade ou eventual emergência.

Por trás do comportamento compulsivo há grande sofrimento, uma compensação mórbida de algo que a aflige. Pode ser um indicador de medo, arrependimento, frustração, ansiedade, depressão, dificuldades financeiras, luto.

Acumulação compulsiva é diferente de colecionismo normal. Colecionar é um hobby, não interfere na sociabilidade. O colecionador escolhe o tema, procura e adquire os itens para sua coleção, organiza os objetos e procura mantê-los protegidos em local adequado. O acumulador não tem controle do que possui, não sabe porque adquire os objetos, não consegue organizar o espaço. No colecionismo patológico, os objetos não têm outro valor que não seja o de propiciar conforto, sensação de controle e segurança; tentativas de substituição de algo perdido.

Sinais de acúmulo compulsivo

– Acúmulo de objetos sem organização, sem lógica ou utilidade como: jornais, revistas e livros velhos, roupas sem condição de uso, produtos estragados (remédios, alimentos), aparelhos elétricos/eletrônicos quebrados, embalagens e recipientes diversos, móveis velhos, produtos químicos, restos de material de construção, lixo, etc. A aquisição dos objetos se dá por compra compulsiva, coleta livre ou até mesmo furto.

– A moradia perde sua função. Os ambientes vão sendo adaptados conforme os objetos se acumulam. Começa, por exemplo, com um armário ou um canto do quarto para guardar os objetos e logo o quarto está todo tomado. Em seguida, a sala, o banheiro, etc. até que todas as dependências da casa estejam deterioradas, ocupadas pelo que foi acumulado. Estratégias vão sendo criadas e implementadas para que os moradores possam locomoverem-se entre as pilhas de quinquilharias.

– Incapacidade em se desfazer, doando ou jogando fora os objetos, mesmo inúteis, perigosos ou insalubres.

– Perda de controle sobre o que foi acumulado.

– Acúmulo de animais domésticos, falta de condições para abrigá-los e/ou alimentá-los adequadamente, e incapacidade em doar os animais em excesso (Síndrome de Noé).

– Dificuldade ou total incapacidade em realizar atividades básicas cotidianas como asseio da casa e pessoal, preparo de refeições, dormir na cama.

– Falta de percepção e relutância em aceitar que o acúmulo é um problema (Negação do problema).

– Isolamento social, por vergonha, constrangimento ou dificuldade em lidar com a situação. A perda dos vínculos sociais geralmente ocorre quando há um confronto com familiares, amigos ou vizinhos. Prefere não receber mais visitas em casa para que não vejam o ambiente bagunçado.

– Não permite que alguém limpe, arrume/organize sem a sua supervisão.

Um comprador compulsivo também pode se tornar um acumulador. O sujeito procura por brechós, ofertas, lojas de oportunidades para pagar pouco e comprar mais. Compra no impulso objetos sem utilidade e dificilmente os usa; geralmente, os produtos permanecem nas embalagens originais ou em sacolas, em algum canto da casa. Invariavelmente, no momento da compra, essa pessoa estava tomada por um sentimento de tristeza, ou baixa autoestima ou dificuldades em relacionamentos e a aquisição do produto representou uma satisfação momentânea, um certo alívio emocional. Mas, como a verdadeira razão para esse comportamento permanece no inconsciente, sem investigação, essa válvula de escape que se apresentou no momento da compra compulsiva reaparecerá indefinidamente, como em um círculo vicioso.

Em meio ao ambiente insalubre, estão pessoas que necessitam de cuidado.

Além do prejuízo emocional que a pessoa e seus familiares sofrem, ocorrem também prejuízos nas áreas sociais, ocupacionais e ambientais.

Numa situação de gravidade extrema em que se observam a acúmulo compulsivo de materiais inservíveis, falta de higiene e/ou maus tratos com animais, riscos de incêndio ou de doenças, infestação de insetos e roedores, não basta identificar os sinais, remover tralhas e animais e promover limpeza do local. É preciso ouvir a pessoa, conhecer sua história de vida, identificar qual situação funcionou como gatilho, para entender o que ela deseja com esse comportamento.

O gatilho que desencadeia a Disposofobia pode estar atrelado a eventos traumáticos, dificuldades de relacionamento, a alguma situação estressante na qual o indivíduo passa a perceber o mundo como inóspito, imprevisível, incontrolável. Sente-se desamparado e inseguro e, na busca por sentir-se seguro, constrói com os objetos acumulados um muro simbólico em torno de si, para protegê-lo do perigo permanente e livrá-lo de um estado de aflição constante.

Alguns pesquisadores referem que o Transtorno de Acumulação está ligado a experiências de privação emocional na infância e que acumuladores compulsivos sofreram privação material em alguma etapa de suas vidas.

A Disposofobia pode ou não vir associada a demências, depressão, transtorno de humor bipolar, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno obsessivo-compulsivo, fobia social, esquizofrenia entre outros.

Tratamento

A dificuldade em controlar os impulsos e lidar com a ansiedade que levam à necessidade de aquisição constante de objetos carece de intervenção terapêutica adequada, com a utilização de técnicas cognitivo-comportamentais.

A psicoterapia é direcionada a diminuição do sofrimento que o sujeito apresenta ao se desfazer do material acumulado e a auxiliá-lo a modificar suas crenças sobre organização e acumulação.

Para livrar-se dos objetos e da compulsão, o trabalho conjunto de profissionais como psicólogo, psiquiatra, organizador de ambientes, assistentes sociais, enfermeiros e, também, de familiares do enfermo é imprescindível para que o indivíduo consiga descobrir o fator desencadeante desse comportamento; aprenda a organizar suas posses e descarte inutilidades; desenvolva habilidades de tomada de decisões; desenvolva estratégias para modificar hábitos compulsivos; desenvolva habilidades de relaxamento; adote um estilo de vida saudável para melhor qualidade de vida.

Sessões terapêuticas na casa do paciente e terapia em grupo também podem apresentar resultados satisfatórios na diminuição dos sintomas depressivos e ansiosos e na redução do comportamento acumulativo.

Referências

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