Acidentes aéreos com raios

A segurança na atividade área comercial (pensando em passageiros) envolve o período que uma pessoa embarca com a intenção de realizar um voo até o momento em que todas tenham embarcado. Podem acontecer acidentes (lesão grave ou morte, dano ou falha que afete a estrutura/desempenho/voo, desaparecimento ou queda em local inacessível), incidentes (afeta ou possa afetar a segurança) ou incidente grave (quando um acidente quase acontece, como incapacitação e tripulante, fogo ou fumaça, etc).

Para-brisas de um Boeing 787-8 da Air Europa danificado após avião ser atingido por um raio em voo no dia 24/05/2017 partindo do aeroporto de Miami com destino a Madri; avião retornou e fez o pouso em segurança. Fonte: 10 news

Os resultados da investigações dos acidentes/incidentes podem durar vários anos e serem retomados mesmo depois de concluídas as investigações, ao surgirem novas evidências. Provavelmente por isso, é comum o relatório final sair com bem menos destaque na mídia. O objetivo de se conhecer as causas de um acidente nem sempre é busca um culpado para punição, e sim PREVENIR novos acidentes – mentalidade essa que poderia ser aplicadas nas mais diferentes áreas.

Estatísticas

A maior parte dos acidentes acontece nos procedimentos de pouso (maioria) ou decolagem. É importante destacar que existe mais de um fator que contribui para causar um acidente/incidente aéreo. Por exemplo, no filme “Um dia de fúria”, o protagonista passa por vários problemas, como perder o emprego, problemas familiares e com o carro, até “estourar” em uma lanchonete e em outras situações ao longo do dia.

A Flight Safety Foundation é uma organização internacional sem fins lucrativos formada em 1947 com o objetivo de fornecer de forma imparcial e independente, orientação de segurança e recursos para a aviação e indústria aeroespacial. Um de seus serviços é a Aviation Safety Network (ASN), uma iniciativa privada fundada em 1996 com o objetivo de catalogar acidentes e questões de segurança no que diz respeito aos aviões, aviões de transporte militar e jatos corporativos. O banco de dados de segurança ASN contém descrições detalhadas de mais de 20.300 incidentes, sequestros e acidentes, com base em informações de fontes oficiais como autoridades governamentais, conselhos de segurança, ICAO (International Civil Aviation Organisation) Aircraft Accident Digests, NTSB (National Transportation Safety Board), etc.

No banco de dados da ASN, é possível realizar buscas de acidentes e incidentes (o primeiro registro foi de um avião dos irmãos Wright, o Wright Flyer III, em 14 de julho de 1905) envolvendo aeronaves, balões, planadores, giroscópios, helicópteros, ultraleves, veículos aéreos não-tripulados e zeppelins ou restringir a aviões de linhas aéreas (que possam carregar 12 ou mais passageiros), miltares e civis. Nesse caso, a busca pode ser por ano, companhia aérea, tipo de avião, região/país, aeroporto ou causa.

Meteorologia

É possível classificar os acidentes conforme os fatores que o geraram, como falhas estruturais, navegação, tripulação, fogo, manutenção, etc. Considerando fatores do tempo (meteorológicos), até o início de 2017 eram contabilizados 578 acidentes/incidentes. Estes podem ser divididos nas seguintes sub-categorias:

  • Cinzas vulcânicas
  • Chuva forte
  • Gelo
  • Queda de raios
  • Tempestade de areia
  • Tempestade
  • Turbulência/vento cruzado, etc (sem windshear)
  • Restrição à visibilidade
  • Windshear/downdraft

Alguns acidentes viraram episódios da série May Day! Desastres Aéreos – veja mais sobre a série e alguns episódios envolvendo causas meteorológicas clicando no link.

Considerando que uma aeronave é composta por uma carcaça metálica e descarregadores de estática, é de se esperar que seja seguro voar mesmo que um raio atinja o avião. Isso porque a estrutura vai conduzir a corrente elétrica pelo exterior. Mesmo aeronaves compostas de materiais novos, menos condutores, possuem fiação de cobre específica para garantir a condução dos elétrons para fora da aeronave.

No entanto, estão registrados 24 acidentes em que um dos fatores que contribuíram para causar o acidente/incidente está a queda de raios. Vamos entender um pouco melhor como a ocorrência do raio influenciou no acidente:

  1. Em 31/08/1940, avião Douglas DC-3-313 nos Estados Unidos (25 vítimas): no relatório, está escrito “the disabling of the pilots by a severe lightning discharge in the immediate neighborhood of the plane, with resulting loes of control”; só que um raio atingir um avião não implica em perda de controle, ou seja, o mais provável (não se tem comprovação) é que além do raio, tenha acontecido cisalhamento de vento, causando a queda
  2. Em 14/06/1945, avião Curtiss C-46D nos Estados Unidos (17 vítimas) – um raio atingiu a asa e o avião começou a perder altitude até atingir o chão
  3. Em 13/05/1949, avião Ilyushin 12P na Rússia (25 vítimas) – avião entrou em uma área de tempestade e o primeiro oficial e o operador de rádio foram incapacitados por um raio
  4. Em 09/01/1951, avião Ilyushin 12P na Rússia (8 vítimas) – um raio atingiu o tanque de combustível traseiro esquerdo, que explodiu e causou um incêndio, assim como a perda de controle e queda da aeronave
  5. Em 27/01/1951, avião Savoia-Marchetti SM-95B na Itália (14 vítimas) – fogo em voo, devido a um raio atingindo a asa e acender uma mistura de ar e vapores de gasolina em um dos painéis da asa ou tanques de combustível
  6. Em 14/06/1953, avião Ilyushin 12 na Geórgia (18 vítimas) – novamente é afirmado que o avião foi atingido por um raio e perdeu o controle (“The airplane was struck by lightning and entered an uncontrolled dive”), sendo mais provável ter acontecido cisalhamento de vento e isso ter gerado a perda de controle
  7. Em 26/06/1959, avião Lockheed L-1649A Starliner na Itália (68 vítimas) – explosão no tanque de combustível causou a queda do avião; suspeita-se que a ignição tenha ocorrido por uma descarga elétrica devido ao acúmulo eletrostático em um campo elétrico intenso (“efeito corona”)
  8. Em 22/06/1962, avião Boeing 707-328 em Guadalupe (113 vítimas) – raios teriam interferido na comunicação do sistema de navegação ADF (automatic direction finder)
  9. Em 12/08/1963, avião Vickers 708 Viscount na França (16 vítimas) – além da redução de visibilidade devido à tempestade, considera-se que um relâmpago tenha causado cegueira temporária em ambos os membros da tripulação
  10. Em 08/12/1963, avião Boeing 707-121 nos Estados Unidos (81 vítimas) – ignição induzida pelo relâmpago na mistura ar/combustível no tanque de combustível reserva, com desintegração explosiva resultante da asa externa esquerda e perda de controle
  11. Em 18/04/1967, avião Lockheed C-130E Hercules no Irã (23 vítimas) – queda após a ocorrência de um raio (devido a falta de informações, não é possível saber a relação entre o raio e a queda do avião)
  12. Em 24/12/1971, avião Lockheed L-188A Electra no Peru (91 vítimas) – relâmpago atingiu a aeronave, causando incêndio na asa direita que se separou, juntamente com parte da asa esquerda; no entanto, o avião estava carregado demais para enfretar uma tempestade, o que por si só já causava um grande esforço estrutural
  13. Em 09/05/1976, avião Boeing 747-131F na Espanha (17 vítimas) – um raio atingiu a parte dianteira da aeronave e saiu de um descarregador estático na ponta da asa esquerda, ocorrendo uma concentração de corrente na junta rebitada entre uma cinta de ligação e uma nervura de asa, que era suficientemente condutora para fazer com que a corrente elétrica voltasse a ligar a este rebite em vez de seguir somente para o descarregador; isso causou a ignição do vapor de combustível preso no tanque
  14. Em 30/11/1978, avião Lockheed C-130E Hercules nos Estados Unidos (6 vítimas) – queda após a ocorrência de um raio (devido a falta d einformações, não é possível saber a relação entre o raio e a queda do avião)
  15. Em 05/09/1980, avião Lockheed L-100-20 Hercules na França (8 vítimas) – queda após a ocorrência de um raio (devido a falta d einformações, não é possível saber a relação entre o raio e a queda do avião)
  16. Em 08/02/1988, avião Swearingen SA227-AC Metro III na Alemanha (21 vítimas) – o fornecimento total de eletricidade falhou devido a um raio em condições de voo por instrumento, causando a falha da iluminação do cockpit e dos instrumentos, tornando impossível controlar os flaps e outras superfícies aerodinâmicas (modelo não possui APU – Auxiliar Power Unit)
  17. Em 26/02/1998, avião Fokker 100 nos Estados Unidos (sem vítimas) – o projeto de proteção contra raios do avião entre os estabilizadores horizontais e verticais era inadequado para suportar a descarga elétrica de um raio, o que resultou em danos nos sistemas hidráulicos
  18. Em 14/08/2000, avião Rockwell Sabreliner 75A nos Estados Unidos (2 vítimas) – cisalhamento de vento em meio à tempestade foi a principal causa de falta de controle na aeronave, e não o raio em si
  19. Em 06/07/2001, avião Lockheed L-1011-385-1-14 TriStar 15 na França (sem vítimas) – área de tempestade não apareceu tão destacada na imagem de radar (provavelmente por atenuação do sinal), mas os problemas foram devido à ocorrência de granizo e não de raios
  20. Em 10/10/2001, avião Swearingen SA226-AT Merlin IVA na Espanha (10 vítimas) – perda total do sistema elétrico, causada por um relâmpago no meio da tempestade, sem que a tripulação pudesse recuperar
  21. Em 27/12/2002, avião Let L-410UVP nas Ilhas Comoros (1 vítima) – o avião foi atingido por um raio na aproximação final da pista; foi feita uma tentativa de arremeter mas o avião perdeu os horizontes artificiais e compassos giroscópicos como resultado do raio; sem controle, o avião caiu
  22. Em 04/12/2003, avião Dornier 228-202 na Noruega (sem vítimas) – até 30% dos fios em ligações entre a fuselagem, o estabilizador horizontal e o profundor podem ter sido quebrados antes do raio ter atingido; essas ligações não foram capazes de conduzir a energia elétrica do raio e a haste de transferência da cabine para o profundor foi rompida, levando a descontrole e queda do avião
  23. Em 29/11/2013, avião Bombardier DHC-8-402Q Dash 8 no Japão (sem vítimas) – existe uma probabilidade de que os danos acontecidos na aeronave durante o voo tenham acontecido por raios (pouso foi normal)
  24. Em 13/03/2015, avião Gulfstream G-IV no Japão (sem vítimas) – acredita-se que a aeronave tenha passado perto de uma nuvem Cumulus carregada eletricamente e algum raio tenha atingido o avião (pouso foi normal)

Na grande maioria dos casos, o avião estava voando em uma tempestade, ou seja, sujeito a outros efeitos além do raio que tem maior probabilidade de causar problemas, como redução de visibilidade, cisalhamento do vento, gelo e chuva forte, que poderiam casuar instabilidade no voo. Ou seja, é fundamental observar os meios de previsão de tempo (durante o planejamento e execução do voo, através de comunicação via rádio e radar) para evitar o voo em regiões de tempestade severa.

Com a ocorrência de cada um desses acidentes, foram tomadas medidas para aumentar a segurança através da correção de vulnerabilidades que causaram esses problemas. Assim, não é de se esperar que estes fatores gerem novos acidentes. Note que, neste século, somente dois acidentes (com vítimas) aconteceram sob influência direta de um raio, e em aeronaves pequenas.

Tanques de combustível não explodem mais por causa de raios, pois o volume que antes era preenchido com uma mistura de vapor de combustível e ar (com oxigênio), agora é preenchido por nitrogênio pressurizado, impedindo a evaporação de combustível no tanque. Como o que queima é o vapor de combustível, não acontece ignição. Além disso, ao longo dos anos, a fuselagem foi otimizada para conduzir a eletricidade (tanto estática quanto dos raios) para os descarregadores de estática.

Veja um compilado de raios atingindo aeronaves que ajudam a comprovar as melhorias de segurança:

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