A Fundação – Isaac Asimov

“Fundação” é uma série de livros de Ficcção Científica escritos por por Isaac Asimov sobre a história de um futuro distante cujo destino de seus habitantes é influenciado por uma instituição chamada Fundação Enciclopédica.

Trantor, capital do Império Galáctico.

Trantor, capital do Império Galáctico.

Isaac Asimov (1920-1992) foi um escritor e bioquímico americano, nascido na Rússia, autor de obras de ficção científica e divulgação científica. Sua família emigrou para os Estados Unidos quando ele tinha só três anos de idade. Revistas baratas de papel de polpa, chamadas pulp sobre ficção científica eram vendidas em lojas, e ele começou a lê-las (daí o nome daquele filme, Pulp fiction…). Já adulto, tornou-se amigo próximo do criador de Star Trek, Gene Roddenberry, e foram-lhe dados créditos em Star Trek: The Motion Picture, pelos conselhos que deu durante a produção. (Tem um artigo muito engraçado sobre ele na Desciclopédia).

Algumas de susas histórias foram adaptadas ao cinema, como um dos contos do livro “Eu, robô” e “O Homem bicentenário”. Neles, são faladas as 3 Leis da Robótica, que foram criadas como condição de coexistência dos robôs com os seres humanos, para prevenir qualquer perigo que a inteligência artificial pudesse representar à humanidade:

  • 1ª lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inacção, permitir que um ser humano sofra algum mal.
  • 2ª lei: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.
  • 3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis.

O livro “Eu, robô” mostra, através de diferentes contos, diferentes maneiras de se interpretar essas leis. Por exemplo, no último conto “O Conflito Evitável”, as máquinas usam a 1ª lei e passam a cuidar dos seres humanos, evitando conflitos, guerras e perpetuando nossa existência, o que causa uma dependência dos seres humanos com relação às máquinas. Isso é quase uma profecia nos dias atuais.

Clique aqui para ver o mapa dos planetas e sistemas da série Fundação.

A Fundação

Fundação era originalmente uma série de oito pequenas histórias publicadas na Astounding Magazine entre Maio de 1942 e Janeiro de 1950. As primeira quatro histórias foram publicadas em 1951 no livro “Fundação”, e as restantes nos livros “Fundação e Império” (1952) e “Segunda Fundação” (1953), resultando na “Trilogia da Fundação”. Depois vieram uma continuação, “Fundação e Terra” (1986), e dois livros cronologicamente anteriores à trilogia, “Prelúdio para Fundação” (1988) e “Crônicas da Fundação” (1983).

Livros na ordem indicada para serem lidos. Fonte: <a title=Livros na ordem indicada para serem lidos. Fonte: Livrismos.

O podcast Dragões de Garagem n° 42 fala sobre o livro a Fundação (o primeiro a ser escrito). Vejamos um resumo da história dos livros (em ordem cronológica de acontecimentos):

Prelúdio à Fundação

Em Trantor, o planeta capital do Império Galáctico, o matemático Hari Seldon estuda, apresenta e torna público o uso de técnicas matemáticas que tornariam possível uma predição do futuro da história humana, ciência essa conhecida como psicohistória. Seldon afirma ao governo que não existe praticidade e que o conhecimento é apenas teórico, mas mesmo assim é enviado para exílio. Após viagens e introduções a diversas culturas em Trantor, Seldon percebe que usando a Galáxia inteira como um modelo de início é uma tarefa muito complicada, e decide portanto em utilizar Trantor como seu modelo.

Origens da Fundação

Seldon já conseguiu desenvolver alguns pontos da ciência psicohistórica e está gradativamente aplicando-a em escala galáctica. Sua notabilidade e fama aumentam com os anos, assim como os inimigos, e ele é eventualmente promovido a Primeiro Ministro do Imperador. Instrui sua neta, Wanda, que possui o toque mental (dom), à criação da Segunda Fundação. A Segunda Fundação deveria observar a galáxia sem interferir, como um cientista que observa o funcionamento das leis e sua previsão, sem a alteração dos resultados.

Fundação

Seldon prevê a queda do Império Galáctico e acusado de traição. Explica que a psicohistórica pode ver várias alternativas, pois trabalha com probabilidades, mas que todas terminam com a eventual queda do Império. A previsão era de que o governo cairia e trinta mil anos de conflitos iriam afligir a espécie humana antes da criação de um Segundo Império, mas que o tempo diminuiria para mil anos se fossem reunidas as pessoas mais inteligentes do planeta e criado um compêndio de todo o conhecimento humano, a Enciclopédia Galáctica. O governo permite essa reunião, com a condição de que eles fossem exilados para o longínquo planeta de Terminus, e assim é criada a Primeira Fundação, das ciências físicas, e a Segunda Fundação, inicialmente secreta e das ciências mentais.

“A violência é o último refúgio do incompetente”

Quatro planetas recém declarados independentes estão ao seu redor, e os Enciclopedistas não tem defesas além de sua própria inteligência. O Prefeito da Cidade de Terminus, Salvr Hardin, propõe jogar os planetas uns contra os outros, o que se revela um plano bem sucedido. Usando sua vantagem científica, Terminus desenvolve rotas de comércio com os planetas próximos (os comerciantes tornam-se como embaixadores), eventualmente os conquistando quando sua tecnologia se transforma em uma comodidade essencial para a manutenção de suas vidas. Na realidade humana, nos tornamos mais dependentes do conhecimento técnico quanto mais tecnológica fica nossa vida (e mais poderosas ficam as pessoas que detém esse conhecimento). Seldon começa a ser visto como um semi-deus e a psicohistória como uma religião (por vezes até mágicos) – já que não conhecem como funciona, vira uma questão de fé acreditar nela ou não. INteressante notar que o livro faz um paralelo com a história da humanidade: queda de um grande império (Roma), ascensão e queda do poder religioso (Feudalismo e Igreja Católica) e ascensão do comércio e capitalismo (grandes navegações).

Fundação e Império

O Imperador percebe a Fundação como uma ameaça crescente e ordena que seja atacada. No entanto, remove suas tropas, convencido de que seu poder enquanto governante seria mais vulnerável do que o de seu general caso ele obtivesse sucesso (uma analogia ao Império Romano, cujos comandantes militares ganharam força com as conquistas e assumiram o poder). Apesar de sua inferioridade militar a Fundação emerge portanto como a vitoriosa, e o próprio Império é derrotado.

Enquanto isso, um mutante chamado “Mulo” começa a conquistar planetas com uma grande velocidade. Ele possui a habilidade de alterar psiquicamente as emoções daqueles com quem entra em contato, assim conquista pelo medo e lealdade. Como a psicohistória não prevê ação de seres isolados, com poderes alheios à humanidade comum, Torã e Bayta Darell, acompanhados por Ebling Mis (o maior psicólogo atual da Galáxia) e um palhaço chamado Magnífico (que eles concordam em proteger, pois sua vida está sob a ameaça do próprio Mulo), saem para descobrir a localização da Segunda Fundação, que poderia trazer o fim ao reinado do Mulo. Bayta mata Mis antes que ele possa revelar a localização da Segunda Fndação, e apresenta o Magnífico como sendo o Mulo.

Segunda Fundação

Usando o poder de suas fortes mentes, a Segunda Fundação derrota o Mulo. Ele retorna para governar o seu reino pacificamente pelo resto de sua vida, com nenhum pensamento subsequene de derrotar a Segunda Fundação. A Primeira Fundação imagina que perderá seu posto para a Segunda Fundação e realiza uma busca para destruí-la. Porém, conclui erroneamente que uma dica apresentada sobre sua localização (ela estaria “no lado extremo da galáxia”) indicaria que ambas ocupam o mesmo lugar, já que um círculo (formato da galáxia) não tem fim. Desse modo, uma pequena sociedade que fazia parte da Segunda Fundação foi morta e acreditar ser assunto encerrado. Na verdade, Seldon disse de “extremos opostos” ao pensar em extremo social oposto. Assim, como Terminus estava na parte com menos recursos e cultura, a Segunda Fundação estava localizada em Trantor, a parte então mais forte do Império.

Limites da Fundação

Aos quinhentos anos da Fundação, Golan Trevize, um conselheiro de Terminus, é exilado devido a um discurso em que afirmava ainda existir a Segunda Fundação. Ele é condenado a voltar somente se a encontrar. Como disfarce, leva um historiador, Janov Pelorat, obcecado pela procura do planeta original da humanidade, a Terra, que desde o final do império não se sabe a localização. Acabam encontrando Gaia, o planeta vivo, onde todos os seres vivos e até os inanimados compartilham uma consciência, com poderes suficientes para alterar a mente de qualquer ser humano.

Fundação e Terra

Continuam por sua busca à Terra com Pelorat e uma habitante de Gaia, acreditando que encontrará no planeta de origem a resposta que buscava. Trevize descobre a Terra mas percebe que a resposta pode não estar na Terra, mas em seu satélite: a Lua. Ao chegar no astro, eles são recebidos em seu núcleo por um robô, conhecido como R. Daneel Olivaw, que diz que ele vem guiando a história humana por milhares de anos mas está no fim de sua vida. Para continuar guiando os passos da humanidade (que pode acabar sob ataque de outros seres de além da galáxia) ele precisa fundir sua mente com a de um intelecto orgânico.

Observações (ou “Momento viagem”)

“O povo, por exemplo, que se aumentar a riqueza, ver concentrar-se excessivamente fora das mãos daqueles que a produzem. E que se pode decidir a pôr fim a esta concentração. Compreende o que quero dizer?” – Fundação e Império

Nesse trecho do livro, há uma discussão sobre as razões da queda do Império e a primeira parte termina com essas frases. Parece ser uma das principais leis da movimentação social pela psicohistória (que até são citadas anteriormente no livro mas não achei a página): quanto maior a diferença da concentração de renda, mais próxima está uma sociedade de uma ruptura social ou até mesmo de uma guerra civil. Faz-me lembrar da força do gradiente de pressão, em Física: quanto maior a diferença de pressão, maior a força do vento.

Um dos métodos usados para se medir a concentração de renda é medir quanto o grupo formado pelos 10% mais ricos da população recebe em comparação ao grupo dos 10% mais pobres, conhecido como P90/P10 ou 10% mais ricos a 10% mais pobres. Outro índice muito conhecido é o Coeficiente de Gini. Ambos mostram o Brasil como um dos países com a maior concentração de renda do mundo.

O surgimento do Mulo foi um fator que introduzia muito a incerteza da emoção nas equações racionais de previsão dos movimentos sociais. Comparando a ascensão do Mulo à do Lula, o PT utilizou muito da emoção levantada na época das diretas já, de um líder carismático e do lado do povo, assim como o Mulo controlava as emoções das pessoas. A ascensão do Lula já era prevista como a formação de um governo chamado de Frente Popular, que é um governo encabeçado por partidos da classe burguesa (detentora dos meios de produção) e da classe trabalhadora (sem os meios de produção). Na prática, as lideranças populares tem pouca ou nenhuma voz ativa no governo, sendo suas lideranças sedentas principalmente por cargos e privilégios. O Mulo começou a perder conforme seu poder de dominar as emoções foi diminuindo e a razão foi voltando. Fora da ficcção, isso pode ser feito através de educação básica de qualidade para todos, concientização das massas de seus direitos e deveres cívicos e organização política das comunidades.

“O que é uma derrota? Já vi guerras e já vi derrotas. O que acontece quando o vencedor assume o domínio? Quem é que fica aborrecido? (…) Há cinco ou seis mandões gordos que habitualmente dirigem um planeta médio. Esses recebem a paulada atrás da orelha, mas eu não vou agora perder a paz de espírito por sua causa. Veja. O povo? Decerto alguns morrerão e os restante haverão de ser obrigados a pagar impostos extras por um tempo. Mas hão de acabar por se pôr de fora; e passarão a trabalhar debaixo das ordens de outros. E depois voltarão a sua antiga situação novamente em confusão” – Fundação e Império

Outro trecho interessante, mostrando as guerras como sendo de interesse exclusivo da classe dominante, enquanto que para a classe comandada muda somente o “patrão”, já que sua situação de submissão deve ser mantida.

Veja mais sobre outra obra de Isaac Asimov, O Fim da Eternidade. Uma última notícia: Nasa prevê que planeta está à beira do colapso

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