A Cidade e as Estrelas

Escrita de 1937 a 1946 pelo britânico Arthur C. Clarke, a primeira versão desta obra foi publicada como novela na desaparecida revista pulp “Startling Stories” com o título de “Against the Fall of Night”, em novembro de 1948. Foi expandida, transformada em romance e publicada com o título “The City and the Stars” em 1956. Como a história ocorre 1 bilhão de anos no futuro, muito do avanço tecnológico e intelectual da humanidade é descrito com alguns detalhes dificilmente imagináveis para a época que foi escrito – alguns deles até hoje.

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O protagonista, Alvin e os esquilos, é um jovem que vive na cidade de Diaspar. As pessoas são imortais, ou melhor dizendo, seus corpos vivem centenas de anos, mas suas memórias são guardadas em cristal, que dura para sempre, e são reanimadas em outro corpo após algum tempo. Quando nascem, não diferem muito de um humano “completo”, saindo das chamadas Casas de Criação. Até a pessoa “ressuscitada” recobrar todas as suas memórias, ela é acompanhada por um tutor durante alguns anos – o tutor de Alvin chama-se Jeserac. Ao optarem pela imortalidade, renunciam também a novos nascimentos. Alvin, no entanto, não possui memórias anteriores – citando o Quico, seu cérebro “está novinho, novinho” -, sendo chamado no livro de “único”. Os seres humanos também estiveram sujeitos às leis da evolução, perdendo partes do corpo que não eram mais utilizadas.

Diaspar é a última cidade da raça humana, conforme diz a tradição e o computador central: um conjunto de máquinas que controlam tudo através de ordens dadas pelos pensamentos do seres humanos, além das tarefas já programadas para serem executadas automaticamente. Se a pessoa deseja uma comida ou um móvel ou conversar com alguém, tudo pode ser providenciado por ordens mentais que o Computador Central reorganiza as moléculas presentes para gerar o que se deseja – um versão super avançada de impressora 3D. Note que os humanos de Diaspar optaram por um forte desenvolvimento tecnológico para suprir suas necessidades. No entanto, são extremamente individualistas: vivem dentro de seus quartos e todos os encontros com outras pessoas são virtuais, através de hologramas “sólidos”.

Esse livro é cheio de descobertas realizadas por Alvin e pelo leitor, então se ainda não leu o livro, deixe para ler daqui pra frente depois de o fazer. Assim, você não perderá a surpresa e acompanhará as aventuras tentando imaginar quais seriam as explicações para o que ele está presenciando. Depois, volte para cá enriquecer o entendimento da história e contribuir com suas impressões através do espaço de comentários =).

As lendas relatam que a humanidade já foi um império galáctico, porém foi obrigada a regressar a planeta por forças alienígenas. Voltar ao espaço, inclusive sair das muralhas da cidade, provocaria a ira desses invasores. O exterior da mega cidade é formado por um imenso deserto. Alvin se junta com Khedron, o bufão da cidade: uma pessoa cuja função é tornar um pouco caótica a ordem extrema em que todos vivem na cidade. O bufão ensina um caminho para pegar um trem subterrâneo havia muito tempo inutilizado, que leva Alvin para uma outra cidade composta de diversas vilas: Lys.

Em Lys, os habitantes não baniram a morte e os nascimentos, e preferem viver com um senso extremo de comunidade. Todos estão interligados em pensamento, conversando por telepatia mas sem invadir a privacidade dos pensamentos alheios. É dito que Alvin já era esperado, e que esse tipo de visita já tinha acontecido antes com outros 14 “únicos”. Esses únicos foram criados intencionalmente para surgirem de tempos em tempos para revitalizar a sociedade e impedi-la de se acomodar nas conquistas até entao alcançadas. Descobre-se também que, milhões de anos atrás, as duas cidades decidiram desenvolver-se isoladas, cada uma com suas potencialidades.

Comparando as duas mega cidades, é possível ver Lys como a execução de um amplo ideal comunista de comunidade autogovernada, fundamentada no trabalho consciente, coletivo e harmônico com a natureza. Já Diaspar seria o sonho de consumo definitivo do capitalismo tecnocrático. Mais a frente, Alvin nota que precisa unir as duas cidades para a humanidade desfrutar de todos os benefícios desenvolvidos por cada uma em conjunto.

Alvin sai para explorar a região com Hilvar, o filho da lider local, Seranis, e encontram o local onde teriam sido detidos os invasores do espaço, Shalmirane. Lá vive um pólipo que é a criatura mais antiga da região e que tem o poder de se reconstruir de tempos em tempos. Muito sábia, era um dos poucos que ainda acreditava na volta do Mestre, que usou uma nave (veja sobre ela mais a frente) para ir de encontro aos “Grandes” – uma referências às religiões messiânicas. Ele vivia com um computador, que Alvin deseja levá-lo para Diaspar. No entanto, as autoridades locais querem sobrescrever suas memórias antes dele voltar para somente ter imagens ruins de lá e não revelar a existência de Lys – mas não conseguem.

De volta a Diaspar, Alvin conta tudo que sabe ao conselho de sua cidade e coloca o computador que trouxe para ter suas informações extraídas pelo computador central. Esse computador trazido dizia que só poderia revelar informações quando o “Mestre voltasse com os Grandes”, mas devia ser convencido de que isso não aconteceria. Desse modo, descobrem a localização de uma nave que envia Alvin e Hilvar para o mundo dos Sete Sóis.

No mundo dos Sete Sóis, descobrem mundos fantásticos, alguns até com vida, mas sem inteligência – parecem destruídos e abandonados. No entanto, acabam tendo contato com um ser puramente mental, chamado Vanamonde. No mesmo instante que é descoberto, ele aparece na Terra e entra em contato com os habitantes de Lys que estavam “acampados” dentro de Diaspar. Vanamonde tem muito conhecimento, mas ainda é muito infantil. Acreditam que seja um dos últimos da raça de seres superiores que teriam invadido a Terra milhões de anos atrás, quando a humanidade ainda fazia viagens para fora do planeta, e geraram esse medo do exterior e do desconhecido.

O líder do grupo cuja tarefa tinha sido reconstruir o passado com base nas informações trazidas à Terra por Vanamonde, Callitrax, falou dos resultados das pesquisas em uma assembleia geral:

Falou dos povos desconhecidos da Civilização do Alvorecer, que nada haviam deixado atrás de si senão um punhado de grandes nomes e as lendas esmaecidas do Império. Mesmo no começo, segundo rezava a história, o Homem ansiara pelas estrelas – e as havia finalmente atingido. Durante milhões de anos ampliara seu raio de ação pela Galáxia, dominando sistema após sistema. Fora então que, vindos do negrume que ficava além dos limites do Universo, os Invasores haviam atacado, arrancando do Homem tudo quanto ele alcançara.

A retirada para o sistema solar fora amarga e devia ter durado várias eras. A própria Terra fora salva por um triz pelas batalhas fabulosas travadas em torno de Shalmirane. Quando tudo terminou, ao homem restou apenas suas memórias e o mundo em que havia nascido.

Desde então, o resto fora uma longa decadência. Como suprema ironia, a raça que esperara governar o Universo tinha abandonado a maior parte de seu minúsculo mundo, dividindo-se nas duas culturas isoladas de Diaspar e Lys – oásis de vida num deserto que os cercava tão efetivamente como abismos entre as estrelas.

Depois ele ainda continua:

“O Império durara no mínimo um milhão de anos. Teria certamente conhecido crises, talvez até guerras, mas tudo isso perdeu-se no avanço de grandes raças que se encaminhavam para a maturidade. (…) Mesmo quando atingiram seu auge cultural, nada perderam de iniciativa. (..)

A filosofia que condicionava essas experiências parece ter sido a seguinte: o contacto com outras espécies mostrara ao Homem até que ponto a cosmovisão de uma raça dependia de seu corpo físico e dos órgãos sensoriais com que estava equipado. Argumentava-se que uma verdadeira imagem do Universo só poderia ser obtida, se é que isso era possível, por uma mente livre de tais limitações físicas – uma mentalidade pura, na verdade. Essa era uma concepção comum entre muitas das antigas religiões da Terra e parece estranho que uma idéia que não tinha qualquer origem racional terminasse por tornar-se uma das maiores metas da ciência.

Durante eras, a humanidade se propôs ao desafio de construir uma central de processamento livre das amarras da matéria e dos sentidos físicos, o que foi concretizado um milhão de anos depois:

Como nossas mentes são o subproduto de uma disposição de células cerebrais, imensamente complexas, reunidas pela rede do sistema nervoso, da mesma forma eles se esforçaram por criar um cérebro cujos componentes não eram materiais, mas sim padrões gravados no próprio espaço. Tal cérebro, se podemos chamá-lo assim, funcionaria com forças elétricas, ou ainda maiores do que estas, e estaria completamente livre da tirania da matéria. Funcionaria com velocidade muito maior do que qualquer inteligência orgânica.

A mentalidade pura tinha sido criada, mas ou era insana ou implacavelmente hostil à matéria (anti-matéria? energia escura?). Durante séculos, assolou o Universo, até ser controlada por forças que não poderiam imaginar quais fossem. A Mente Louca não podia ser destruída, pois era imortal. Foi encurralada para a periferia da Galáxia e ali aprisionada segundo meios que não compreenderiam até então. Sua prisão era uma estranha estrela artificial chamada o Sol Negro, encontrando-se lá até então. Quando o Sol Negro morresse, ela estaria livre novamente.

E ficou o mistério de que o Império estabeleceu contacto com algo muito grande, na outra extremidade do próprio espaço. Dentro de um período bastante curto, os ancestrais e as demais raças que lhes faziam companhia haviam partido desse universo. Esse mistério só pode ser resolvido através da fusão das duas civilizações humanas da Terra em uma única humanidade.

“(…) o Homem explorou a Galáxia. Por toda parte encontrava culturas que podia compreender, mas que não conseguia igualar, encontrava também mentes que em breve teriam passado para um ponto além de sua compreensão.”

No livro seguinte, Beyond the Fall of Night, conta-se o que aconteceu centenas de anos depois. Alvin e Seranis estão trabalhando para repovoar a Terra com espécies originais ressuscitadas de uma biblioteca de informação genética antiga. Entre estes seres está Cley, um homem de Cro-Magnon e único sobrevivente de sua tribo. Cley junta forças com Alvin e um roedor grande e inteligente chamado Seeker para eliminar a ameaça da Mente Louca (“Mad Mind” no original) de uma vez por todas e limpar o caminho para a vida no sistema solar prosperar.

Não sei se o autor pensou nisso, mas procurando sobre o nome Vanamonde, encontrei algo muito interessante na mitologia finlandesa. Väinämöinen, o bardo, era um mágico velho e sábio, o filho da deusa primordial Ilmatar (deusa do ar), primeiro homem na terra e herói do épico finlandês “Kalevala”. Para poder voltar a casa, Väinämöinen promete dar à Louhi, uma mulher das terras do norte que cuida dele depois de resgatado de uma queda no mar, o “sampo”, engenho mágico feito pelo ferreiro Ilmarinen que traz prosperidade a quem o possui. Depois, Väinämöinen e os outros dois heróis da terra de Kaleva (Ilmarinen e Lemminkäinen) se juntam para recuperar o sampo, depois das relações entre Kalevala e Pohjola (as terras do norte) tornarem-se hostis. O poema acaba com Väinämöinen desaparecendo num barco de cobre, profetizando que ainda lhe hão-de pedir que traga um novo “sampo”, que faça brilhar um novo Sol e que toque uma nova música. É o final da era mítica finlandesa, simbolizada pela chegada de um novo deus e na partida de Väinämöinen. Veja mais sobre a mitologia da Finlândia e o Kalevala clicando no link.

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